Conheça as Mulheres Que Lutam Pela Igualdade nos Andes

As Cholitas Voadoras da Bolívia combinaram a luta moderna com o passado ativista da sua comunidade.sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Por Laurence Butet-Roch
Fotografias Por Luisa Dörr

“As pessoas precisam de heróis, lutadores, campeões no seio das suas próprias comunidades, com os quais se possam identificar”, reflete a fotógrafa brasileira Luisa Dörr, que passou dez dias em El Alto, na Bolívia, com um grupo único de lutadoras femininas conhecidas por Cholitas Voadoras. Facilmente identificáveis pelos seus trajes coloridos e elegantes, com as suas saias de camadas sobrepostas, xailes bordados e delicados chapéus de coco, as cholitas surgiram na viragem do milénio, como uma expressão do renascimento indígena que se afirmou nas Américas.

Dörr, que compara estas mulheres às super-heroínas de Hollywood capazes de voar, conheceu estas lutadoras, quando o seu marido trabalhava com o arquiteto local Freddy Mamani. Dörr lembra-se de assistir aos combates de domingo no pavilhão polidesportivo da comunidade. “Já há muito tempo que deixei de gostar de lutas entre homens. São sempre a mesma coisa, mas as cholitas salvam o espetáculo. O público mais jovem identifica-se com as heroínas boas, enquanto o mais velho prefere as mais duronas”, diz.

As cholitas treinam duas vezes por semana e veem vídeos do YouTube de luta mexicana para melhorar as técnicas e os truques. “A luta livre, mais do que qualquer outra coisa, é uma atualização permanente de manobras. É como andar de bicicleta. Quando se aprende, nunca mais se esquece. Mas, se se quiser fazer habilidades com a bicicleta, é preciso praticar. Na luta livre é exatamente a mesma coisa. A aprendizagem é uma constante", explica Claudina, cujo pai, irmão e irmã também lutam.

E quanto mais aperfeiçoam a técnica, mais forte se afirma a sua presença num campo dominado por homens. Por vezes, ambos os géneros defrontam-se no ringue. “Quando uma mulher luta a 100 por cento, os homens querem lutar a 1000 por cento. Eles não aceitam ser ultrapassados. Entre os nossos companheiros, há alguns que são anti-cholitas”, diz Mary Llanos Saenz, conhecida no ringue por Juanita La Cariñosa, que luta há quase 20 anos. “No início, nós não podíamos entrar no vestiário dos homens. Mudávamos de roupa nas bancadas e esperávamos no exterior. Foi por isso que criámos a Associação das Cholitas Voadoras. Ali, os homens não participam.”

Monica, uma amiga e assistente social na comunidade, foi a porta de entrada de Dörr. “As cholitas não querem saber de jornalistas e revistas de glamour”, afirma Dörr. “Muitas delas não queriam perder tempo com uma fotógrafa sobre uma história que nunca irão ler.” A sua atitude em relação aos media deve-se, em parte, às preocupações das cholitas com temas urgentes do que com quaisquer pretensões ou aspirações à fama. Durante séculos, estas mulheres travaram uma luta fora do ringue para proteger o bem-estar da sua comunidade.

A maioria das lutadoras cholitas são aimará, uma nação indígena que habita nas planícies altas da América do Sul. O grupo foi alvo de repressões étnicas e exploração, desde os tempos da colonização espanhola na região. Chamadas pejorativamente de cholos ou cholas nessa altura, as mulheres eram colocadas ao serviço de aristocratas e obrigadas a executar tarefas menores, bem como adotar os costumes europeus. Era-lhes vedada a entrada em restaurantes, transportes públicos e em certos bairros abastados, e não tinham direito de voto e de propriedade, sendo-lhes inclusive negada a oportunidade de aprender a ler.

Resiliente, a comunidade organizou-se e conduziu, com sucesso, vários movimentos ao longo de décadas, o último dos quais culminou com a expulsão do presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, que enfrenta atualmente acusações por execuções extrajudiciais, e a eleição de um político aimará, Evo Morales, para o cargo mais alto do país. No processo, as mulheres reclamaram para si o nome, outrora pejorativo, e a indumentária imposta pelos colonos espanhóis, transformando ambos em símbolos de identidade e orgulho.

“Quando El Alto se indispõe com o Estado, seja porque negligenciou as suas escolas, os seus centros de saúde ou os seus mercados, seja pela falta de segurança nos bairros, são as mulheres que se chegam à frente e manifestam o seu descontentamento e indignação”, explica Dörr. “E é aí que está a essência, a razão pela qual as pessoas gostam de assistir e admiram a luta das cholitas, porque essa é a representação das mulheres cholas aimará de El Alto.”

Luisa Dörr é uma fotógrafa brasileira, que se estabeleceu na Baía. Saiba mais sobre o seu trabalho no seu website ou no seu perfil do Instagram.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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