Fugidas da Guerra, as Crianças Refugiadas Debatem-se Com o Trauma Psicológico

Em Lesbos, na Grécia, os jovens refugiados debatem-se com o agravamento das fragilidades da saúde mental.quarta-feira, 25 de julho de 2018

Por Nina Strochlic
Fotografias Por Robin Hammond

No outono de 2015, Essam Daod estava na praia na ilha de Lesbos, quando uma pequena embarcação de borracha, apinhada de gente, desembarcou na costa. Entre a densa massa humana estava um rapaz sírio, de cinco anos, chamado Omar, que chorava inconsolável.

Daod arrancou-o dos braços da mãe e apontou na direção do helicóptero da polícia, que sobrevoava a zona: “Vieram fotografar-te com máquinas fotográficas gigantes, porque só os grandes heróis, sãos e fortes como tu, são capazes de atravessar o mar!”. Omar parou de chorar. “Eu sou um herói?”, perguntou em árabe. Convencido da sua valentia, o rapaz acedeu em mostrar àquele estranho a embarcação na qual tinha cruzado o mar. “Eu mostro-te onde estava sentado e como parei as ondas com as mãos e protegi toda a gente”, gabou-se.

Naquele momento, Daod, um psiquiatra pediátrico de origem palestiniana, apercebeu-se de que havia uma forma de trabalhar o trauma, quando este ganhava forma. Pouco tempo depois, a instituição de saúde mental que dirige, a Humanity Crew, lançou o Heroes Projet para dar formação aos voluntários envolvidos nas operações de salvamento, com o objetivo de ajudar os refugiados a reescrever as memórias de uma travessia arriscada.

No ano passado, uma organização médica sírio-americana anunciou que a gravidade do stress pós-traumático sofrido pelas crianças sírias ultrapassava a definição clínica e deveria ser designado “síndrome da devastação humana”. “Os cuidados de saúde mental para os refugiados são uma crise invisível, que ocupa um plano secundário no elenco de preocupações das organizações não governamentais e da comunidade internacional. Com parcos fundos para o tratamento das perturbações mentais, os 1,5 milhões de refugiados que chegaram à Europa por mar, desde 2015, são deixados à sorte para lidar com as feridas psicológicas.

Cerca de 8000 refugiados estão retidos em Lesbos, após a celebração de um acordo entre a União Europeia e a Turquia, que fechou a respetiva fronteira em 2016, pondo fim à rota oriental. Desde então, as condições de vida e as perspetivas de um futuro na Europa deterioraram-se. O campo com maior área, Moria, excede em dobro a capacidade máxima, e alguns dos seus habitantes definham no confinamento do espaço, há anos. Um sentimento de desespero e uma detenção, sem fim à vista, apodera-se dos mais frágeis e leva alguns ao limite. Em maio, um refugiado imolou-se no exterior de um gabinete de asilo, no campo.

“As pessoas pensam que a luta acabou, quando se tornam refugiados, mas a verdade é que essa luta está apenas no início”, diz Samantha Nutt, fundadora da War Child, uma organização que presta serviços educativos e dá ajuda psicológica às crianças, que vivem em zonas de conflito, à escala mundial. “Os riscos que enfrentam aumentam exponencialmente quando se tornam refugiados.”

A cena de um salvamento é caótica. Quando os voluntários que integram as equipas de salvamento entram numa embarcação, o pânico pode tomar conta do momento. Os refugiados desidratados e queimados pelo sol gritam, choram e, por vezes, saltam para o mar aberto, apavorados pela ideia de serem repatriados. Aqueles que chegam por mar, especialmente as crianças, desenvolvem fobias em torno do oceano, que se manterão durante anos.

Ao retirarem os refugiados assustados das embarcações, os elementos das equipas formadas pela Humanity Crew felicitam as crianças por terem ajudado a salvar as suas famílias, pedem-lhes autógrafos e tiram fotografias. Quinze minutos depois, as crianças transformam-se. Falam com confiança sobre a forma como salvaram o dia, e, quando são alojadas num campo na ilha de Lesbos, fazem circular histórias e canções sobre a sua coragem.

“Os cérebros das crianças possuem uma enorme elasticidade”, diz Daod. “Se se intervir em tempo útil, de forma adequada, no momento em que o trauma ganha contornos, é possível transformar um episódio traumático numa experiência reabilitante.”

O campo de Moria, em Lesbos, está de tal forma sobrelotado que os refugiados vivem atualmente em extensões de terra provisórias, num olival contíguo. "A morosidade dos procedimentos de asilo esvazia estas pessoas da esperança que alimentou a sua fuga dos países de origem”, disse Luca Fontana, um coordenador dos Médicos Sem Fronteiras no terreno, ao fotógrafo Robin Hammond. "As pessoas sentem-se a perder o controlo sobre as suas vidas e o seu futuro, e isto tem um enorme impacto na sua saúde mental.”
Fotografia de Robin Hammond

Em 2015, quando milhares de refugiados desembarcavam, diariamente, em Lesbos, Daod viajou até à ilha oferecendo-se como médico voluntário. Mais tarde, de regresso a casa em Israel, Daod começou a ter pesadelos. Era perseguido por uma criança, que tinha resgatado das águas e tinha reanimado. “Tudo bem, eu salvei o rapaz, reanimei-o, e que mais fiz eu? “, pensou Daod. “O rapaz vai carregar consigo um trauma durante toda a sua vida. Se não lhe dou o suporte para que preserve intacta a sua saúde mental, não lhe devia ter dado suporte de vida.”

Para preencher o imenso vazio e dar resposta às necessidades de apoio psicológico, Daod cofundou a Humanity Crew. A equipa, com um número reduzido de técnicos, adotou uma nova abordagem: em vez de abordar o trauma psicológico como um efeito colateral da deslocação, considerou-o tão importante, senão mais, quanto os cobertores e a comida. “Os primeiros socorros não devem estar orientados apenas para o corpo, mas também para o espírito e a mente”, diz Daod.

No mar, os técnicos ensinaram os membros das equipas de salvamento a reestruturar a narrativa de episódios traumáticos, à medida que estes aconteciam. Mais tarde, começaram a trabalhar cada uma das quatro fases do trauma, pelas quais passam todos os refugiados: deixar a casa, mudar-se para um centro de acolhimento ou campo, procurar asilo e adaptar-se a um novo país.

Noor Almohamad, de 12 anos, desenhou a fuga da família da Síria. A sua casa foi completamente destruída na guerra. A mãe Kafa Alisa recorda: "Há seis anos ainda tínhamos esperança, mas, depois da destruição da nossa casa, quando deixou de haver trabalho, quando o meu primo foi morto e o meu irmão desapareceu, quando vimos cadávares nas ruas, pessoas mortas no interior das suas casas, corpos desmembrados, perdemos a esperança.”
Fotografia de Robin Hammond

Nos países estrangeiros, os refugiados, sobretudo menores, encontram um rosário de novos perigos. Com as necessidades humanitárias subfinanciadas – são precisos cerca de 1 300 milhões de euros não previstos no orçamento de 2018 da agência para os refugiados das Nações Unidas —, muitos jovens lançam-se à procura de trabalho para fugir à precariedade dos campos e aos perigos que escondem. Segundo a UNICEF, existem cerca de 22 500 crianças refugiadas na Grécia, e apenas metade frequenta a escola. Na maioria dos países, é ilegal contratar refugiados no setor formal, por isso os jovens aceitam trabalhos informais, tais como pedir esmola, prostituição e trabalho não declarado.

Embora a população de refugiados esteja mais sensibilizada para os problemas de saúde mental, este ramo permanece subfinanciado e sem uma linha de orientação. “É necessário definir a emergência da assistência humana numa perspetiva mais abrangente e não olhar apenas para os riscos físicos, mas também para os contrangimentos psicológicos”, afirma Nutt da War Child. “Existe esta perceção de que o trabalho no domínio da psicologia é um trabalho leve, quando comparado com a dureza de outro tipo de intervenções, como distribuir não-sei-quantos cobertores ou montar um número desmedido de tendas.”

Na Grécia, Daod diz que os projetos que promovem efetivamente a saúde mental são relegados para um plano secundário, sendo muitas vezes desenvolvidos por pessoas que não falam a língua árabe ou que não compreendem o trauma no âmbito do contexto cultural dos refugiados. Uma tendência com efeitos adversos são os voluntários de curto prazo, que desenvolvem laços profundos com as crianças, partindo pouco tempo depois. Voluntários sem qualificações adequadas nunca seriam destacados para aconselhar os sobreviventes de um tiroteio num recinto escolar nos Estados Unidos, afirma Daod, pelo que a mesma premissa deveria ser válida e aplicada aos sobreviventes da guerra, acolhidos num campo de refugiados.

Jovens rapazes que viveram no campo de refugiados, conhecido por Olival, entre dois a seis meses, procuram uma sombra no sol da tarde. Todos eles abandonaram a Síria, porque seriam obrigados a lutar ou pelas forças governamentais, ou pelo ISIS, caso permanecessem na Síria. “Os sírios foram testemunhas involuntárias de uma realidade muito dura. Eles mataram os seus irmãos, as suas mães, os seus pais, e, com isso, os problemas mentais tornaram-se banais no seio da população” diz Ali Mohammed Hassan, de 25 anos, no fundo, à esquerda, na imagem.
Fotografia de Robin Hammond

A abordagem urgente dos problemas de saúde mental é o passo mais eficiente, mas a falta de clarividência irá traçar o caminho de uma geração perdida. Daod antecipa um panorama negro, se a crise na saúde mental entre os jovens refugiados permanecer na ignorância, sem qualquer abordagem terapêutica. “O terrorismo não recruta pessoas, preenche vazios e a perturbação mental é um imenso vazio”, afirma. “Os extremistas hão de vir ao encontros destes jovens e darão a esses vazios um significado, quando os jovens estiverem sentados nos campos durante anos, nos bairros degradados de Atenas.”

Quaisquer que sejam as consequências futuras, aqueles que procuram uma nova vida em território europeu conheceram o lado mais negro da humanidade e são agora deixados no limbo, sem que lhes assistam mecanismos adequados, que os ajudem a lidar com as feridas do passado e as angústias do presente. Quando a guerra findar e estas pessoas puderem regressar aos seus países, a normalidade não fará parte das suas vidas. Estas pessoas não têm nada “normal” a que possam regressar.  “Esta ideia de que podemos ajudar as pessoas a recuperar a normalidade é uma utopia”, diz Nutt. “Podemos ajudar as pessoas a lidar com a situação, mas o processo requer uma visão de longo prazo e recursos, e, infelizmente, para a maioria dos governos, a visão é de curto prazo e no processo as pessoas vão ficando cada vez mais para trás.”  

Este projeto foi desenvolvido em colaboração com os Médicos Sem Fronteiras. Este artigo foi originalmente publicado em NationalGeographic.com em Inglês.

 

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