História

Jane Goodall: Como Uma Mulher Redefiniu a Humanidade

Investigadora lendária aos 26 anos, Jane defendeu as suas descobertas apesar das dúvidas dos seus pares Quarta-feira, 30 Janeiro

Por Karen Karbo

Quando eu era criança, idolatrava-a. Jane Goodall, “a menina que vivia entre os chimpanzés selvagens”, era loura e parecia inteligente, com os seus calções caqui, andava descalça por cima de ramos grossos na selva e brincava com chimpanzés. Já a tinha visto na National Geographic, revista que eu folheava avidamente antes sequer de conseguir ler. Nós vivíamos nos subúrbios de Los Angeles, e apesar de termos uma piscina, eu tinha a noção de que infelizmente a minha vida carecia de aventura. Uma vez, inspirada por Jane, perguntei à minha mãe se podíamos ir acampar. Ela respondeu, zangada, que não éramos do tipo de pessoas que acampava.

Jane Goodall é famosa pelo estudo que fez aos 26 anos, sobre os chimpanzés no Parque Nacional Gombe, localizado na costa oriental do Lago Tanganyika, na Tanzânia. Em 1960, quando Jane visitava uma amiga no Quénia, conheceu o prestigiado antropólogo Louis Leakey, que lhe conseguiu uma bolsa para poder recolher dados sobre os chimpanzés na natureza e para estudar as suas semelhanças com os humanos. Ali, fez várias descobertas revolucionárias que lhe asseguraram uma posição entre os melhores cientistas de campo do séc. XX.

Em 1962, o fotógrafo de vida selvagem holandês, Baron Hugo van Lawick, filmou o documentário “Miss Goodall and the Wild Chimpanzees”. Foi o primeiro documentário produzido pela National Geographic Society, e fez de Jane Goodall uma estrela. Também fez dela esposa e depois mãe. Jane casou com van Lawick e em 1967 deu à luz um filho, Hugo Eric Louis, conhecido por Grub. É autora de dezenas de livros sobre chimpanzés, sobre o comportamento animal e sobre o papel fundamental da conservação. Em 1977 fundou o Instituto Jane Goodall, organização não governamental dedicada à proteção dos habitats de chimpanzé que estão a desaparecer rapidamente. Em 1995 foi nomeada Dama-Comendadora da Excelentíssima Ordem do Império Britânico, tornando-se Dama Jane Morris-Goodall, DBE.

Nasceu em Londres em 1934, com o nome de Valerie Jane Morris-Goodall, e o seu pai, Mortimer, era um homem de negócios; a sua mãe, Myfanwe (Vanne) Morris Goodall era romancista e cuidava da família. As expetativas para Jane seguiam o padrão normal da época: casar com um homem bom e responsável e ter filhos. A sua mãe, com mérito, nunca a desencorajou dos seus interesses: os animais, o mundo natural, e acima de tudo, a vida selvagem de África. Uma vez, quando Vanne descobriu que a pequena Jane tinha levado uma mão cheia de minhocas para a cama, em vez de gritar, explicou que os seus novos amigos precisavam de terra para viver, e juntas, levaram-nas de volta para o jardim.

Jane era uma rapariga sossegada, uma bibliófila que adorava o Doutor Dolittle e que devorava livros do Tarzan. A leitura teve, sorrateiramente, um efeito transformante na sua vida: desenvolveu um amor profundo pelos animais e cultivou um desejo de ir viver para África entre os animais selvagens. Mas a Segunda Guerra Mundial estava a intensificar-se, e a sua família tinha pouco dinheiro. Em vez de ir para a universidade, Jane matriculou-se numa escola de secretariado, graduando-se em 1952.

Entretanto, uma das amigas de escola foi viver para o Quénia e convidou-a para uma visita. Na altura, Jane estava a trabalhar em Londres a escolher músicas para filmes publicitários. Então, com uma atitude que pareceu repentina, mudou de casa e foi trabalhar como empregada de mesa para financiar a viagem. Quando conseguiu poupar o suficiente, despediu-se do trabalho e lá foi ela.

E com isto quero dizer, fez uma viagem excitante de um mês, partindo de Inglaterra, dobrando o Cabo da Boa Esperança até Mombaça, chegando eventualmente a Nairobi. Foi lá que conheceu o Dr. Louis Leakey, o grande arqueólogo e paleoantropólogo que rastreou as origens da humanidade até África. Leakey era carismático, influente, e na altura, curador no museu de história natural de Nairobi. Ofereceu emprego a Jane no museu, convidando-a depois a acompanhar uma escavação no Desfiladeiro de Olduvai. Jane passou três meses gloriosos, imersa em tarefas minuciosas: removendo terra de um fóssil com um palito dentário pouco maior que um dedo mindinho, ou escavando cuidadosamente com uma faca de caça. Leakey viu nela uma pessoa que era paciente e meticulosa: uma pessoa capaz de sobreviver longos períodos de isolamento, capaz de parar, observar e aprender. Em suma, era a candidata perfeita para o seu projeto mais recente – observar primatas na natureza – e quando lhe perguntou se estaria interessada em montar acampamento em Gombe, na zona costeira do remoto Lago Tanganyika, Jane não hesitou por um momento.

Desde que as mulheres entraram no mercado de trabalho, tem-se verificado a tendência de só concorrermos a posições para as quais temos qualificações adequadas. Se a descrição do trabalho incluir a capacidade de fazer malabarismos com um ovo, uma tocha em chamas, ou uma motosserra, e nós só conseguirmos fazer malabarismos com laranjas, nem nos preocupamos em concorrer. Os homens, por outro lado, sentem-se confiantes em concorrer a todos os trabalhos que acreditam que conseguem fazer, independentemente da sua educação ou experiência prévia. Enviam o currículo acreditando que depois de contratados poderão delegar os malabarismos.

As credenciais de Jane eram: eu adoro animais. O que é etologia? Mesmo assim, ela não queria saber. Estava focada no seu objetivo de vida improvável, e assumiu que estava qualificada e capacitada para fazer coisas que o mundo insistia não serem do seu domínio. Entregou-se à aprendizagem do que era necessário ser feito.

Jane chegou à Reserva de Caça de Gombe a 14 de julho de 1960. O Lago Tanganyika é um vasto mar interior, o lago mais longo e o segundo lago mais profundo do mundo. Faz fronteira com a Tanzânia (então chamada Tanganyika), com a República Democrática do Congo, com a Zâmbia e o Burundi. Leakey não se iria juntar a Jane nesta expedição, e o governo, preocupado em deixar uma jovem mulher branca acampar sozinha no mato, ordenou a Jane que levasse companhia. A sua mãe voluntariou-se, o que não era propriamente o que o governo tinha em mente. As duas mulheres tinham uma tenda do exército usada, alguns copos e pratos de latão, e os serviços de um cozinheiro africano chamado Dominic.

Ao início, Jane caminhou pela área e observou. Na realidade, foram dias e dias a marchar pela floresta tropical com um par de binóculos em segunda mão. Inicialmente, a única coisa que vislumbrou foi uma sombra escura entre os verdes e dourados da floresta: as costas de um chimpanzé afastando-se dela. Os chimpanzés não conseguiam fugir dela suficientemente depressa.

No caso de estarem a pensar que isto é minimamente romântico, estou aqui para vos dizer que não. Quando eu tinha 18 anos e estava no segundo ano da universidade, passei algumas semanas na África Oriental, integrada num programa de estudos no estrangeiro.

A Tanzânia e o Quénia são tão espetaculares como parecem nos documentários. Mas uma coisa que não se vê é o calor, capaz de nos espremer os pulmões, ferver o cérebro e provocar irritações de pele – nem os bichos e insetos estupendos, muitos dos quais podem ser descritos como sendo do “tamanho de punhos”. Imaginem: traças, aranhas, baratas, escaravelhos e centopeias – todos do tamanho de punhos. Os escaravelhos de estrume comuns são mais pequenos do que um punho – mas estão por todo o lado, e as bolas de estrume gigantes que empurram e comem, onde procriam e vivem, são do tamanho de um punho. Provavelmente maiores.

Eu não me impressiono facilmente (algo que pode ser problemático, como se sabe), e não fico perturbada com ratazanas, ratos ou cobras. Mas os escaravelhos de estrume – os machos têm cornos! – eram demasiado para mim. Sempre que vejo uma fotografia da Jane agachada ao lado dos chimpanzés, fico preocupada que um escaravelho esteja a segundos de rebolar uma bola de excremento sobre os seus pés, ou que uma centopeia gigante esteja prestes a rastejar para dentro dos seus calções.

Depois temos as doenças. Antes da minha viagem, fui obrigada a ser vacinada contra a cólera, a tifoide, a varíola e a febre amarela. Nada disso me impediu de adoecer; tal como Jane, regressei com malária (apesar do meu caso ser consideravelmente mais moderado do que o dela).

“Quanto mais penso na tarefa que me propus fazer, mais desanimada fico”, escreveu Jane no seu primeiro livro, “In the Shadow of Man”. “Contudo, aquelas semanas serviram para me ambientar ao terreno acidentado. A minha pele ficou mais endurecida com a vegetação áspera dos vales e o meu sangue imune ao veneno da mosca tsé-tsé, por isso já não ficava toda inchada de cada vez que era mordida.” (Estão a ver?)

Reparem, por favor, que ela não disse, “Mas que raio estou eu aqui a fazer? Sou uma fraude. Não tenho treino adequado. Leakey nunca me deveria ter enviado”. Jane não questionou a sua competência, mesmo que a sua missão pudesse parecer, por vezes, impossível.

Os chimpanzés - Pan troglodytes – são os nossos parentes evolutivos mais próximos. Partilhamos com eles cerca de 98% do nosso ADN. Geneticamente, somos mais parecidos com os chimpanzés do que os ratos com as ratazanas. As suas semelhanças com os humanos eram o interesse principal de Leakey. Mas Jane estudou-os pelo amor de os estudar, fascinada com as suas relações familiares e com as suas relações entre clãs. Ela deixou que a sua intuição a guiasse.

Durante dois meses, os chimpanzés fugiam sempre que a ouviam chegar. Então, um dia, um macho enorme passeou pelo acampamento, subiu uma palmeira e comeu algumas nozes. Mais tarde, regressou ao acampamento e roubou uma banana que estava em cima de uma mesa. Eventualmente, permitiu que Jane lhe oferecesse uma. Ela chamou-o de David Greybeard (Barba cinzenta), devido à sua divertida barba grisalha.

Atribuir nomes aos animais era ridicularizado entre a comunidade científica, por ser considerado amador e idiota. Os cientistas sérios, cientistas “reais”, numeravam os seus objetos de estudo. Mas David Greybeard fez sinal ao resto da sua comunidade, mostrando que Jane não era tão assustadora como tinham pensado. Consequentemente, ela ficou a conhecer (e a dar nomes) Goliath, Humphrey, Rodolf, Leakey e Mike. Havia o Mr. McGregor, um macho velho rabugento. Havia a fémea alfa chamada Flo, e as suas crias, Fagen, Figan e Fifi. Jane observava-os a beijarem-se, a abraçarem-se, a darem palmadas nas costas uns dos outros e a abanarem os punhos uns aos outros. Observou-os a agir como se fossem humanos.

Um dia, movendo-se silenciosamente pela selva em busca dos chimpanzés, Jane deparou-se com um monte de térmitas. David Greybeard estava sentado ao lado do monte. Ela observou, uma e outra vez, David a enfiar longas folhas de relva num buraco feito no monte, depois retirava as folhas e arrancava com os lábios as térmitas aí agarradas. Depois de David terminar a sua refeição, Jane inspecionou o monte e as folhas de erva que tinham ficado para trás. Espetou uma folha no buraco e retirou-a. Mais de uma dúzia de térmitas estavam agarradas ao caule. Delicioso. Semanas mais tarde, observou os chimpanzés a fazerem ferramentas, partindo pequenos galhos de árvores e removendo as folhas, antes de os espetarem nos buracos do monte de térmitas.

Na altura – nos anos de 1960 – a característica que definia o homem era a de que só ele, entre todas as criaturas de Deus na Terra, fazia ferramentas. Intitulávamo-nos de Homem o Criador de Ferramentas, e alegadamente essa capacidade distinguia-nos de todas as outras coisas vivas. Eu acho isto estranho. Seria de esperar que os biólogos se concentrassem em algo que outra criatura nunca conseguisse dominar. Porque é que não éramos o Homem o Terrível Contador de Anedotas? Ou o Homem e os Intoleráveis Fios de Pesca?

De qualquer modo, a descoberta de Jane estava a dar que falar no mundo científico, levando Leakey a declarar, “agora precisamos de redefinir ‘ferramenta’, redefinir ‘homem’, ou aceitar os chimpanzés como humanos”. Stephen Jay Gould, de Harvard, disse que a constatação de Jane era “um dos grandes feitos académicos do séc. XX”.

Aos 27 anos de idade já era uma lenda, mas Jane iria continuar a fazer mais descobertas. Descobriu que os chimpanzés não eram vegetarianos como pensávamos, mas sim omnívoros, como nós. Descobriu também (de forma um pouco triste) que incitavam guerras. O primeiro artigo de Jane foi publicado em 1963, e em dezembro de 1965 apareceu na capa da National Geographic. Desde então, o seu trabalho marcou presença mais vezes na National Geographic do que o trabalho de qualquer outro cientista. Até do seu mentor, Louid Leakey.

Uma simples mulher, sem quaisquer credenciais, tinha redefinido o que significava ser Homem. Louis Leakey acreditava que a descoberta de Jane merecia ser premiada com uma entrada no programa de doutoramento em etologia de Cambridge – mesmo que esta nunca tivesse frequentado a universidade antes de se ter tornado, num curto espaço de meses, numa das biólogas mais importantes da Terra. Leakey sabia que Jane precisava de um diploma se quisesse ser levada a sério, por isso usou toda a sua influência para convencer os catedráticos do seu valor. Não era tarefa fácil: Jane seria apenas a oitava pessoa na história da universidade a entrar num programa de doutoramento, sem um grau académico.

Quando os notáveis do departamento de etologia de Cambridge descobriram o que ela tinha andado a fazer, ficaram chocados. Não obstante as suas descobertas, Jane era culpada do crime mais hediondo no reino da ciência: antropomorfizar, ou atribuir traços humanos aos animais. Dar nomes aos chimpanzés! Descrever o seu comportamento e interações com terminologia de humanos! O que poderia ser mais ridículo? Mais, era ciência errada e à antiga, algo que colidia com a objetividade pura e dura, prezada pelo pensamento da altura. Eu só consigo imaginar uma reunião na universidade, com os velhos sexistas a desdenhar o trabalho de Jane sem conter a satisfação. O primeiro livro de Jane, “My Friends, the Wild Chimpanzees”, publicado antes de esta terminar a sua dissertação, quase provocou um ataque cardíaco a um dos catedráticos: “É – é – é para o público em geral!” Esse crime intelectual quase lhe valeu a expulsão do programa.

Imparcialmente, Robert Hindle, o seu orientador, levou o feito de Jane a sério. Ela elogiou a sua influência numa publicação feita num blogue em 2017, dizendo que não lhe conseguiria agradecer o suficiente por este lhe ter ensinado a pensar de forma crítica. Ao que parece, Jane tinha-lhe sido atribuída porque ele tinha estudado uma colónia da macacas mulatta, e também ele achava adequado dar-lhes nomes. Presumo que nenhum dos seus colegas pensou que ele era ridículo ou amador por tê-lo feito.  

Conseguem imaginar esta situação? Alguns dos pensadores mais prestigiados da vossa área, numa das universidades mais prestigiadas do planeta, criticando a vossa metodologia. Eles talvez tenham razão porque a vossa metodologia, se é que tinham uma, era “Inventar Enquanto Progrediam”. Mais, estes homens são brilhantes e poderosos. Eu não sei o que vocês fariam, mas a minha reação irrefletida seria dar-lhes razão – ou pelo menos fingir que os estava a ouvir, depois chamava as minhas amigas e queixava-me de ter sido mal interpretada.

Jane Goodall, não só não concordou com a avaliação deles, como lhes disse diretamente que estavam errados. Ela falava calmamente, mas recusava-se a ceder. Jane não citou os seus milhares de horas de investigação atual com os chimpanzés, o que lhe poderia ter dado algum crédito etológico; em vez disso, mencionou a relação que teve com o seu animal de estimação na infância, um rafeiro preto chamado Rusty. “Felizmente, lembrei-me do meu primeiro professor, quando eu era criança, que me dizia que aquilo não era verdade”, escreveu anos mais tarde. “Não podes partilhar a tua vida de forma significativa com qualquer tipo de animal, que tenha um cérebro razoavelmente desenvolvido, sem te aperceberes que os animais têm personalidades.”

É realmente de tirar a respiração a forma como Jane manteve a sua posição, não deixando que os seus superiores a dissuadissem da sua própria experiência, e daquilo que ela sabia ser verdade. Sempre que eu sei que estou certa acerca de algo, mas começo a sentir que é mais fácil fingir que a outra pessoa (geralmente um homem) tem alguma razão, lembro-me sempre de Jane Goodall. Tão gentil, mas tão impressionantemente difícil.

Em 1986, depois de publicar “The Chimpanzees of Gombe”, que resume 25 anos de investigação, Jane terminou a sua vida no campo e tornou-se ativista. O seu casamento com Hugo van Lawick tinha terminado em 1974; um ano mais tarde, tinha casado com Derek Bryceson, membro do parlamento da Tanzânia. O seu novo marido era também o diretor de parques nacionais e ajudou a preservar a integridade de Gombe, isolando-o de turistas amantes de animais e de apoiantes bem intencionados. Como resultado, quando Jane partiu, Gombe estava a prosperar, e continua a prosperar. Evoluiu para a estação de investigação, composta principalmente por tanzanianos.

Jane tinha passado tempo suficiente em África para presenciar, em primeira mão, a redução do habitat natural dos chimpanzés – canalizando o mesmo zelo com que se tinha embrenhado no seu estudo para se dedicar à sua conservação. Ainda o faz atualmente, continuando a usar calças e sapatos confortáveis, com o seu cabelo louro, agora grisalho, atado como sempre. O seu ar mudou muito pouco em 50 anos. Está simplesmente mais velha, mas continua bonita e intimidante.

Quando, em 2014, surgiu “Seeds of Hope: Wisdom and Wonder From the World of Plants”, Jane foi entrevistada no The Colbert Report e no Last Week Tonight With John Oliver.

Não é que Jane Goodall não tenha sentido de humor. Em 1987, o cartoonista de celebridades Gary Larson fez um desenho que mostrava dois chimpanzés sentados num ramo. Um puxa um longo cabelo, claramente humano, das costas do outro e diz, “Bem, bem – outro cabelo louro. A fazer mais ‘investigação’ com aquela vagabunda da Jane Goodall?” O Instituto Jane Goodall enviou imediatamente uma carta a reclamar, sem sequer pensar que Jane o poderia achar hilariante, tal como aconteceu.

Mesmo assim, o seu sentido de humor seco pode ser, por vezes, mal interpretado. Durante a entrevista de 2014, com o comediante John Oliver, ela simplesmente não cedeu. Ele tentou fazê-la admitir que durante o tempo que passou em Gombe, ela tinha tentado vestir um chimpanzé de mordomo. Ela disse que não. Ele continuou a pressioná-la, com o seu estilo pseudo jornalístico agressivo, mas ela não sorriu nem condescendeu. Contudo, no final, ela utilizou alguns movimentos de chimpanzé que deixaram a audiência empolgada.

Jane foi educada e completamente inamovível. Foi Oliver que a tentou levar a fazer pouco da sua família, e ela não estava para isso. É um momento fantástico e embaraçoso de televisão, onde uma mulher recusou sorrir, mas que depois se tornou tonta e brincalhona para aliviar um momento de tensão, e para fazer toda a gente sentir-se bem. Teria sido fácil para ela alinhar na piada, fazendo pouco do trabalho de toda uma vida. Mas sendo difícil, ela não ia ceder. As mulheres difíceis não são todas gabarolas extrovertidas que falam sem parar e abatem os seus adversários aos gritos. Às vezes, sentam-se apenas calmamente e recusam-se a fingir que são agradáveis.

A história de vida de Jane Goodall ainda me inspira – talvez ainda mais do que quando era criança. Na altura, eu pensava que se fosse o tipo de rapariga correto (que podia ir acampar), podia encontrar o caminho para uma vida incrível e subir até ao topo. Eu não conhecia o conceito de auto sabotagem feminina. Não fazia ideia que mulheres brilhantes e competentes pudessem duvidar delas próprias, satisfazendo uma autoderrota ambivalente, roendo-se em auto-dúvida. Ao contrário de muitas mulheres conformadas que conheço (como eu), as mulheres difíceis não mastigam os trabalhos com segundas opiniões, um hábito terrível e contra produtivo que geralmente funciona assim: tomar uma decisão, arrepender-se da decisão, castigar-se por ter tomado a decisão errada em primeiro lugar, castigar-se ainda mais por ter tomado a decisão errada em primeiro lugar. Beber demasiado vinho. Dormir sobre o assunto. Fazer nada.

Jane, com a sua calma e firmeza, sentou-se naquela selva – frustrada ao início, mas avançando, confiando que tinha feito a escolha certa. Ela confiou sempre em si própria, o que fez dela uma mulher difícil.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

 

 

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