História

Arqueólogos Identificam Agulha de Tatuagem Com 2000 Anos

Tendo já sido descartada como um "pequeno artefacto de aparência estranha" a ferramenta mostra evidências de ter sido utilizada em tatuagens, há milhares de anos, no sudoeste dos EUA.Monday, March 18, 2019

Por Krista Langlois
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A ferramenta é feita a partir de um feixe de espinhos de cacto, com pontas saturadas de um pigmento escuro, inseridas num cabo esculpido a partir de Rhus integrifolia (conhecida por sumagre limonada) e amarradas com fibra de iúca.

Há cerca de 2000 anos, onde agora fica o sudeste do Utah, um tatuador usou esta ferramenta para gravar um desenho na pele de alguém. Depois da ponta de um dos espinhos de cacto se ter partido, a ferramenta foi provavelmente atirada para o lixo. E assim permaneceu durante séculos, numa pilha de ossos, espigas de milho e outros itens descartados.

Agora, num novo artigo publicado na revista Journal of Archaeological Science: Reports, uma equipa de arqueólogos conclui que esta ferramenta é uma das primeiras evidências de tatuagens no sudoeste dos EUA.

A ferramenta de tatuagem teve um percurso interessante desde que foi descartada há dois milénios. Em 1972, uma equipa de arqueólogos escavou uma pilha de lixo em Turkey Pen, na área da Grande Cedar Mesa, nos EUA. Sem pensar muito no "pequeno artefacto de aparência estranha", como foi mais tarde descrita por um arqueólogo, a equipa empacotou centenas de objetos do local em caixas, para armazenar na Universidade Estadual de Washington.

Andrew Gillreath-Brown estava a fazer o inventário desta coleção em 2017, quando encontrou a ferramenta de espinhos de cacto. Este estudante de doutoramento no estado de Washington já se tinha voluntariado para a Divisão de Arqueologia do Tennessee, e conhecia um arqueólogo especializado em pré-história chamado Aaron Deter-Wolf, pioneiro em investigação de arqueologia de tatuagem. Gillreath-Brown enviou uma mensagem ao seu antigo colega: "Eu vi algo que pode ser uma ferramenta de tatuagem."

Deter-Wolf ficou atónito. Se o feixe de espinhos de cacto tivesse sido de facto usado em tatuagens, isso colocaria a pegada arqueológica desta prática, no oeste dos EUA, até cerca de 79-130 D.C. (ferramentas de tatuagem ainda mais antigas, encontradas no leste dos EUA, também foram identificadas por Deter-Wolf, mas essa investigação ainda não foi publicada).

Isto também ajudaria os investigadores a perceber quando – e por que razão – é que as culturas de todo o mundo adotaram a tatuagem, uma arte amplamente praticada, que quase se perdeu sob o colonialismo europeu.

Foi então que Deter-Wolf, Gillreath-Brown e outros investigadores encetaram esforços, durante um ano, para confirmar o propósito desta ferramenta. Além de análises de microscopia e raios-X, Gillreath-Brown reconstruiu réplicas exatas da ferramenta e usou-as para tatuar pele de porco. Quando comparou os padrões de desgaste nos espinhos de cacto das réplicas com o desgaste encontrado na ferramenta original – recorrendo a um microscópio eletrónico de varrimento – verificou que estes tinham semelhanças notáveis.

No sudoeste dos EUA a arte desta época, conhecida como período Basketmaker II, retrata pessoas com decorações corporais, mas até agora ainda não se sabia se estas marcas representavam pinturas corporais, escarificações ou tatuagens.

"Esta é uma descoberta interessante e importante porque as análises sistemáticas mostram, de forma convincente, que esta ferramenta foi usada, há quase dois milénios, para tatuar", diz Michelle Hegmon, arqueóloga da Universidade Estadual do Arizona que não esteve envolvida no estudo. “Esta perceção é importante para a nossa compreensão da identidade social” entre o povo Puebloan Ancestral, cujos descendentes ainda vivem em tribos ameríndias por todo o sudoeste norte-americano.

ESTAS DESCOBERTAS FORAM POSSÍVEIS GRAÇAS AOS NOSSOS LEITORES

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As pessoas parecem ter adotado a tatuagem, tanto nos EUA como no resto do mundo, na mesma época em que adotaram estilos de vida baseados na agricultura. No sudoeste dos EUA, os Puebloans Ancestrais estavam a alterar os padrões de caçador-coletor para povoamentos em aldeias semipermanentes, cultivando milho. O clima estava a aquecer e as populações humanas estavam a expandir-se. Deter-Wolf teoriza que, perante tantas mudanças, as tatuagens podem ter ajudado a criar um sentimento de identidade.

"Quando vivemos de forma muito próxima com pessoas com quem não temos um relacionamento, precisamos de criar algo que una todo o grupo", diz. Ao mesmo tempo, as tatuagens podem ter sido utilizadas para afirmar identidades individuais, assinalando as suas linhagens ancestrais ou feitos específicos. "É como manter um histórico pessoal próprio, ao mesmo tempo que se cria uma coesão geral do grupo", explica Deter-Wolf.

Os colonos e os missionários europeus nas terras indígenas na América do Norte e mais além, proibiam frequentemente a prática da tatuagem entre os povos nativos. Em muitos lugares do mundo, a tatuagem tradicional quase desapareceu. Até os arqueólogos ocidentais do séc. XX ignoraram a evidência da prática, talvez devido às conceções erradas de que a tatuagem era “selvagem” ou praticada apenas por subculturas marginalizadas.

A única prova de tatuagens tradicionais que parece ter sobrevivido entre o povo moderno de Puebloan vem de pesquisas antropológicas realizadas em meados do séc. XX. Entre uma lista de várias questões, os investigadores perguntaram aos anciões tribais se os seus antepassados praticavam a tatuagem. Muitos, incluindo os Zuni, os Acoma e os Laguna Pueblos disseram que sim.

Dan Simplicio Jr., membro da Zuni Pueblo e especialista em cultura no Centro Arqueológico Crow Canyon, no Colorado, diz que a ideia de que os seus antepassados praticavam tatuagem não é surpreendente. Há uma palavra na língua zuni – dopdo'gna – que se traduz como "picar com uma agulha", e a palavra para agulha também pode significar espinhos de cacto ou de iúcas.

Simplicio refere que uma ferramenta por si só não confirma a forma como os Puebloans Ancestrais usavam as tatuagens, nem os padrões que poderiam ter desenhado. Ainda assim, existem pontos suficientes em comum entre outras culturas indígenas no continente americano para se aventurar em algumas teorias. Muitas tribos ameríndias usavam as tatuagens em ritos de passagem para a vida adulta ou para aproveitar o poder espiritual, especialmente entre as mulheres. Tatuagens no queixo ou linhas a irradiar do lábio inferior de uma mulher já foram comuns nas Américas, e Deter-Wolf acredita que existe uma grande possibilidade de que as mulheres Puebloan Ancestrais também as possam ter usado.

À medida que os arqueólogos prestam mais atenção à tatuagem, Deter-Wolf acha que poderão encontrar mais ferramentas, pintando um quadro mais completo sobre a tendência continuada dos seres humanos em fazer pinturas corporais. "A minha crença pessoal é a de que a tatuagem é provavelmente quase tão antiga quanto a humanidade", diz. "Provavelmente, se tivéssemos a capacidade de reconstruir o passado, a tatuagem seria como a linguagem falada, ou o saber como fazer fogo, que está profundamente enraizado no nosso simbolismo enquanto seres humanos."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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