História

Artista Medieval Identificada Pela Sua Dentição

Pó precioso encontrado na boca de uma mulher enterrada há mais de mil anos abre uma janela, até agora desconhecida, para a vida das escribas femininas. Quinta-feira, 24 Janeiro

Por Andrew Curry

Na crença popular, os escribas e os iluminadores de manuscritos da Idade Média eram homens: monges que trabalhavam arduamente nos scriptoria iluminados à luz de velas, ocupados a copiar o conhecimento do mundo, em páginas de pergaminhos. “São sempre monges, monges, monges”, diz Alison Beach, historiadora na Universidade Estatal de Ohio. “Quando pensamos num escriba medieval, imaginamos um homem.”

Mas uma nova descoberta, feita por uma equipa multidisciplinar conduzida por Christina Warinner, especialista em paleogenética no Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha, sugere que algum desse trabalho era feito por mulheres – e que as escribas e artistas femininas eram muito competentes, muito estimadas, sendo-lhes confiados alguns dos pigmentos mais valiosos disponíveis aos artistas no séc. XI. Os resultados deste estudo foram publicados na revista Science Advances.

A prova está na boca de um esqueleto encontrado num cemitério medieval em Dalheim, uma pequena localidade perto da cidade de Mainz, na Alemanha. Os arqueólogos começaram a estudar as placas fossilizadas que se formavam nos dentes, numa época anterior à existência da odontologia, na tentativa de compreender melhor as dietas e as doenças que afetavam as pessoas no passado. O cálculo dentário, também conhecido como tártaro, não só aprisiona e preserva o ADN das bactérias na boca, como também deixa vestígios das coisas que as pessoas comiam e bebiam há muito tempo atrás.

EXCLUÍDAS DA HISTÓRIA

Uma sepultura, identificada por B78, continha o esqueleto de uma mulher de meia idade, que morreu por volta de 1100 D.C. Aparentemente, a única coisa que sobressaía nos seus restos mortais era a falta de desgaste nos ossos, sinal de uma vida pouco exigente em termos físicos.

Quando a equipa de Warinner olhou mais atentamente para os dentes de B78, ficaram surpreendidos. “O microscopista chamou-me e disse, ‘o tártaro desta mulher está cheio de partículas azuis’”, lembra Warinner. “Nunca tinha visto esta cor na boca de alguém – este azul ‘casca de ovo’ brilhante.”

A equipa trabalhou com químicos para perceber a origem das milhares de partículas azuis, alojadas na placa dentária endurecida da mulher. Testes alargados mostraram que as partículas eram de minério lazurite, também conhecido como pedra preciosa lápis-lazúli.   

Na Idade Média, o lápis-lazúli só podia ser encontrado onde hoje em dia fica o Afeganistão. Quando a pedra em pó chegou à Europa central, através de uma rede complexa de comércio que se estendia por milhares de quilómetros, valia mais do que o seu peso em ouro, diz Beach, coautora do estudo. O pigmento azul brilhante produzido pelo lápis-lazúli era tão precioso que os artistas medievais e iluminadores de manuscritos o reservavam para os temas mais importantes – o manto da Virgem Maria, por exemplo.

Como este pigmento tinha ido parar à boca de uma mulher alemã do séc. XI era um mistério. Após deixarem de lado outras explicações para os vestígios de lápis-lazúli – talvez a mulher tivesse beijado uma imagem contendo lápis-lazúli como parte de um ritual devoto, ou se tivesse envolvido em “medicina lapidária”, uma prática medieval de ingestão de pedras preciosas como curativos – a equipa de investigação concluiu que o pigmento azul acabou na boca da mulher por esta lamber o pincel enquanto pintava.

Com o passar do tempo, ficou embutido no seu tártaro, onde permaneceu preservado durante mais de 1000 anos. (Anita Radini, autora principal do estudo e perita em cálculo dentário na Universidade de York, chegou a fazer pigmento de lápis-lazúli no laboratório e tirou amostras dos seus lábios e saliva para verificar os resultados.) “Podíamos concluir que a pessoa tinha sido repetidamente exposta a este pó. Era um comportamento continuado, de certeza”, diz Radini. “Esta é a primeira prova do ofício que temos.”

O precioso lápis-lazúli não era confiado a qualquer artista. “O facto de atribuírem este pigmento a esta mulher significa que ela era de um nível elevado, com reputação pela arte que fazia”, diz Beach. “É a prova física mais antiga que temos de mulheres escribas.”

Portanto, como é que as mulheres artistas como a B78 são excluídas da história? Beach diz que existem referências escritas a escribas femininas no passado. Contudo, quando um livro é anónimo, os historiadores presumem que foi produzido por homens – e a grande maioria dos livros medievais não estão assinados.

“Isto sugere que muitas das coisas que não estão assinadas também foram produzidas por mulheres, ou pelo menos essa é uma possibilidade que temos de considerar”, adiciona a historiadora.

UM SANTO GRAAL

O cálculo dentário é cada vez mais utilizado enquanto fonte de informação arqueológica. A grande vantagem é que este é retirado diretamente da boca da pessoa falecida, podendo mostrar conclusivamente o que os indivíduos comeram e beberam, em vez de se fazerem deduções baseadas nos restos encontrados nas suas sepulturas e nas povoações próximas.

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“A reconstrução de atividade a partir de esqueletos humanos é o santo graal da bioarqueologia, mas é muito difícil reconstruir atividade a partir de ossos humanos”, diz Efthymia Nikita, bioarqueóloga no Instituto do Chipre em Nicósia, que não integrou o estudo de investigação. “O problema que temos é que todos os métodos que usamos são indiretos.” 

“Ao identificarmos diferentes micropartículas, podemos ser capazes de identificar, com grande determinação, atividades específicas”, diz. “Não conheço outro estudo em que um artista tenha sido identificado pelo seu esqueleto.” 

No futuro, diz Radini, a técnica pode ser utlizada para identificar artistas no registo arqueológico, algo que nunca foi feito antes. Outras profissões – tecelões e oleiros, por exemplo – podem ser identificadas com precisão pelas fibras de plantas ou pelo pó de barro embutido na sua placa dentária, uma fonte de prova mais fiável do que procurar por padrões de desgaste nos ossos.

Por agora, os autores esperam que a placa dentária cheia de pigmentos da B78 mude a forma como os historiadores olham para o papel desempenhado pelas mulheres na cultura ocidental durante a Idade Média. “Não só identificámos a lazurite neste cemitério de uma igreja, como está na boca de uma mulher”, diz Warinner. “Deu-nos uma janela para a história das mulheres desta altura.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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