História

Descubra Como Evoluíram os Fatos de Banho dos Vestidos de Lã para os Biquínis

Algumas autoridades francesas rejeitam o uso de burquínis, os fatos de banho de corpo inteiro desenhados à luz dos padrões muçulmanos. Mas como é que os fatos de banho evoluíram para pedaços de tecido mínimos e se tornaram no padrão?Thursday, June 14, 2018

Por Becky Little
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O verão de 2016 foi duro para as mulheres muçulmanas a viver em França, que queriam ir à praia.

Embora o Supremo Tribunal de França se tenha pronunciado contra a proibição do uso de burquínis pelas mulheres muçulmanas nas praias francesas, algumas autoridades locais reiteraram a sua determinação em autuar as mulheres que usassem a indumentária, ao invés dos fatos de banho ou dos biquínis reduzidos comuns nas praias europeias e americanas.

Esta controvérsia tem mais a ver com a perceção da ideologia, que está na génese dos burquínis, do que com os fatos de banho atuais em si. Como algumas pessoas referiram, não existe grande diferença entre um burquíni e um fato com capuz molhado. Mas, ainda assim, a questão põe-se. Como é que os biquínis reduzidos ou reveladores se tornaram no padrão? Por isso, fomos conhecer a evolução dos fatos de banho nos Estados Unidos e na Europa.

VESTIDOS DE BANHO VITORIANOS

Aos olhos modernos, talvez pareça que a mulher desta fotografia esteja a usar um quimono e collants, mas isto é um fato de banho típico do final do século XIX.

“Durante muito tempo, a história dos fatos de banho refletiu em parte da história dos vestidos e da roupa de dormir”, afirma Deirdre Clemente, uma professora assistente em História dos Estados Unidos da Universidade de Nevada, em Las Vegas, cujo trabalho de investigação se centra na moda e na roupa. E, para as mulheres da época vitoriana, os fatos de banho resumiam-se à modéstia.

Uma vez que os vestidos de banho e as calças eram mais curtos do que os vestidos normais, as mulheres tinham de usar meias quando nadavam em praias públicas dos Estados Unidos. Estas roupas, que eram geralmente feitas de lã, não serviam para nadar.

Eram roupas “muito desconfortáveis, pesadas e difíceis de secar,” diz Clemente.

OS FATOS DE BANHO FEMININOS

Alexander Graham Bell na companhia da família em Bras D'or Lake, em Cape Breton Island, na Nova Escócia, no Canadá, em 1907.

A nadadora Annette Kellerman disse que era muito difícil nadar com os fatos de banho femininos e que a situação era ridícula. Foi por isso que defendeu fatos de banho mais leves e mais ajustados ao corpo e até comercializou uma linha de fatos de banho própria.

Nem todos ficaram agradados com a ideia. Em 1907, Kellerman foi detida numa praia em Boston por usar um fato de banho justo, de uma única peça, da sua própria linha.

“A decisão de Kellerman para usar estas roupas e apoiar uma linha de fatos de banho é, realmente, importante, quando se fala sobre a evolução dos fatos de banho”, afirma Clemente. “Aos poucos, mas devagar, a funcionalidade sobrepôs-se à modéstia como um fator determinante.”

Embora fosse frequente à época ver os homens de braços e pernas descobertos, os fatos de banho masculinos ainda lhes cobriam o peito. Acima, o antigo presidente da National Geographic e inventor do telefone Alexander Graham Bell usa um fato de banho masculino contemporâneo à época, fazendo-se acompanhar na praia da filha Elsie e da mulher Mabel, em 1907. Ao contrário das peças de Kellerman, o fato de banho de Elsie não era justo ao corpo e integrava uma saia. As pernas estavam a descoberto, muito provavelmente porque não estavam numa praia pública.

FATOS DE BANHO DA ÉPOCA DO JAZZ

Uma família posa numa praia em 1920.

Durante os loucos anos 20, as mulheres começaram a usar vestidos e fatos de banho mais curtos. As regras das praias públicas mudaram a par da moda.

“No final dos anos 20, princípio dos anos 30, a ideia de cobrir as pernas era considerada primitva na maioria das praias”, afirma Clemente. “Por isso, arriscaria dizer que, no início dos anos 30, muitas daquelas regras eram consideradas ultrapassadas.”

Clemente refere um mito popular, segundo o qual Miami Beach terá sido o primeiro lugar a banir a obrigação de cobrir as pernas. Aparentemente, Jane Fisher, mulher de Carl Fisher, o homem por detrás do desenvolvimento de Miami Beach, pensou que essa seria uma boa forma de atrair turistas ao local.

PEITOS A DESCOBERTO E FATOS DE BANHO JUSTOS

Na década de 1930, os fatos de banho tornaram-se ainda mais indecorosos. Os homens começaram a usar calções, sem cobrir o tronco, e os fatos de banhos das mulheres tornaram-se mais justos, denunciando as formas do corpo.

Tal como os fatos de banho dos anos 20 refletiam os vestidos da época, também os fatos de banho dos anos 30 espelhavam uma nova tendência da moda feminina. “Na década de 30, os fatos de banho perderam as costas da mesma forma que os vestidos de noite deixavam as costas a descoberto”, diz Clemente.

Com os tops cada vez mais decotados e os calções femininos cada vez mais curtos, só sobrava uma peça para reduzir o tecido ao mínimo.

BIQUÍNIS MÍNIMOS

Três jovens mulheres em biquíni divertem-se numa praia em Palm Springs, na Califórnia, na década de 1950.

O estilista francês Louis Reard introduziu o biquíni em 1946. “Marcou a rutura com a modéstia, enquanto fator determinante na criação de um vestido”, diz Clemente. Embora tivessem existido fatos de banho compostos por duas peças antes do biquíni de Reard, nenhum deixava tanta pele a descoberto.

“Penso que o biquíni é a expressão máxima da funcionalidade”, afirma Clemente. “Não há realmente muito a fazer, exceto reduzir o que se mostra.”

No início, muitas pessoas consideravam o biquíni uma peça indecorosa. E, tal como refere Alissa J. Rubin no New York Times, algumas praias em países católicos, como Itália, baniam o uso das peças minúsculas.

Parece-lhe familiar? Devia. O artigo de Rubin compara a proibição do uso de biquíni, em Itália, ao incidente que marcou o verão de 2016, em Nice, na França, onde agentes da polícia forçaram uma mulher a despir parte do seu burquíni.

“Fico perplexa por termos chegado a um ponto em que forçamos as mulheres a despir peças de roupa para se manterem em linha com aquilo que nós, enquanto sociedade, consideramos ser a indumentária adequada”, afirma Clemente.

Porém, “enquanto historiadora que estuda a forma como a sociedade regula o corpo feminino”, diz não se sentir totalmente surpreendida.

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