História

As Vozes Emergentes das Mulheres no Paquistão

Desde o registo de mulheres eleitoras até a negociação de direitos, as mulheres estão a redefinir os papéis que desempenham, apesar da resistência do estado, das instituições religiosas e de outras mulheres. Quinta-feira, 21 Fevereiro

Por Alice Su
Fotografias de Sara Hylton

SHAHDARA, PAQUISTÃO – Bushra Khaliq estava no meio de uma casa na aldeia, com o queixo para cima e os ombros para trás, prendendo a atenção de cinquenta mulheres à sua volta. Novas e velhas, usavam túnicas e cachecóis paquistaneses; algumas alimentavam e embalavam bebés, outras mandavam calar as crianças que lhes puxavam as mangas. O sol a entrar pelo teto aberto aquecia o rosto de Khaliq, enquanto esta olhava em redor, mantendo contacto visual com uma mulher, depois com outra. “Quem vai decidir o vosso voto?” Perguntou. As mulheres bateram palmas e gritaram em uníssono: "Eu!"

Khaliq, de 50 anos, defensora dos direitos humanos e organizadora comunitária, estava a realizar uma sessão de participação política, a primeira de várias naquele dia nos subúrbios rurais de Lahore. As mulheres que participavam nas sessões eram esposas locais e filhas de trabalhadores agrícolas. Muitas eram analfabetas, embora muitas trabalhassem em empregos com salários precários para enviar as suas filhas para a escola. Era a semana anterior às eleições gerais do Paquistão, e Khaliq, que dirige uma organização chamada Women in Struggle for Empowerment(WISE), encorajou as mulheres a votar.

Muitas das mulheres do campo não estão inscritas nos Cartões de Identidade Nacional, requisito para votar, para abrir uma conta bancária e para obter carta de condução. No Paquistão, muitas das mulheres das áreas rurais e tribais não conseguem fazer estas coisas, com ou sem o cartão. Seguindo as tradições patriarcais e as pressões familiares, vivem na privacidade dos seus lares sem identidades legais.

No entanto, as eleições de julho de 2018 no Paquistão tiveram um aumento de 3.8 milhões de mulheres recém-votantes. Este aumento dramático resulta de uma lei de 2017 que exige um mínimo de 10% de participação eleitoral feminina para legitimar a contagem de cada distrito. O Paquistão permite que as mulheres votem desde 1956, ainda assim, está entre os últimos países do mundo em termos de participação eleitoral feminina.

De acordo com algumas ativistas, a remota zona tribal que faz fronteira com o Afeganistão, formalmente designada por Áreas Tribais Administradas Federalmente (ATAF), no noroeste do Paquistão, tem sido tradicionalmente menos tolerante para com as mulheres em espaços públicos. No entanto, em 2018 o registo eleitoral aumentou em 66% relativamente a 2013. Este aumento da votação feminina é uma vitória para mulheres como Khaliq, que lutam pela inclusão e igualdade das mulheres no Paquistão, especialmente entre as comunidades marginalizadas em zonas rurais e tribais.

Incentivar mais mulheres a votar é apenas o começo. As próprias mulheres discordam sobre qual deve ser o seu papel na sociedade paquistanesa. A tradição patriarcal e conservadora rejeita o feminismo como sendo uma ideia ocidental que ameaça as estruturas sociais tradicionais. Aqueles que defendem a igualdade entre homens e mulheres – o coração do feminismo – estão a nadar contra a corrente. Enfrentam oposições por parte do estado, das instituições religiosas e, talvez de forma mais chocante, de outras mulheres.

Existem diferentes tipos de ativistas entre as mulheres no Paquistão. Algumas são mulheres seculares e progressistas como Rukhshanda Naz, que tinha quinze anos quando entrou em greve de fome pela primeira vez. O seu pai tinha doze filhos e ela era a filha mais nova. Contra vontade do pai, Naz queria ir para um colégio interno de raparigas. Demorou um dia de ativismo até o convencer, mas os seus familiares opuseram-se novamente quando ela quis entrar para a universidade de direito. "O meu irmão disse-me que se suicidava." Estudar direito significava que ela se iria sentar entre homens que não eram da sua família, uma desonra para ele. O seu irmão foi trabalhar para a Arábia Saudita. Naz formou-se em direito, tornou-se advogada em direitos humanos, abriu um abrigo para mulheres em Khyber Pakhtunkhwa e trabalhou como diretora da Fundação Aurat, uma das principais organizações paquistanesas nos direitos das mulheres. Naz também é chefe das Mulheres ONU para as áreas tribais de Khyber Pakhtunkhwa e ATAF.

As mulheres no abrigo de Naz são sobreviventes de violência extrema e o estatuto de mulheres solteiras deixa-as muito vulneráveis ​​fora do abrigo. Quando nos conhecemos, ela fazia-se acompanhar por três irmãs afegãs cujo irmão tinha assassinado a mãe após a morte do pai, para que a mãe não recebesse a sua parte dos terrenos na herança. Naz também recebeu uma mulher de 22 anos, de Cabul, cujo pai desapareceu às mãos dos Talibã por ter colaborado com as Nações Unidas. A mulher fora espancada, raptada e abusada sexualmente por recusar o casamento com um membro dos Talibã. As mulheres escondidas no abrigo de Naz estão relativamente seguras, mas fora das suas paredes, Khyber Pakhtunkhwa tem muitas incidências de violência baseadas em “honra”. Em junho passado, um jirga (conselho tribal tipicamente masculino) ordenou a morte “honrosa” de uma menina de 13 anos por “fugir com homens”. Em 2017, de acordo com o Observatório dos Direitos Humanos, pelo menos 180 casos de violência doméstica foram relatados em Khyber Pakhtunkhwa, incluindo o homicídio de 94 mulheres por familiares próximos.

Outras, como Farhat Hashmi, representam as mulheres de uma perspetiva diferente. Hashmi, intelectual doutorada em estudos islâmicos, fundou o movimento Al-Huda. O grupo, iniciado na década de 1990, ganhou força entre as mulheres paquistanesas de classe média alta enquanto sistema de educação religioso feminino que enfatiza os ensinamentos conservadores do alcorão. As escolas de Al-Huda ficaram conhecidas quando Tashfeen Malik, uma ex-aluna que se radicalizou, participou num ataque terrorista em San Bernardino, na Califórnia, em 2015. Embora não exista uma ligação comprovada entre o movimento Al-Huda e qualquer organização terrorista, o grupo integra um dos vários "movimentos de piedade" com popularidade crescente entre as mulheres paquistanesas.

O papel das mulheres nos ensinamentos Al-Huda é fundamentalmente diferente da posição pela qual mulheres como Naz e Khaliq lutam: as mulheres são ensinadas a obedecer e a submeter-se aos seus maridos tanto quanto possível, de forma a proteger a “honra” dos mesmos e nunca recusar as suas exigências físicas. Como Gullalai, diretora de uma organização de mulheres chamada Khwendo Kor ("Lar da Irmã" em Pashto), diz: "O que eles pensam ser os direitos das mulheres não é o mesmo que nós pensamos ser os direitos das mulheres".

O debate sobre os direitos das mulheres num contexto secular ou religioso prossegue desde os anos 1980, quando o feminismo progressivo começou a ganhar expressão no Paquistão. Apesar dos movimentos femininos existirem desde o nascimento do país, estes mobilizaram-se de formas diferentes quando a ditadura militar de Zia-ul-Haq instituiu uma forma de lei islâmica fundamentalista. Sob este sistema, as relações sexuais ilegítimas e o adultério tornaram-se puníveis com o apedrejamento e chicoteamento, e os homicídios foram privatizados sob as leis Qisas e Diyat (oferecendo uma lacuna no sistema para os praticantes de "crimes de honra"), e o testemunho das mulheres em tribunal vale apenas metade do dos homens.

Estas leis estimularam a formação, em 1981, do Women Action Forum (WAF), uma rede de ativistas que luta pelos direitos femininos seculares e progressistas. A 12 de fevereiro de 1983, a WAF e a Associação de Mulheres Advogadas do Paquistão organizaram uma marcha contra as leis discriminatórias, apenas para serem atacadas com bastões e bombas de gás lacrimogéneo nas ruas de Lahore. A data ficou conhecida como um "dia negro para os direitos das mulheres", diz Naz, e foi mais tarde declarada Dia Nacional da Mulher do Paquistão.

Desde então, as forças armadas do Paquistão ficaram mais fortes e enraizaram-se cada vez mais no controlo do estado e da economia. As eleições de 2018 viram a inclusão sem precedentes de grupos sectários extremistas e militantes concorrendo ao poder, incluindo um terrorista (declarado pela ONU) com uma recompensa de 10 milhões de dólares pela sua cabeça. Ao mesmo tempo, centenas de pessoas foram mortas ou feridas por uma série de ataques suicidas pré-eleitorais.

Alguns movimentos conservadores tornaram-se muito mais populares que o movimento progressista das mulheres. Alguns estudiosos explicam o apelo dessas organizações baseadas na fé como um canal para as mulheres exercitarem a sua gestão e autonomia, ao adotarem explicitamente uma forma não-ocidental de feminilidade. É uma definição diferente de emancipação. As suas defensoras também evitam a vergonha, a pressão e a ameaça física que as feministas seculares enfrentam regularmente. "Elas têm o apoio da religião e a aceitação da sociedade, estão, portanto, em expansão – e nós estamos a encolher", disse Naz.

Há um terceiro grupo de mulheres no Paquistão que não se identifica nem com o feminismo secular nem com a ideologia conservadora – mulheres que estão apenas a tentar sobreviver, disse Saima Jasam, investigadora que se concentra nos direitos das mulheres e das minorias no Paquistão, na Fundação Alemã Heinrich Böll. Jasam cresceu numa família hindu que decidiu ficar em Lahore. Ela testemunhou o esfaqueamento dos seus pais até a morte, em sua casa, quando tinha apenas 15 anos de idade. "A pessoa que esfaqueou o meu pai disse que sonhou que tinha de matar hindus", disse Jasam. Embora o resto da sua família estivesse na Índia, Jasam insistiu em terminar os seus estudos em Lahore, onde se apaixonou por um muçulmano, convertendo-se ao Islão para se poder casar com ele. Um ano depois, o seu marido morreu num acidente. Jasam estava grávida e perdeu o filho. Ela tinha 25 anos. Aos 27, começou a trabalhar em questões femininas fazendo trabalho de investigação, escrevendo eventualmente um livro sobre assassinatos de “honra”.

Jasam ignora as críticas e a pressão conservadora concentrando-se em proteger os mais vulneráveis. “Elas estão a enfrentar um nível diferente de patriarcado: insegurança alimentar, insegurança na saúde. Estão apenas a sobreviver”, disse Jasam. As mulheres seculares – que, para as ativistas seculares, não significa anti-religião, mas sim o combate à junção entre o estado e a religião – garantiram uma mudança legislativa para proteger melhor as mulheres nos últimos 20 anos.

Gullalai, que é originalmente da ATAF e que dedica grande parte do seu tempo às mulheres na zona mais tribal e conservadora do Paquistão, disse que a lacuna entre as crenças feministas e a realidade paquistanesa requer um compromisso pragmático. Ela trabalha para encontrar as mulheres onde elas estão. É fácil convencer as mulheres de que elas devem ter direitos de herança, por exemplo, mas existem textos religiosos afirmando que as mulheres devem receber apenas metade. “Assim, as mulheres dizem: 'Ah, queremos metade'”, disse Gullalai. Pessoalmente, ela acredita que as mulheres devem ter uma parte igual, mas não vai levantar esta questão nos debates em ambiente tribal. Gullalai disse: "De momento, até estamos a defender a metade!"

Por vezes, as feministas paquistanesas comprometem-se a envolver o “terceiro grupo” de mulheres de Jasam; outras vezes, essas mulheres inspiram as feministas a um ativismo mais radical.

No distrito rural de Okara, na província de Punjab, as mulheres têm desempenhado, durante muito tempo, um papel de liderança num movimento de agricultores contra a apropriação militar de terras. Elas usaram thappas – bastões de madeira usados na lavagem de roupa – para enfrentar as brutais forças paramilitares paquistanesas que espancaram, assassinaram, detiveram e torturaram agricultores locais e os seus filhos. Khaliq cooperou abertamente com este movimento de agricultores em 2016, discursando de forma solidária. Em resposta, o Ministério do Interior divulgou uma carta acusando a sua ONG de atividades não determinadas "prejudiciais à segurança nacional / estratégica".

Em 2017, Khaliq foi a tribunal para se defender a si e à sua organização. A sua ONG tinha estado a ensinar mulheres a protegerem-se contra o assédio, argumentou. Como é que isso prejudicava a segurança nacional? Khaliq ganhou o caso.

As mulheres são a inspiração de Khaliq. “São mulheres comuns e analfabetas que passam a vida toda em casa, mas levantam-se e lutam contra as brutalidades do exército”, diz. “Elas estão à frente dos homens. Eu sinto que é da minha responsabilidade estar ombro a ombro ao lado delas. A sua força dá-nos mais força.”

Em Shahdara, na parte de fora da casa onde decorreu a reunião de participação política, as sarjetas a céu aberto vertem pelas ruas da aldeia, as moscas zumbem em torno de vacas e as carroças passam pelas ruas de terra batida irregular.

Khaliq conheceu este grupo de mulheres há seis anos, disse, seguindo o seu método tradicional de abordagem de mulheres nas zonas rurais: batendo às portas, uma a uma, perguntando pelas mulheres, trazendo-as para as reuniões semanais, construindo uma irmandade. No período que antecedeu as eleições mais recentes, os seus grupos de mulheres foram às pequenas aldeias, de porta em porta, perguntando às mulheres se tinham cartões de identificação, levando postos móveis para efetuar o registo caso não os tivessem. Elas descobriram mais de 20.000 mulheres sem registo num distrito, disse Khaliq, e conseguiram obter cartões de identificação para 7 mil delas.

“Há dez anos, não tínhamos noção dos nossos direitos básicos. Agora sabemos como trabalhar para fazermos as nossas próprias escolhas”, disse Hafeezah Bibi, de 48 anos. Ela era a única mulher no conselho local de Shahdara, conselho que raramente abordava o que ela chamava de "problemas das mulheres pobres": depósitos de lixo a transbordar, sistemas de esgoto destruídos e salários explorativos. "Eles não nos ouvem, mas continuamos a perguntar e a discutir", disse.

Outra mulher, Parveen Akhtar, disse que estava em casa a costurar alças de sapatos por 300 rúpias (€ 2,15) por dia, sem saber o que as outras faziam ou se ela poderia receber um salário mais alto. Depois de se juntar ao grupo, aprendeu sobre leis laborais e sobre organização – e exigiu um aumento. "Só consegui ganhar mais 5 rúpias", disse, "mas ainda temos um longo caminho a percorrer".

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler