Reconstruções Faciais Revelam 40.000 Anos de Ancestralidade Inglesa

Enquanto o Reino Unido luta com questões de identidade e nacionalismo em torno do Brexit, uma nova exposição coloca novos rostos nos antigos habitantes da região.

Friday, February 8, 2019,
Por Kristin Romey

No ano passado, a reconstrução facial do Homem Cheddar, um habitante britânico com 10.000 anos de idade, de pele escura e olhos azuis, fez parte das notícias internacionais e suscitou debates sobre a identidade “nativa” de uma nação que luta com o Brexit e com questões de migração.

Agora, uma nova exposição revela os rostos de sete dos "habitantes locais" mais antigos da costa sul da Inglaterra, e a ciência confirma que a história da região é muito mais complexa do que se pensava.

Os rostos dos sete britânicos, reconstruídos a partir de vestígios arqueológicos que abrangem 40.000 anos, estão a ser exibidos no Museu & Galeria de Arte de Brighton, integrados numa exposição maior sobre a história da região.

Cinco dos sete indivíduos são verdadeiros "habitantes locais", reconstruídos com recurso a técnicas forenses a partir de crânios escavados nos arredores de Brighton, no sudeste do condado de Sussex. O “habitante local” mais moderno, um homem de 40 anos escavado durante a construção de um edifício na década de 1980, data do período anglo-saxão, época em que a Inglaterra foi unificada sob a regência de um único rei, explica Richard Le Saux, diretor de coleções do museu.

Os nativos mais antigos são uma mulher Neandertal e um homem moderno primitivo. As suas reconstruções faciais basearam-se em restos encontrados noutros lugares da Europa, mas os artefactos encontrados na área de Brighton revelam que ambos eram residentes locais há cerca de 40.000 anos.

REGRESSO À VIDA

Os antigos britânicos foram “ressuscitados” ao longo de 14 meses por Oscar Nilsson, arqueólogo e escultor que reimaginou os rostos de outros indivíduos da história, incluindo uma nobre peruana com 1200 anos e uma adolescente da Grécia com 9000 anos de idade. A técnica forense de Nilsson começa com uma rigorosa réplica 3D do crânio original, digitalizada, impressa e modelada à mão, de forma a refletir a estrutura óssea e a espessura do tecido, tendo por base a origem, o sexo e a idade estimada do individuo, na altura da sua morte.

Estudos de genoma recentes de antigas populações europeias permitem a Nilsson equipar as suas reconstruções com estimativas bastante precisas de pele, cabelo e cor dos olhos. Por exemplo, a população neolítica à qual pertencia a Mulher Whitehawk com 5600 anos, tinha geralmente pele mais clara e olhos mais escuros do que os anteriores ocupantes da Grã-Bretanha, como o Homem Cheddar. Ainda assim, era mais escura do que o homem presente na exposição de Ditchling Road, e que chegou à ilha com a primeira vaga de pessoas de pele e olhos claros, vindas da Europa continental há cerca de 4400 anos.

À medida que o Reino Unido se aproxima daqueles que serão provavelmente os últimos meses de negociações do Brexit, os rostos dos antigos moradores de Brighton poderão suscitar debates sobre os anteriores ocupantes da região e as suas ligações culturais com a Europa continental, diz Le Saux.

“Uma das histórias com as quais lidamos agora recai sobre a frequência com que a Grã-Bretanha esteve fisicamente ligada à Europa continental e o quanto da sua história é transmitida por uma série de migrações em massa durante cada período”, explica, acrescentando que a Grã-Bretanha integrou fisicamente a Europa continental várias vezes ao longo da história, sendo que a última vez foi há apenas 8000 anos.

VIDAS INDIVIDUAIS

O que faz com que os antigos britânicos retratados na exposição sejam tão interessantes, diz Nilsson, é a forma como a ciência revela as vidas que viveram. “Eu já trabalhei com muitos crânios, mas estes foram os mais característicos que eu já vi. Os rostos que se desenvolveram tornaram-se tão individuais.”

A Mulher Whitehawk destaca-se pelas circunstâncias aparentemente incomuns da sua vida e morte: os estudos científicos revelam que nasceu há mais de 5000 anos na fronteira com o País de Gales; depois, a uma determinada altura, mudou-se vários quilómetros para [este de] Sussex, e foi enterrada com amuletos de boa sorte num túmulo à entrada de um local de cerimónias neolítico.

Os restos de um feto encontrado na sua zona pélvica sugerem que morreu provavelmente durante o parto, descoberta científica que afetou a representação artística de Nilsson.

“Eu queria que ela parecesse um pouco curiosa – como se estivesse a pensar no futuro – porque estou a pensar no momento em que a estamos a ver e que pode ser, provavelmente, exatamente antes de dar à luz a criança que a levou à morte”, diz Nilsson.

O Homem de Slonk Hill, com 2300 anos de idade, apresentou problemas particulares, acrescenta Nilsson. De acordo com a sua estrutura óssea de vinte e poucos anos, da altura da Idade do Ferro, teria "provavelmente uma boa aparência", o que às vezes pode levar a uma reconstrução que se parece muito com um manequim, explica o escultor. O crânio também apresentava um ponto pronunciado onde as sobrancelhas se juntavam, o que pode ter dado ao Homem de Slonk Hill uma expressão “cruel”. "Foi difícil fazê-lo sorrir sem parecer demasiado assustador", diz Nilsson.

Depois, houve a decisão artística que teve de ser tomada com o Homem de Stafford Road, um adulto da era saxónica que provavelmente morreu devido a um terrível abcesso facial. No momento da sua morte, a infecção estaria provavelmente inchada de forma grotesca, mas Nilsson preferiu não exagerar a doença. "Eu queria mostrá-lo com algum tipo de dignidade e estabelecer uma conexão entre ele e o visitante do museu."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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