Morte de Missionário Americano Poderá Colocar Esta Tribo Indígena em Risco de Sobrevivência

Se os sentinelas forem "pacificados" na sequência da morte de um missionário americano, poderão sofrer o mesmo destino de outras tribos das Ilhas de Andamão.quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A morte violenta de um missionário americano numa ilha recôndita do Oceano Índico em meados de novembro suscita novas e urgentes perguntas acerca da sobrevivência de tribos intactas e isoladas e do seu direito de permanecerem livres da interferência do mundo exterior.

John Allen Chau, de 26 anos e autointitulado "aventureiro", de Vancouver, Washington, procurava converter ao Cristianismo uma tribo que escolheu viver em isolamento e transpôs a fronteira da Ilha de Sentinela do Norte para o fazer.

A ilha, que é ladeada por um recife de coral, sensivelmente do tamanho de Manhattan e estritamente interdita a forasteiros, alberga uma das sociedades de caçadores-recoletores mais isoladas do planeta, conhecida como a tribo Sentinela. A Ilha de Sentinela do Norte faz parte do território de Andamão e Nicobar, um arquipélago disperso administrado pela Índia que se estende do extremo sul da Índia até à costa ocidental de Mianmar.

Ninguém sabe ao certo há quanto tempo os sentinelas — a última tribo das Ilhas de Andamão demograficamente intacta e nunca verdadeiramente contactada — vive no local, mas alguns estudos indicam que a tribo pode ter migrado da África há dezenas de milhares de anos.

Tal como outras tribos intactas e isoladas do mundo, sobretudo da floresta tropical da Amazónia, os sentinelas são considerados um grupo altamente vulnerável a doenças contagiosas transportadas por forasteiros, contra as quais têm uma defesa imunológica baixa ou nula.

Os sentinelas são arqueiros hábeis que desenvolveram uma terrível reputação de defensores acérrimos da sua terra natal. Os membros da tribo, que não deverá ultrapassar os 100 elementos, são os únicos habitantes desta ilha densamente florestada. Anteriores tentativas de contacto foram recebidas com salvas de lanças e flechas.

O realizador de um documentário da National sobre os andamaneses foi ferido por uma lança arremessada contra ele quando filmava os sentinelas a partir de um barco em 1974. Ainda hoje, as imagens icónicas de guerreiros a fazer alarde dos seus arcos e flechas nas praias de areia branca da ilha registadas naquela expedição pelo fotógrafo da National Geographic Raghubir Singh continuam a ser um testemunho do desafio da tribo ao mundo exterior.

A reputação de intrepidez foi reforçada em 2006, quando dois pescadores foram mortos pela tribo depois de a embarcação em que seguiam ter derivado para a costa enquanto dormiam. As tentativas de recuperar os corpos foram abandonadas depois de os arqueiros terem lançado projéteis contra um helicóptero que tentava aterrar.

A própria morte de Chau gerou mais comoção devido às notas que escrevinhou no diário depois da primeira tentativa de chegar à costa no dia 15 de novembro. Esta primeira abordagem foi rechaçada por uma lança que perfurou um exemplar impermeável da Bíblia que Chau mantinha no ar na tentativa de evangelizar a tribo. Quando viu dois outros membros da tribo a colocar as flechas nos arcos, Chau bateu apressadamente em retirada para o seu caiaque. Dali remou de volta ao encontro dos pescadores a quem tinha pago 350 dólares para o levarem à ilha e esperarem o regresso.

"O último bastião de Satanás"?
No seu diário, Chau perguntava-se se a Ilha de Sentinela do Norte seria o "último bastião de Satanás" e manifestava frustração por não ter sido recebido de braços abertos. "O que é que os torna tão defensivos e hostis?", escreveu.

Colocando os medos de lado, resolveu voltar na mesma noite. Disse aos pescadores para não esperarem por ele daquela vez e para entregarem o diário a um amigo em Port Blair, a capital administrativa das Ilhas de Andamão.

No dia 17 de novembro, os pescadores rondaram a costa. De acordo com o que relataram à polícia quando foram inquiridos, viram, à distância, os sentinelas a arrastar o corpo e a enterrá-lo na praia. Pelas roupas e pela silhueta deduziram que se tratava de Chau.

A Índia acusou sete pessoas — entre as quais os pescadores e um engenheiro e missionário local identificado como “Alexander”, que, alegadamente ajudou Chau a planear a viagem — de "homicídio involuntário" e de violar as leis que proíbem terminantemente visitas às ilhas.

“Ele sabia que era muito provável que viesse a ser morto,” afirmou Madhusree Mukerjee, editora sénior da Scientific American de Calcutá e autora de The Land of Naked People, um livro sobre as suas experiência entre os povos indígenas das Ilhas de Andamão. "Queria ser um mártir cristão, e é. O que talvez não tenha percebido é que este evento iria dar azo uma série de desenvolvimentos que poderá ser prejudicial para a tribo."

Com receio de que a pressão internacional possa levar a uma tentativa de recuperar o corpo de Chau, o que teria consequências imprevisíveis e potencialmente devastadoras, acrescentou: "Este é um ponto de inflexão na história dos sentinelas.”

Na sequência do desaparecimento de Chau, as autoridades organizaram três viagens exploratórias — um por ar e duas por mar — fazendo-se acompanhar de dois pescadores para descobrirem a localização do corpo. Na segunda excursão de barco, a polícia viu cinco ou seis membros da tribo com arcos e flechas a vigiar a praia.

"Neste momento, não temos nenhum plano para os confrontar ou aterrar no local, o que certamente lhes causaria ansiedade", disse Dependra Pathak, diretor geral da polícia de Andamão à National Geographic por telefone a partir da sua casa em Port Blair. Por lei, afirmou Pathak, nem a polícia está autorizada a entrar na zona-tampão de oito quilómetros em redor da ilha. Não obstante, Pathak revelou que estava a consultar antropólogos e até psicólogos para compreender melhor os possíveis impactos do incidente nos habitantes da ilha, que poderão estar eles próprios a sofrer algum trauma. Embora tenha manifestado ter fortes reservas acerca da tentativa de recuperar o corpo, não descartou a possibilidade expressamente.

Tanto Pathak como o Departamento de Estado dos EUA reconhecem que estão em estreitas conversações sobre a forma de proceder. Fontes em Port Blair indicam que representantes do consulado estão a procurar garantir a devolução dos pertences de Chau, incluindo o diário, e a emissão de um certificado de óbito. Normalmente, na Índia, não se pode emitir um certificado de óbito sem um corpo para identificar. "Num caso ideal, sim", disse Pathak, reconhecendo a prática padrão do seu país. "Mas também temos de ter em conta a realidade."

Paralelos com a Amazónia
Houve uma época, nas décadas de 60 e 70 do século passado, em que as autoridades indianas procuraram ativamente "pacificar" as tribos aborígenes das Ilhas de Andamão, incluindo os sentinelas. As chamadas expedições de "distribuição de presentes" navegaram ao longo da costa, tendo os membros da equipa despejado cocos, bananas e brinquedos de plástico para nativos recolherem. Uma viagem em 1991 parecia indicar um avanço, uma vez que várias dezenas de sentinelas se dirigiram para a praia desarmados e saudaram os intrusos enquanto recolhiam os presentes com a água pela cintura.

O conceito destes esforços era semelhante ao das expedições levadas a cabo ao longo do século XX a meio mundo de distância, na Amazónia. Também ali, os exploradores brasileiros — bem como missionários americanos — tinham o hábito de usar produtos industriais como chamariz e de cultivar as terras para atrair caçadores-recoletores isolados na selva.

"No passado, os missionários foram um fator importante no contacto, na pacificação e na fixação de povos indígenas em toda a Amazónia, tendo muitas vezes levado também à dizimação demográfica e a erosão cultural", asseverou Glenn Shepard, antropólogo e etnobotânico do Museu Paraense Emilio Goeldi, em Belém, Brasil.

E, tal como as tribos pacificadas da América do Sul, os povos indígenas das Ilhas de Andamão não demoraram a sucumbir às doenças contagiosas e à desintegração social geral na sequência do contacto. A tribo Jarawa, depois de ter deposto os arcos e as flechas na Ilha de Sentinela do Norte no final dos anos 90, sofreu dois surtos mortais de sarampo.

Os outrora soberbos guerreiros da tribo foram reduzidos à apatia e ao alcoolismo, os filhos foram obrigados a dançar a troco de esmolas por operadores turísticos sem escrúpulos que realizavam "safaris humanos" ao longo da estrada principal que agora atravessa o território tradicionalmente pertencente à tribo. Por sua vez, outras tribos andamanesas sofreram um choque demográfico e um colapso cultural depois de pressões para que vivessem em comunidades estabelecidas.

Cientes destes fracassos e das lições retiradas no Brasil e noutros países amazónicos que mudaram de atitude relativamente ao contacto forçado com tribos isoladas, as autoridades indianas abandonaram as abordagens de distribuição de presentes aos sentinelas depois da expedição de 1991.

A morte de Chau suscitou novas preocupações relativamente ao destino dos sentinelas. Numa carta aberta dirigida à comunicação social no dia 26 de novembro, um grupo de proeminentes antropólogos e ativistas indianos instou o governo a cancelar definitivamente todas as tentativas de recuperar o corpo do missionário. "Os direitos e desejos dos sentinelas têm de ser respeitados", pode ler-se na carta. "Nada se alcançará com a escalada do conflito e da tensão e, o que é pior, com a criação de uma situação que cause mais danos."

 

A situação singular dos sentinelas — que são a única tribo intacta do mundo que habita numa ilha própria — torna-os "extraordinariamente vulneráveis" a doenças transportadas por forasteiros, afirmou Sophie Grig, especialista em tribos andamanesas e membro do grupo de direitos indígenas Survival International. "É a principal razão por que temos de respeitar o direito de não serem contactados", concluiu. "Mesmo que ignoremos este facto, eles já mostraram claramente que é o que desejam."

Os sentinelas devem estar bastante cientes do mundo estranho que os rodeia. A ilha é sobrevoada por aeronaves. Os navios ensombram-lhes regularmente o horizonte no oceano. As setas das flechas são feitas de metal que se pensa que terá sido obtido em navios naufragados. São ocasionalmente alvo das lentes curiosas de turistas que, como Chau, pagam a pescadores para escaparem à patrulha da guarda costeira e se aproximarem da ilha.

Grig espera que o Governo indiano venha a redobrar os esforços no sentido de proteger a Ilha de Sentinela do Norte e os sentinelas. "É muito importante que estas patrulhas sejam reforçadas e que as águas em volta da ilha sejam devidamente policiadas e protegidas de quaisquer estranhos — pescadores, turistas, evangelizadores."

Ninguém além dos próprios sentinelas sabe exatamente a razão por que a tribo apresenta uma tão grande hostilidade ao mundo exterior. Talvez remonte a uma visita de colonizadores britânicos na década de 1880, altura em que vários habitantes da ilha foram raptados e acabaram por morrer sob custódia britânica. Talvez instintivamente sintam que os forasteiros são um perigo evidente e atual — mesmo aqueles que se aproximam com a melhor das intenções.

Seja qual for a razão, os sentinelas ganharam a admiração de muitos que veem na sua resistência uma determinação para viverem da forma que desejam num pequeno pedaço de verde rodeado por um mar de problemas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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