História

Uma Cultura Desvanecida Adapta-se às Mudanças dos Tempos

A cada mudança de fronteira e de paradigma político, as mulheres indígenas de Chukotka, na Rússia, adaptam-se para preservar a sua herança e sobreviver.Friday, February 15

Por Jennifer Kingsley
Fotografias Por Eric Guth
Elizaveta Dobrieva sentada no seu apartamento em Lavrentiya, Chukotka, segurando a guardiã do seu clã, uma figura de madeira feminina chamada Yiakunneun.

Estávamos a comer mais do que eu julgava ser possível, incluindo baleia gelatinosa na caçarola e pãezinhos de damasco frescos, enquanto a família de Elizaveta Dobrieva explicava que os seus antepassados descendiam do urso polar e da orca. Então, Elizaveta desapareceu no quarto dos fundos do seu apartamento em Lavrentiya, Chukotka, e regressou com uma escultura de madeira escura. Os olhos da figura inclinavam-se na direção de um longo nariz, e muitas linhas verticais estendiam-se por baixo do queixo. Elizaveta disse-me que as linhas representam tatuagens e indicam que esta figura é uma mulher.

"Esta é a guardiã do nosso clã", disse, "o nome dela é Yiakunneun”. (Иякунеун) Elizaveta segurou a figura como se fosse um bebé, descansando-a na dobra do seu braço, parecendo que estava a olhar para a sua face. Depois, explicou como conversa com a escultura, consultando-a nos momentos difíceis da sua vida. De seguida, colocou os dedos na boca da figura e mostrou como a alimenta com pedaços escolhidos da sua própria mesa, em ocasiões especiais. Os antepassados de Elizaveta viveram com Yiakunneun durante quatro ou cinco gerações, quando a vida era muito diferente. Esta figura cultural podia ser transportada para uma vida nova quando tantas outras coisas tinham de ficar para trás..

Elizaveta Dobrieva consulta Yiakunneun, uma figura de madeira que está na sua família há quatro ou cinco gerações, nos períodos mais difíceis da sua vida.

Elizaveta foi-me recomendada por alguém na biblioteca local, mas quando fui a sua casa, eu não sabia qual seria o tópico da conversa. A minha visita estava integrada numa viagem de três anos pelo norte, para conhecer o Ártico através do seu povo. As suas histórias pessoais são uma lembrança de que o Ártico é mais do que um cenário para as alterações climáticas, extração de recursos ou debates sobre soberania. É o lar de mais de quatro milhões de pessoas que vivem num período de mudanças sem precedentes.

Em Chukotka, uma região no extremo oriente da Rússia, as mulheres ainda falam sobre as deslocações que sofreram durante os anos 1950, quando muitos indígenas foram empurrados para povoações maiores, com casas construídas pelo estado e encorajados a “modernizar-se”. Em poucos anos, cerca de 800 dos 1200 Yupiks nessa região foram realojados e, embora o realojamento tenha ocorrido sem o uso da força, provocou uma mudança cultural irreversível.

Lavrentiya, 1500 habitantes, fica na costa do Estreito de Bering.

Numa época em que podemos recolher mais dados sobre o mundo do que alguma vez poderíamos processar, as histórias pessoais têm o poder de construir uma compreensão cultural. Desafiam generalizações e transcendem estereótipos. Também nos podem surpreender de formas inesperadas. Num momento temos chá e biscoitos e no outro temos a guardiã centenária de um clã.

Elizaveta é uma Yupik Siberiana e nasceu em 1942 na aldeia de Naukan, em Chukotka, à beira do Mar de Bering. Viveu lá até 1949. Quando tinha sete anos, a sua família mudou-se para Lavrentiya, a cerca de 80 quilómetros de distância. Naukan permaneceu a sua casa de verão até 1958, altura em que as autoridades soviéticas fecharam a aldeia. As autoridades explicaram que Naukan não era um bom lugar para se construir casas modernas e que não era saudável viver em yurangas, tendas tradicionais. No verão de 1958, o habitual navio de mantimentos com comida e carvão não chegou, e no espaço de dois meses Naukan foi fechada e o seu povo foi proibido de regressar.

Naquela altura, Elizaveta lembra-se do seu tio-avô dizer: “Se fecharem Naukan, perderemos a nossa língua”. “Agora”, disse-me ela, “foi o que aconteceu ... Os meus netos não falam a nossa língua”. No entanto, passados 60 anos, Yiakunneun ainda perdura, escondida num lugar especial neste apartamento, tal como estaria escondida na yuranga, há gerações atrás. Imagino onde estará daqui a algumas gerações, quem cuidará dela, e como será uma casa Yupik.

SVETLANA TAGYOK

A sul da Península de Chukotsk, na capital de Anadyr, Svetlana Tagyok (Cветлана Тагъек) foi-me recomendada pela sua neta, Svatlana Isakova.

Svetlana Tagyok revisita um álbum de recortes da sua vida e do seu trabalho enquanto jornalista, durante e após a Guerra Fria.

A avó Yupik de Svetlana costumava sair à rua, olhar para o céu e pensar: “Quando é que esta fronteira desaparecerá e nós nos poderemos voltar a ver novamente?” A fronteira entre Chukotka e o Alasca foi fechada em 1948, durante a Guerra Fria, e viajar entre as duas regiões foi proibido, mesmo para o povo Yupik da Sibéria, cujas famílias viviam em ambos os lados do Mar de Bering.

Imagens grandes nas laterais dos prédios em Anadyr celebram a vida selvagem da região e oferecem um contraste com a vida na cidade.

Em 1972, aos 30 anos de idade, Svetlana mudou-se para Anadyr e começou a trabalhar como jornalista no Comité Estatal de Rádio e Televisão (Государственный телерадио комитет). Durante anos, viajou pela região para aprender sobre as tradições culturais e os modos de vida dos povos Yupik e Chukchi, e transmitiu essas histórias – assim como mensagens do governo – pelas ondas da rádio. Por causa da fronteira fechada, as suas emissões Yupik estavam limitadas a uma audiência russa, ou assim pensou ela durante 25 anos.

Na mesa da cozinha, com chá, pão e ovas de salmão, Svetlana, agora com 75 anos, mostra o seu álbum de recortes. Mostrou-me fotografias de uma conferência sobre a língua indígena em Fairbanks, no Alasca, no início dos anos 90, depois da reabertura da fronteira. O casaco floral que Svetlana usava nas fotografias era o mesmo que usava durante a nossa entrevista. Na convenção, um homem cujo nome ela não se lembra, dirigiu-se para a frente da sala de conferências com uma cassete na mão. "Esta cassete tem uma gravação de uma mulher chamada Svetlana Tagyok", disse o homem, "se esta mulher está presente na plateia, por favor, apareça e leve esta cassete."

Svetlana Tagyok mostra alguns alimentos tradicionais, incluindo estrelas do mar, da sua terra natal na costa do Mar de Bering.

Dado que as emissões de Svetlana incluíam mensagens do governo sobre a União Soviética, e como tinha existido durante tanto tempo muita tensão entre os dois países, ela achava que este homem a iria criticar. “Eu estava a tentar esconder-me, não estava pronta para dizer que a gravação era minha”, disse.

O homem começou a elogiar Svetlana por esta descrever o modo de vida em Chukotka e por lhes ensinar tanto sobre a vida no “outro lado do mundo”, que fica a menos de 200 quilómetros de distância. Quando Svetlana deu finalmente um passo à frente, o homem disse-lhe: "Nós sabíamos sempre as horas da sua emissão, por isso ficávamos à sua espera.”

Svetlana teve a vida que a sua avó desejara. Agora que também ela é avó, disse: “Tendo vivido todos estes anos, percebo que a vida é frágil. É muito imprevisível e pode mudar a qualquer momento. ”

Larisa Vykvyragtyrgyrgyna na sua cozinha em Anadyr depois de entoar canções Chukchi que aprendeu enquanto vivia na tundra.

Quando terminámos a refeição, fiz a minha pergunta final: “Qual é a pessoa que você recomenda para eu conhecer a seguir?” Contou-se então sobre uma mulher Chukchi que mantém as tradições e canções da terra, embora também ela viva agora num apartamento na cidade.

LARISA VYKVYRAGTYRGYRGYNA

Enquanto criança que vivia na tundra, Larisa Vykvyragtyrgyrgyna (ариса Выквырагтыргыргына) ajudava as outras crianças a dormir. Quando chegava a hora, ela ia de uma yuranga para outra, "eu acalmava-os a cantar", disse. "Eu nasci para cantar."

Tal como muitos residentes em Anadyr, Svetlana e Larisa vivem em edifícios de apartamentos.

Larisa é Chukchi, o maior grupo indígena de Chukotka, e foi criada na tundra de uma família de pastores de renas. O seu nome em Chukchi é Ryskyntonaw (Рыскынтонау), que descreve o momento do seu nascimento. Refere-se a um padrão de folhas que ocorre quando uma determinada flor desabrocha.

Larisa abandonou a tundra para trabalhar como jornalista e professora. A sua vida tradicional é agora moldada em torno de uma vida urbana, por isso reunimos à mesa, com peixes selvagens e bagas da terra, seguidos de um bolo gelado da mercearia. Depois da sobremesa, Larisa trouxe um tambor feito de madeira e pele de rena. “Cada pessoa tem o seu nome, mas na nossa cultura cada pessoa também tem a sua própria canção”. Começou por introduzir a sua: “Esta canção é minha. Nascemos no mesmo dia.” A sua voz era delicada, mas firme. As alterações da melodia eram tão complexas que quase pareciam acidentais. Com cada frase, a tundra parecia aproximar-se da janela. Enquanto a noite prosseguia, ela cantava sobre alces, pássaros e sobre muitas pessoas que conhecera. Às vezes, fazia ritmos vibrantes com o tambor, mas cantava geralmente sem acompanhamento, com o tambor nos braços.

As canções são uma expressão das pessoas e das terras que as inspiraram. Um afastamento destes elementos resulta num afastamento da música. Tem sido difícil para Larisa conseguir ensinar estas canções aos outros, o que significa que algumas delas vão morrer com ela.

“É muito difícil transmitir o ambiente do local. Sabe, isto pode ser uma ligação espiritual, um estado de espírito, um estado de alma.” Quando os outros as tentam cantar, simplesmente não soam bem.

Maya Pelyatagina corta uma rena do seu rebanho imediatamente a seguir a ter sido morta.

Quando saí estava escuro e ventoso. Vista da rua, a janela do apartamento de Larisa era um pequeno ponto de luz entre muitos, e eu nunca teria adivinhado a história e a cultura destes quartos.

As histórias de Larisa sobre a tundra ajudaram-me a imaginar a vida das mulheres que ainda lá vivem, cujas histórias não estão contidas em quatro paredes e cujas casas ainda demoram muito tempo a chegar.

O rebanho da brigada de renas de Maya dirige-se para o acampamento.

MAYA PELYATAGINA

Maya Pelyatagina (майя Васильевна пелятагина), pastora de renas que vive num pequeno acampamento na tundra, fez uma pausa prolongada quando lhe pedi que descrevesse a tundra. Talvez parecesse uma pergunta idiota, dado que estávamos cercados por ela, mas eu estava curiosa para saber como seria a sua descrição da tundra a terceiros. Finalmente ela disse: "Eu só diria coisas boas sobre a tundra".

Maya Pelyatagina (centro) relaxa na yuranga com o seu marido Alexander Keutegin (à esquerda, também conhecido como Komso) e o líder da equipa Nikita Nikitovich (à direita, também conhecido como Valtagin).

Demorámos 14 horas a conduzir 190 quilómetros para chegar às yurangas, onde Maya habita com uma brigada de renas Chukchi. Era outono, o chão transformara-se em castanho dourado e os pastores trouxeram as renas, todas as 2500, para o acampamento. Quando perguntei ao líder da equipa, Valtagin, por uma recomendação sobre com quem falar – mesmo nesta comunidade de uma dúzia de pessoas – ele disse que eu deveria falar com as mulheres porque elas teriam uma perspetiva diferente da vida aqui. No momento estavam lá quatro: Maya, Olya (оля), Valentina e Elena. Elas espreitavam frequentemente pelas entradas das yurangas, e às vezes os animais vinham até ao fogo do cozinhado.

Renas vagueando pela tundra ao cair da noite.

Maya demorou apenas alguns minutos a contar-me a sua vida. A sua infância foi dividida entre a cidade e a tundra. Estudou culinária, teve uma filha, casou e voltou a trabalhar com o rebanho. Oficialmente, estava inscrita como técnica veterinária, mas na maioria das vezes cuidava da yuranga, que é tradicionalmente o papel das mulheres. Quando tentei aprofundar sua história de vida, ela disse: "Eu já lhe contei tudo.” Aqui, preocupam-se com o fazer e não com o falar. As histórias que ouvi davam pouca importância ao passado e ao futuro, eram contadas através do ritmo do quotidiano.

Os pastores lidam com os animais por turnos, por isso a comida tem de ser preparada várias vezes ao dia. Ao pequeno almoço, raspamos a carne de rena dos ossos das costelas, bebemos caldo quente de rena e chá quente cheio de açúcar, e comemos pão bannock frito. Mais tarde, Olya disse-me: "Estamos sempre ocupados, apenas os pastores têm tempo para descansar." Eu interrogava-me se ela preferia estar na aldeia, onde ia passar férias. "Não há nada para fazer na aldeia", disse.

Antes de dormir, quando a noite caiu e trouxe consigo o frio, alguns de nós reunimo-nos na yuranga. Maya montou a lâmpada que manteria a tenda acesa e aquecida durante toda a noite, uma chama laranja que se estendia por gerações, apesar de já não ser alimentada por óleo de mamíferos marinhos. Atualmente, a lâmpada é feita de uma lata cheia de gasóleo com um pavio de tecido. Alguém tirou um smartphone que havia sido carregado por um pequeno gerador, e juntámo-nos sobre o pequeno ecrã para assistir a um vídeo de um gato a ser alimentado com uma colher. A yuranga explodiu em gargalhadas. Depois, arrastámo-nos até à tenda feita de pele de rena, chamada polog. Havia um travesseiro de pele que se estendia ao longo da cama comunitária para descansarmos todos a cabeça. O chão estava coberto de galhos de salgueiro, uma pele de foca-barbuda, uma carpete, e finalmente, os nossos cobertores. A tundra por baixo de tudo isto.

A vida em Chukotka mudou drasticamente no último século. Mesmo antes do fim da União Soviética, muitos dos indígenas em Chukotka faziam parte dos esforços de modernização que incluíam deslocamentos e alterações fundamentais na economia quotidiana. Essas mudanças tiveram consequências muito pessoais em cada uma das pessoas que as viveu.

Na tundra, aos sons das renas, dos grous, dos mergulhões e dos corvos juntam-se agora os ruídos de veículos todo o terreno, geradores e leitores de mp3. As línguas indígenas deram lugar ao russo. As histórias também mudaram e muita coisa se perdeu, mas estas mulheres ensinaram-me que uma história – seja falada, cantada ou vivida – é um processo que se renova a cada momento, mas a narração não pode acontecer por si só. As histórias não são nada sem ninguém para as ouvir.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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