O que Faz uma Arara com 2000 Anos no México?

Tratando-se da mais antiga múmia de uma arara em todo o mundo, esta constitui uma importante descoberta, e é uma peça importante na história do comércio entre o Sudoeste norte-americano e o México. sexta-feira, 29 de junho de 2018

Em 2016, um indivíduo fazia obras na sua propriedade, a cerca de 480 quilómetros a sul da fronteira com o Texas. O seu objetivo era o de construir uma cave, por isso contratou alguns trabalhadores e alugou uma escavadora para o ajudarem com o projeto. Mal sabiam que estavam prestes a desenterrar uma verdadeira mina recheada de tesouros arqueológicos.

Enquanto preparavam o terreno, os trabalhadores começaram a deparar-se com estranhos artefactos na propriedade situada em San Francisco de Borja, no estado de Chichuaua, localizado no norte do México.

O dono da propriedade suspendeu a obra, tirou uma fotografia aos achados, e enviou-a a Emiliano Gallaga, arqueólogo e diretor da Escola de Antropologia e História do Norte de México, integrada no Instituto Nacional de Antropologia e História.

"A primeira coisa a prender-nos a atenção foi a cabeça de uma arara em perfeito estado de conservação”, afirma Gallaga.

Perdida durante milhares de anos, a cabeça desta múmia natural pré-histórica emergiu por fim. O verde vibrante das suas penas é ainda bastante pronunciado, e o bico de queratina encontra-se intacto. Tratava-se de uma Arara-militar, uma ave de porte médio que ainda existe nos dias de que correm. Dois anos volvidos desde que foi descoberta, esta arara mumificada foi datada como sendo 800 mais velha do que os outros espécimes encontrados na região, cedendo-nos assim algumas pistas muito relevantes relativamente ao comércio e à religião do final período Arcaico  americano.

PENAS ACHADAS

Além da cabeça da arara, os arqueólogos encontraram o esqueleto de uma criança e os membros inferiores de um homem de pernas atadas. Entre estes achados encontraram ainda outros artefactos com milhares de anos, tais como pontas de pedra e têxteis.

Até à data, foram encontrados no Sudoeste norte-americano e Noroeste mexicano 670 restos mortais de araras datados de, aproximadamente, 1200 d.C.

Mas a arara da Cave Avendaños foi a primeira a ser encontrada fora da região arqueológica de Paquimé. Além disso, esta múmia tem cerca de 2000 anos de idade, sendo assim a mais antiga deste género.

"Uma das razões que torna a descoberta de Gallaga tão fascinante prende-se com a antiguidade do espécime”, confessa Abigail Holeman, administradora da University of Virginia que tem desenvolvido investigação a respeito do significado das araras no imaginário religioso de Paquimé, Chihuahua. “Diz-nos algo a respeito da antiguidade e da importância do papel que ocupavam nos rituais.”

AS AVES

Apesar dos muitos achados arqueológicos que conservaram restos mortais destas espécies na região, há milhares de anos, as araras militar e canga não eram aves nativas da região que hoje conhecemos como Paquimé. As araras-militar, como a encontrada na Cave Avendaños, podiam, até, ser encontradas a sul da região, mas, certamente, não eram nativas de Paquimé.

"Ainda são 400 quilómetros; 400 quilómetros para transportar a ave para esta região”, explica-nos Gallaga. “Não era qualquer pessoa que tinha meios para mandar vir uma arara de tão longe.”

Muitos arqueólogos acreditam que estas aves eram tidas como animais de estimação exóticos por membros importantes das elites da sociedade, como xamãs e comerciantes, e que representavam um elevado valor económico. Tal como o milho e as peles de búfalo, as araras eram, provavelmente, vendidas aos comerciantes do litoral em troca de conchas e peixe.

Tendo o espécime sido datado de há 2000 anos, Gallaga afirma que se concluiu que comércio destas aves remonta a tempos mais remotos do que se pensava até agora. Algumas interpretações envolvem estas aves em significados religiosos, afirmando que é possível que fossem vistas como intermediários alados entre a Terra e o domínio divino.

"As duas interpretações não se anulam, nem são exclusivas; pelo contrário”, afirma Holeman, explicando-nos que as aves podem ter tido importância religiosa e um elevado valor económico ao mesmo tempo. “O que é realmente importante aqui é termos ficado a saber o quão antigos são estes artefactos.”

Tratando-se esta da primeira escavação naquele local, ainda há muito trabalho para os arqueólogos desenvolverem, representando uma possibilidade de compreenderem melhor a sociedade do final do período Arcaico e o papel nela desempenhado pelas araras.

"Não temos informação alguma sobre os primeiros povoados desta região", diz-nos Gallaga. "A próxima fase prende-se simplesmente com continuar a investigação nesta zona."

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