História

Bunkers Nucleares da Guerra Fria Revelados na Polónia

Os locais clandestinos foram outrora o lar de centenas de ogivas nucleares – um segredo mortífero escondido dos polacos. Segunda-feira, 28 Janeiro

Por Erin Blakemore

Se vaguearmos durante algum tempo pelas florestas da Polónia, podemos dar de caras com uma base nuclear soviética. Pilhada pelos habitantes locais em busca de sucata, e lentamente tomada pelas árvores, os seus túneis vazios e bunkers enterrados são tudo o que resta de um esquema dos tempos da Guerra Fria para transformar o Bloco de Leste num arsenal nuclear.

Mas os livros de história não contêm muita informação, se é que contêm alguma, sobre estes locais secretos. Isso inspirou o arqueólogo Grzegorz Kiarszys a aprender mais sobre o seu passado misterioso. Os achados de Kiarszys – argumentos apaixonados sobre o valor da arqueologia no estudo da Guerra Fria – aparecem na publicação Antiquity.  

Kiarszys serviu-se da arqueologia para estudar os locais em Podborsko, em Brzezńica-Kolonia e em Templewo, todos contendo instalações militares soviéticas que escondiam um segredo perigoso.

No final da década de 1960, a URSS percebeu que não iria conseguir colocar armas nucleares a tempo na Polónia, caso a NATO atacasse. Como tal, engendrou um plano para guardar ogivas nucleares nos seus estados satélite, incluindo a Polónia.

Apesar de a Polónia ter pago a construção dos locais de armazenamento, o povo polaco não fazia ideia que o país albergava centenas de ogivas. A URSS controlava as armas e os membros do exército soviético patrulhavam as instalações.

Kiarszys utilizou fotos aéreas, leituras feitas a laser, levantamentos no terreno, imagens de satélite, documentos e relatórios, entretanto desclassificados pela CIA, para desvendar a história do projeto super-secreto, com o nome de código “Vistula”. Mapeou os locais e registou vestígios físicos de inscrições feitas nas árvores e de trilhos criados pelas rotas de patrulha dos soldados. E descobriu facetas das histórias das bases que não aparecem em nenhum documento oficial, incluindo provas de que mulheres e crianças viviam nos locais.   

“Nunca se coloca uma arma de destruição maciça junto de pessoas que são instáveis ou que estão sozinhas”, diz Kiarszys. “Os generais sabiam que tinha de existir uma ilusão de vida quotidiana naquelas instalações.” Era o seu seguro de vida, explica. Ele encontrou brinquedos de plástico nas zonas de tratamento de resíduos das bases, e usou fotografias partilhadas por antigos soldados russos nas redes sociais, para corroborar a existência de mulheres e crianças nas bases. ”A parte mais importante deste local eram aquelas mulheres e crianças.” O trabalho de Kiarszys reintegra estas pessoas no registo histórico.

Esse registo ainda é obscuro. Os arquivos russos estão fechados e os documentos sobre o programa desapareceram completamente, após terem sido entregues à URSS, no final de 1969. O público polaco só descobriu que o seu país tinha albergado armas nucleares em 1991, depois da retirada da União Soviética. “Foi um choque”, diz Kiarszys. “Os governos da Rússia e da Polónia asseguraram-nos de que nunca tinham existido armas nucleares em território polaco.” Quando os polacos se aperceberam das bases, deixaram as suas marcas: primeiro com pilhagens, durante a crise económica que acompanhou o final da Guerra Fria, e agora os visitantes pintam as paredes e as árvores circundantes. Desde que a sua existência foi revelada, os locais tornaram-se objeto de inúmeros mitos urbanos e teorias da conspiração.

Para Kiarszys, a arqueologia oferece a oportunidade de contestar esses mitos e complementar – ou até reescrever – a história da Guerra Fria. “Foi um conflito que mudou a face do mundo”, diz. “Podemos utilizar métodos arqueológicos para estudar os tempos antigos, mas também os podemos utilizar para estudar conflitos modernos.”

“Compete agora à arqueologia usar os vestígios físicos da Guerra Fria para descobrir coisas que não estão registadas nos documentos oficiais ou que foram há muito esquecidas”, diz Todd Hanson, autor do livro “The Archaeology of the Cold War”. (Hanson não esteve envolvido no estudo atual.) Corrigir os registos não é a única razão para nos virarmos para os conflitos de um passado recente. “Nós perdemos o passado tão rapidamente”, diz. Enquanto a Guerra Fria fica para a memória, os seus vestígios físicos estão lentamente a desaparecer. Mas se Kiarszys e outros arqueólogos do conflito conseguirem levar a sua avante, nunca será esquecida.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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