História

Veja os Bebés Refugiados que Nascem Sem Um Lugar a Que Possam Chamar Casa

No Bangladesh, 60 bebés rohingya nascem todos os dias sem cidadania legal. Terça-feira, 8 Janeiro

Por Nina Strochlic

Em fevereiro de 2017, o fotógrafo bengalês Turjoy Chowdhury andava pelo maior campo de refugiados do mundo quando ouviu um bebé a chorar. Dentro de uma pequena cabana estava uma menina rohingya, com um dia de idade, enrolada num cobertor vermelho. Quando ele se aproximou, a mãe da recém-nascida tirou o cobertor, que tinha sido dado por uma organização de ajuda humanitária, e permitiu que Chowdhury a fotografasse. Chowdhury decidiu tirar a fotografia por cima da criança, como alguém que tira uma foto para colocar na sua conta de Instagram. Não como a um refugiado; apenas um bebé. “Naquele exato momento, olhando para aqueles olhos inocentes, comecei a pensar, ‘Mas que raio se passa aqui?’” disse. “Este bebé não tem nada que ver com política.”

As crianças rohingya da Birmânia, nascidas no campo de refugiados Cox’s Bazar, no Bangladesh, começam a vida num limbo legal, não sendo consideradas birmanesas ou bengalesas por nascimento. Sem nenhum dos dois países assumir responsabilidade pelos rohingya, a recém-nascida que Chowdhury encontrou é uma das 60 crianças que nascem apátridas todos os dias no campo de refugiados.

Durante décadas, o grupo étnico rohingya foi perseguido e a sua cidadania negada pela vizinha Birmânia, que os considera estrangeiros, apesar deles afirmarem que vivem no local desde o séc. XV. Em 1982, a Birmânia aprovou uma lei que excluía os rohingya de uma lista de 135 grupos étnicos oficiais, negando-lhes a cidadania à nascença. Os rohingya foram obrigados a trocar os cartões de cidadão da Birmânia por um cartão de registo temporário, que não serve de prova de cidadania.

Em agosto de 2017, uma campanha militar contra este grupo minoritário escalou para uma crise de refugiados enorme. Desde então, mais de 736 mil rohingya fugiram para o Bangladesh, onde não são oficialmente reconhecidos como refugiados. Esta omissão na lei restringe os seus movimentos e impede-os de terem acesso à educação e a serviços públicos – impede-os também de obter cidadania.

Desde aquela primeira fotografia, Chowdhury encontra participantes para o seu projeto “Nascer Refugiado”, perguntando por recém-nascidos nas ruas apinhadas do campo. “As pessoas começaram a perceber a importância do nascimento destes bebés e começaram a guiar-me”, diz ele. Fotografou quase 20 bebés desta forma, muitos dos quais ainda não tinham nome. Quando ele perguntava os nomes, alguns eram atribuídos no momento.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, do meio milhão de crianças que vive em Cox’s Bazar, 30 mil têm menos de um ano. “O impacto de se ser apátrida cria uma enorme incerteza para o futuro das crianças rohingya”, diz Karen Reidy, porta-voz da UNICEF. Muito provavelmente ficarão de fora do sistema educativo e do mercado de trabalho. “Uma criança sem qualquer nacionalidade pode enfrentar uma vida inteira de discriminação.”

Segundo os dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, existem pelo menos 12 milhões de pessoas apátridas em todo o mundo, mas existem falhas nestes dados, particularmente em lugares como a China. Amal de Chickera, codiretor do Instituto de Apatridia e Inclusão, diz que o problema é global. "Uma mudança em relação à xenofobia" pode resultar no crescimento de apátridas, desde os EUA aos campos de refugiados do Bangladesh, diz ele. Para os refugiados sem cidadanaia o problema é mais grave.


 

“O ataque à identidade e história dos rohingya tem sido continuado, e chegamos ao ponto em que estão apátridas”, diz de Chickera. “Umas das formas de serem afetados por estarem apátridas é na limitação de soluções disponíveis, enquanto refugiados. Se estás apátrida, isso não chega para assegurar que podes regressar [a casa], precisas de uma pátria para onde regressar.”

Para Chowdhury, cada bebé que nasce apátrida mostra o dano colateral de um conflito que está muito focado na identidade étnica. “Uma coisa que me vem à memória durante este tempo todo é a música de John Lennon, “Imagine”, diz ele. “Um mundo sem fronteiras – o projeto é inteiramente sobre isto.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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