Conheça as Mulheres Que Lutam Pela Igualdade nos Andes

As Cholitas Voadoras da Bolívia combinaram a luta moderna com o passado ativista da sua comunidade.

Friday, September 14, 2018,
Por Laurence Butet-Roch
Fotografias Por Luisa Dörr
Noelia, uma lutadora de 19 anos, posa para a fotografia com o traje tradicional de cholita.
Noelia, uma lutadora de 19 anos, posa para a fotografia com o traje tradicional de cholita.
Fotografia de LUISA DÖRR

“As pessoas precisam de heróis, lutadores, campeões no seio das suas próprias comunidades, com os quais se possam identificar”, reflete a fotógrafa brasileira Luisa Dörr, que passou dez dias em El Alto, na Bolívia, com um grupo único de lutadoras femininas conhecidas por Cholitas Voadoras. Facilmente identificáveis pelos seus trajes coloridos e elegantes, com as suas saias de camadas sobrepostas, xailes bordados e delicados chapéus de coco, as cholitas surgiram na viragem do milénio, como uma expressão do renascimento indígena que se afirmou nas Américas.

Uma vez por ano em El Alto, na Bolívia, as lutadoras participam num combate de grande escala, que envolve participantes de ambos os sexos. Todos aqueles que quiserem escapar ao combate têm de saltar as barreiras do ringue, sendo o vencedor a última pessoa que ficar no interior daquele.
Fotografia de Luisa Dörr
Wara, uma lutadora de 19 anos, diz: “Graça à luta livre, já viajei por muitos lugares na Bolívia. Para nós, esta é a nossa profissão.”
Fotografia de LUISA DÖRR

Dörr, que compara estas mulheres às super-heroínas de Hollywood capazes de voar, conheceu estas lutadoras, quando o seu marido trabalhava com o arquiteto local Freddy Mamani. Dörr lembra-se de assistir aos combates de domingo no pavilhão polidesportivo da comunidade. “Já há muito tempo que deixei de gostar de lutas entre homens. São sempre a mesma coisa, mas as cholitas salvam o espetáculo. O público mais jovem identifica-se com as heroínas boas, enquanto o mais velho prefere as mais duronas”, diz.

As cholitas treinam duas vezes por semana e veem vídeos do YouTube de luta mexicana para melhorar as técnicas e os truques. “A luta livre, mais do que qualquer outra coisa, é uma atualização permanente de manobras. É como andar de bicicleta. Quando se aprende, nunca mais se esquece. Mas, se se quiser fazer habilidades com a bicicleta, é preciso praticar. Na luta livre é exatamente a mesma coisa. A aprendizagem é uma constante", explica Claudina, cujo pai, irmão e irmã também lutam.

Claudina, uma Cholita Voadora, vem de uma família de lutadores. “O meu pai era um lutador. O meu irmão é um lutador. A minha irmã é uma lutadora e eu sou uma lutadora.”
Fotografia de LUISA DÖRR
Wara, de 19 anos, ergue as mãos ao alto para a fotografia.
Fotografia de LUISA DÖRR
O ringue em Dolores, no Pavilhão Desportivo de El Alto, é delimitado por uma rede e, durante os combates, os fãs concentram-se em torno do ringue, animando, gritando ou zombando das lutadoras.
Fotografia de LUISA DÖRR

E quanto mais aperfeiçoam a técnica, mais forte se afirma a sua presença num campo dominado por homens. Por vezes, ambos os géneros defrontam-se no ringue. “Quando uma mulher luta a 100 por cento, os homens querem lutar a 1000 por cento. Eles não aceitam ser ultrapassados. Entre os nossos companheiros, há alguns que são anti-cholitas”, diz Mary Llanos Saenz, conhecida no ringue por Juanita La Cariñosa, que luta há quase 20 anos. “No início, nós não podíamos entrar no vestiário dos homens. Mudávamos de roupa nas bancadas e esperávamos no exterior. Foi por isso que criámos a Associação das Cholitas Voadoras. Ali, os homens não participam.”

Monica, uma amiga e assistente social na comunidade, foi a porta de entrada de Dörr. “As cholitas não querem saber de jornalistas e revistas de glamour”, afirma Dörr. “Muitas delas não queriam perder tempo com uma fotógrafa sobre uma história que nunca irão ler.” A sua atitude em relação aos media deve-se, em parte, às preocupações das cholitas com temas urgentes do que com quaisquer pretensões ou aspirações à fama. Durante séculos, estas mulheres travaram uma luta fora do ringue para proteger o bem-estar da sua comunidade.

Angela, à semelhança de muitas Cholitas Voadoras, é mãe solteira. Outras partilham a vida com homens, que são, também eles, lutadores.
Fotografia de LUISA DÖRR
As saias volumosas, que as mulheres da Bolívia foram obrigadas a usar pelos colonos espanhóis durante séculos, são hoje um símbolo de identidade e orgulho.
Fotografia de LUISA DÖRR
Sonia, que é proprietária de um salão de beleza, diz que “por vezes, magoamo-nos e temos de fazer um interregno de meses. Eu já parti o pulso, mas nunca tive quaisquer lesões que me impedissem de voltar a lutar ou trabalhar”.
Fotografia de LUISA DÖRR

A maioria das lutadoras cholitas são aimará, uma nação indígena que habita nas planícies altas da América do Sul. O grupo foi alvo de repressões étnicas e exploração, desde os tempos da colonização espanhola na região. Chamadas pejorativamente de cholos ou cholas nessa altura, as mulheres eram colocadas ao serviço de aristocratas e obrigadas a executar tarefas menores, bem como adotar os costumes europeus. Era-lhes vedada a entrada em restaurantes, transportes públicos e em certos bairros abastados, e não tinham direito de voto e de propriedade, sendo-lhes inclusive negada a oportunidade de aprender a ler.

Resiliente, a comunidade organizou-se e conduziu, com sucesso, vários movimentos ao longo de décadas, o último dos quais culminou com a expulsão do presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, que enfrenta atualmente acusações por execuções extrajudiciais, e a eleição de um político aimará, Evo Morales, para o cargo mais alto do país. No processo, as mulheres reclamaram para si o nome, outrora pejorativo, e a indumentária imposta pelos colonos espanhóis, transformando ambos em símbolos de identidade e orgulho.

“Quando El Alto se indispõe com o Estado, seja porque negligenciou as suas escolas, os seus centros de saúde ou os seus mercados, seja pela falta de segurança nos bairros, são as mulheres que se chegam à frente e manifestam o seu descontentamento e indignação”, explica Dörr. “E é aí que está a essência, a razão pela qual as pessoas gostam de assistir e admiram a luta das cholitas, porque essa é a representação das mulheres cholas aimará de El Alto.”

Quando várias mulheres da comunidade indígena da Bolívia foram forçadas a trabalhar como serviçais para os colonos espanhóis, eram obrigadas a usar uma indumentária própria. Algumas das peças, incluindo as volumosas saias e os chapéus de coco, são hoje símbolos de orgulho para as cholitas.
Fotografia de LUISA DÖRR

Luisa Dörr é uma fotógrafa brasileira, que se estabeleceu na Baía. Saiba mais sobre o seu trabalho no seu website ou no seu perfil do Instagram.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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