Escrita do Alvão: o Mistério que Perdura

Serão as pedras do Alvão guardiãs de um segredo fantástico? Ou são uma fraude, como muitos disseram?quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Por National Geographic

Segundo as teorias oficiais, a invenção da escrita remonta a cerca de 3200 a.C, altura da qual datam os primeiros escritos relativos à agricultura, na Baixa Mesopotâmia. No entanto, artefactos arqueológicos encontrados no final do século XIX, em Trás-os-Montes, podem sugerir outra coisa.

As pedras do Alvão

No Museu de Vila Real encontram-se expostas pedras com misteriosas gravações. Datam de 1884, e foram encontradas em jazigos megalíticos da Serra do Alvão, por dois homens: o Professor José Isidro Brenha e o pároco José Raphael Rodrigues.

Nestas pedras podem distinguir-se figuras de animais, pequenas covinhas e misteriosos caracteres de um alfabeto desconhecido. Traços com linhas quebradas, treze carateres dispostos em linhas horizontais, o símbolo do Sol e uma “perfeita inscrição composta por 18 carateres dispostos em cinco linhas horizontais” são indícios que continuam a intrigar os cientistas.

Esta descoberta foi menosprezada, já que era difícil tirar dali conclusões, e as que se tiravam, eram demasiado intrincadas para compreender facilmente. Foi inclusive considerada um falso achado, até um dia.

 

Alguma coisa... não encaixa

Desde a sua descoberta que as pedras do Alvão têm causado tumulto na comunidade científica. Mas porquê? Estes achados arqueológicos foram estudados e datados, e concluiu-se que tinham sido gravados com instrumentos de metal. Isto significa que pertenceriam à Idade dos Metais. O “problema” reside no local onde foram encontrados: no interior de um túmulo intacto da Idade da Pedra – leia-se, um dólmen.

O dólmen estaria intacto. E aqui é onde tudo se complica. Como estariam artefactos datados da Idade dos Metais, cerca de 6000 a.C., dentro de um túmulo intacto da idade da Pedra (anterior à Idade dos Metais)?

Estudos arqueológicos, nomeadamente a datação pelo método de carbono 14, apontam para que estes achados com o alfabeto tenham aproximadamente 6000 anos, embora alguns estudiosos falem em cerca de 17000 anos.

Mas o Alvão não é o único mistério

Um pouco mais tarde, em 1924, numa vila francesa dos arredores de Vichy chamada Glozel, um rapaz de dezassete anos e o seu avô encontraram numa câmara subterrânea algo que lembrava restos de um funeral antigo: ossos humanos, fragmentos de cerâmica, e umas misteriosas pedras.

Veio a descobrir-se que também estes artefactos encontrados tinham neles um alfabeto desconhecido. Os franceses, no entanto, não foram tão rápidos a menosprezar aquilo que se encontrou. De facto, a descoberta de Glozel causou processos em tribunal, investigações policiais e longas trocas de insultos entre académicos de vários países.

Depois de muita comoção, e sem um consenso científico, ficou relativamente estabelecido que os escritos de Glozel são evidência de um alfabeto antigo. Não se conseguindo saber com certeza se mais ou menos antigo que o Fenício.

Ora, as semelhanças entre os escritos do Alvão e os de Glozel são, para alguns, monumentais. O autor José Teixeira Rego, na sua publicação de 1927 “Os Alfabetos do Alvão e Glozel:  Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, vol. III” dizia que o alfabeto de Glozel não só é único, como “tem uma estreita ligação com o Alvão”.

Por outro lado, o autor Mendes Corrêa, na publicação “Glozel e Alvão: Os portugueses e a invenção do alfabeto”, de 1926, diz que o Alfabeto do Alvão e o Ibérico são mais parecidos entre eles do que com o de Glozel.

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Os alfabetos da discórdia

Entre as muitas teorias que visam explicar o alfabeto do Alvão, e a sua descoberta naquele dólmen, há umas que invocam contrafação, outras extraterrestres, e ainda há as que atestam a legitimidade do achado. O mesmo se passa com os escritos de Glozel.

(O que fazia uma arara com 2000 anos no México?)

Nos anos vinte, a seguir à descoberta dos artefactos em Glozel, o então diretor do Museu do Louvre, René Dussaud, processou por falsificação um dos homens que encontrou as tabuletas. O homem, Emile Fradin, retaliou e processou-o por difamação.

Também o presidente da Sociedade Pré-Histórica Francesa processou Fradin por falsificação. O museu de Glozel chegou a ser vandalizado em 1928, e os artefactos confiscados pela polícia. Mais tarde, Fradin foi ilibado das acusações, por ser improvável que um só homem tivesse falsificado tanto material, e os achados foram provados genuínos. Dussaud foi, em 1930, condenado culpado de difamação.

Em relação ao alfabeto do Alvão, os ânimos não aqueceram tanto, mas desde a sua descoberta que se tenta desacreditar os achados. Há, inclusive, autores que simplesmente tomam os achados como falsos artefactos.

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O primeiro alfabeto do Mundo?

É perigoso assumir que a escrita do Alvão constitui o primeiro alfabeto do Mundo, até porque ainda não existe um consenso na comunidade científica em relação à sua autenticidade. No entanto, a confirmar-se a idade atribuída por alguns ao alfabeto do Alvão, cerca de 17.000 anos, muitas seriam as questões por responder.

Sendo essa a idade verdadeira, poderia relacionar-se esta escrita com um achado próximo: um calendário lunar do período Magdaleniano (entre 15.000 a.C e 9000 a.C), encontrado em 2012 na Galiza. A escrita e a medição do tempo são sinais evidentes de uma sociedade avançada.

Então quereria isto dizer que a civilização teria nascido na península Ibérica? Ou que uma civilização anterior às conhecidas teria existido, e lhe teríamos perdido o registo? Pode a origem da nossa presente escrita ser o extremo Ocidental da Península Ibérica e não o Oriente?

As perguntas são muitas e, infelizmente, agora ainda há poucas respostas, pelo que devemos deixar este mistério na mão de especialistas.

Onde estão as tabuletas do Alvão?

Passados mais de cem anos da descoberta do misterioso alfabeto primitivo, o paradeiro das gravuras e inscrições é um outro mistério. A informação adiantada pela arqueóloga Mila Simões de Abreu, em janeiro de 2013, é dececionante: “Algumas das pedras estão patentes no Museu de Vila Real, outras pertencem ao espólio do Museu Nacional de Arqueologia e, possivelmente, algumas delas algures no Museu de Antropologia do Porto. As restantes pertencerão a coleções privadas espalhadas pela Europa...

Infelizmente, grande parte desta singular coleção arqueológica pode estar perdida para sempre. Mas, pelo menos alguns dos artefactos estão de facto no Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real, pelo que não perca a oportunidade de o visitar e ver pelos seus olhos!

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