Entrevistámos Nadia Murad, Prémio Nobel da Paz

A jovem da minoria yazidi, vítima de crimes hediondos, falou abertamente sobre a sua experiência, no contexto de uma campanha que visa pôr termo à violência sexual como uma arma de guerra.segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Nadia Murad, uma das duas personalidades distinguidas com o Prémio Nobel da Paz de 2018, foi reconhecida pela sua luta para pôr fim à violência sexual como arma de guerra. Murad, uma jovem mulher, de aparência frágil e corpo esguio, e de gestos delicados, tornou-se uma forte defensora da mudança, discursando nas Nações Unidas, num esforço de sensibilização dos órgãos governamentais nos quatro cantos do mundo.

Em setembro de 2017, no âmbito do Global Positive Forum, um espaço de debate internacional criado para promover as iniciativas positivas para fazer do amanhã um lugar melhor, Murad falou com Susan Goldberg, editora-chefe da National Geographic, sobre a sua vida sob o jugo do Estado Islâmico, a sua fuga e a vida numa fase posterior. Hoje, na condição de Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas, Murad partilhou o desejo de voltar um dia a viver no Iraque e o seu sonho de seguir uma carreira na área da maquilhagem.

Entrevista a Nadia Murad | Global Positive Forum

Nos minutos que antecederam a entrevista, um técnico de som prendeu cuidadosamente um microfone ao vestido de Murad. A jovem consentira, mas estremeceu ao sentir-se tocada. O seu olhar ainda carrega as cicatrizes de um horror difícil de descrever em palavras. Ainda assim, Murad disse a Susan Goldberg acreditar que “ainda é possível alcançar justiça”.

Nascida em 1993, no seio de uma família de parcos recursos, no norte do Iraque, Murad pertence à comunidade yazidi, uma minoria religiosa com ligações às crenças ancestrais da Mesopotâmia. Os yazidis são um povo de etnia curda e têm sido vítimas de perseguição ao longo dos anos. Os yazidis figuram entre as 180 000 vítimas de uma campanha de terror de massas, levada a cabo pelo ditador iraquiano Saddam Hussein.

Em agosto de 2014, os jiadistas do Estado Islâmico atacaram Sinjar, a maior cidade yazidi, que foi defendida por combatentes curdos, conhecidos por peshmergas. Quando os peshmergas bateram em retirada, os yazidis ficaram à mercê dos jiadistas, que tentaram coagi-los a converter-se ao Islão para que pudessem salvar as suas vidas. Durante 12 dias, um mullah tentou, em vão, convencê-los a converterem-se, mas a maioria dos yazidis recusou-se a fazê-lo.

Perante a recusa, instalou-se o horror. Os habitantes foram convocados, e as mulheres, raparigas e crianças separadas dos homens. Murad assistiu à morte de seis dos seus irmãos, à mercê de uma bala ou por decapitação. Dois mil homens yazidi morreram no massacre.

Murad foi raptada, levada para Mosul e tratada como escrava sexual. Durante meses, a jovem mulher yazidi foi espancada e violada diariamente por pelo menos um guarda. Murad conseguir escapar por fim, refugiando-se numa casa situada nas imediações. Uma família iraquiana sunita ajudou-a a cruzar clandestinamente a fronteira do Curdistão.

A viver num campo de refugiados, Murad contactou uma organização de auxílio a refugiados yazidi e foi realojada na Alemanha. A sua história despertou a atenção de Amal Clooney, uma advogada especialista em Direito Internacional e em matéria de direitos humanos. Clooney representa Murad desde então.

Dois anos mais tarde, Murad combinou a seriedade do tema com uma força desarmante, numa abordagem mais leve, ao falar com Goldberg, na sua língua nativa kurmanji, sobre a sua luta para levar justiça às vítimas yazidis, enquanto aguardava pacientemente que as suas palavras fossem traduzidas para inglês.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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