Nos Ombros de Gigantes: Celebramos o Dia da Mulher Com 8 Portuguesas que Derrubaram Fronteiras

8 portuguesas que fizeram e fazem a diferença todos os dias. Porque o dia 8 de março é mais do que uma data, é o Dia da Mulher, de todas as mulheres.

Friday, March 8, 2019,
Por National Geographic
Sufragistas Americanas numa manifestação em fevereiro de 1913.
Sufragistas Americanas numa manifestação em fevereiro de 1913.
Fotografia de Hemeroteca Municipal de Lisboa

O Dia da Mulher comemora-se desde o ano de 1909, no entanto, só foi oficialmente reconhecido e proclamado pelas Nações Unidas em 1975. A história do Dia da Mulher tem por base a revolta das mulheres oprimidas que reclamavam melhores salários, horas de trabalho mais justas e o direito ao voto, nas ruas de Nova Iorque, em 1908. Nesta manifestação contra a desigualdade, mais de 15.000 mulheres exigiram uma mudança e esta estaria próxima.

No ano seguinte, em 1909, o Partido Socialista Americano declara o último domingo de fevereiro como o Dia Nacional da Mulher, e a data manteve-se até 1913.

No entanto, em 1910 uma Conferência Internacional de Mulheres Trabalhadoras aconteceu em Copenhaga. Nesta conferência, Clara Zetkin do Partido Democrático Alemão colocou a proposta de se unificar um Dia Internacional da Mulher, a ser celebrado em todo o mundo no mesmo dia.

Esta data deveria ter como objetivo que toda a população se juntasse para lutar pelos direitos das mulheres. A proposta de Clara Zetkin foi aprovada com unanimidade e assim nasceu oficialmente o Dia da Mulher. O dia escolhido fora 19 de março, que se celebrou pela primeira vez na Europa em 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça.

Mais países seguiram a iniciativa, alguns de acordo com o estipulado em Copenhaga em 1910, outros pela regra americana do último domingo de fevereiro, e outros ainda escolheram dias aleatórios em março para celebrá-lo. Em todos os países, o Dia da Mulher era celebrado nas ruas em protesto contra a desigualdade, a favor de mais direitos e condições, e ainda para expressar a solidariedade feminina.

Finalmente, em 1975 as Nações Unidas decretaram o Dia da Mulher – oficialmente, o Dia Internacional da Mulher – a dia 8 de março, em todo o mundo. Infelizmente, há países onde passa completamente desapercebido ou é mesmo ignorado. Não é o caso em Portugal.

DIA DA MULHER E ALGUMAS DAS PORTUGUESAS QUE DEVEM SER CELEBRADAS

São muitas as mulheres portuguesas que devem ser celebradas, mas, para o Dia da Mulher a 8 de março, criámos uma lista com 8 grandes mulheres que fizeram a diferença, que marcaram a história e que carregaram nos ombros os direitos das mulheres em Portugal

DOMITILA DE CARVALHO, A PRIMEIRA LICENCIADA EM PORTUGAL

Domitila de Carvalho.
Fotografia de Universidade de Coimbra

Domitila Hormizinda Miranda de Carvalho, nascida a 10 de abril de 1871, foi a primeira mulher portuguesa a concluir um curso e a conseguir o título de licenciada, em Portugal.

Domitila ingressou na Universidade de Coimbra em outubro de 1891. Em 1894 terminou a licenciatura em Matemática, tendo no ano seguinte concluído a licenciatura em Filosofia.

Em 1904 concluiu o seu doutoramento em Medicina, na mesma instituição. O futuro de Domitila passou por exercer medicina na Assistência Nacional aos Tuberculosos, em Lisboa, foi ainda professora de Matemática no Liceu de D. Maria Pia – o primeiro liceu só para mulheres -, onde também chegou a reitora, e teve uma carreira como escritora. Aos 64 anos, Domitila foi deputada da Assembleia Nacional. Nunca casou nem teve filhos – algo bastante incomum na altura - e veio a falecer aos 95 anos em Lisboa.

ELISA AUGUSTA DA CONCEIÇÃO DE ANDRADE, A PRIMEIRA MÉDICA PORTUGUESA

Os registos são poucos e confusos, mas tudo aponta para que Elisa Andrade, nascida a 1965, tenha sido a primeira mulher a exercer medicina em Portugal, terminando o seu curso em 1889.

Elisa frequentou a Escola Médico Cirúrgica de Lisboa – atualmente a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa –, tendo-se matriculado em 1880. Em 1889, depois de terminar o curso, o jornal Diário de Notícias dava conta de um consultório “para crianças e senhoras”, em Lisboa, aberto esse ano pela doutora Elisa Andrade.

CAROLINA BEATRIZ ÂNGELO, A PRIMEIRA MULHER A VOTAR EM PORTUGAL

 

Carolina Beatriz Ângelo
Fotografia de Arquivo da Câmara Municipal de Loures

Carolina foi a primeira mulher portuguesa a votar, em 1911, e esse ano foi, infelizmente o primeiro e último. Carolina Beatriz Ângelo, cirurgiã de profissão, nasceu na Guarda a 16 de abril de 1878, durante a monarquia. Ingressou nas Escolas Politécnica e Médico-Cirúrgica em Lisboa, tendo concluído o curso de Medicina em 1902. Esta foi a primeira médica cirurgiã portuguesa a realizar uma cirurgia em Portugal, no Hospital de São José em Lisboa.

Mas não só na medicina foi pioneira: Carolina Ângelo foi a primeira mulher a votar no nosso país, devido a um lapso na lei de então, que ela soube aproveitar. A primeira lei eleitoral da ainda recente República Portuguesa reconhecia o direito de voto apenas aos cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem “chefes de família”.

Ora, Carolina Ângelo era viúva desde o ano anterior, e mãe de uma pequena, pelo que era uma chefe de família, letrada, e com mais de 21 anos. Sem que a pudessem impedir, esta brava mulher exerceu o seu direito e votou, a 28 de maio de 1911. Viria a falecer ainda esse ano, em outubro, de uma síncope cardíaca, aos 33 anos.

Depois do gesto corajoso de Carolina, a lei foi mudada, e o Código Eleitoral de 1913 tornava o direito a votar apenas a “cidadãos portugueses do sexo masculino maiores de 21 anos (...), que estejam no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever Português, residam no território da República Portuguesa”. Só em 1931 as mulheres conquistaram o direito a voto, mas não sem duras restrições.

CAROLINA MICHAELIS, A PRIMEIRA PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

Carolina Michaelis
Fotografia de Hemeroteca Municipal de Lisboa

Carolina Michaëlis de Vasconcelos nasceu em Berlim, a 15 de março de 1851, e casou-se com um português, tendo fixado a sua residência em Portugal. Apesar de não ter estudado no nosso país, Carolina Michaëlis foi a primeira mulher a lecionar numa universidade portuguesa, nomeada Professora da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1911, e regente da cadeira de Filologia Portuguesa. Pediu transferência para a Universidade de Coimbra onde recebeu o título de doutora honoris causa e onde foi professora até falecer em 1925.

Durante a sua vida em Portugal, Carolina Michaëlis foi nomeada oficial da Ordem de Santiago da Espada, pelo rei D. Carlos, foi membro da Academia das Ciências de Lisboa e diretora da revista Lusitânia. Hoje em dia monumentos, escolas e ruas levam o seu nome.

MATILDE SIMON RACHEL BENSAÚDE, A PRIMEIRA BIÓLOGA INVESTIGADORA PORTUGUESA

Matilde Bensaúde nasceu a 23 de janeiro de 1890, filha do fundador e primeiro diretor do Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa, o Dr. Alfredo Bensaude. Estudou na Suíça e em França, licenciando-se em Ciências Naturais em 1916. Depois do seu doutoramento em 1918 regressou a Portugal onde viria a ser a única mulher entre os fundadores da Sociedade Portuguesa de Biologia. Trabalhou em investigação no Instituto Rocha Cabral em Lisboa, e nos Açores aprofundou a área da fitopatologia. Chegou, de facto, a dirigir a Inspeção dos Serviços Fitopatológicos do Ministério da Agricultura.

A fitopatologista Matilde Bensaúde retirou-se aos 50 anos, e veio a falecer quase vinte anos mais tarde, em 1969, em Lisboa. Entre o extenso legado de publicações científicas destaca-se um, que foi pioneiro na Europa, sobre heterotalismo - o estudo biológico da sexualidade e reprodução de fungos e algas.

ADELAIDE CABETE, PELOS DIREITOS DAS MULHERES, DOS ANIMAIS E PELA PAZ

Adelaide de Jesus Damas Brazão Cabete, natural de Elvas, nasceu a 25 de Janeiro de 1867 numa família bem humilde. Esta mulher extraordinária aprendeu a ler e a escrever sozinha, já que por dificuldades económicas se viu impossibilitada de ir à escola primária.

Mas isto não chegou para a parar: Adelaide conseguiu não só concluir o estudo primário, aos 22 anos, como seguiu estudos e terminou o liceu, e frequentou a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, tornando-se obstetra e ginecologista, em 1900, aos 33 anos. Adelaide Cabete, com grande ajuda do seu marido Manuel Cabete – um homem também extraordinário – tornou-se a terceira mulher licenciada em medicina no país.

Enquanto médica, lutou pela criação de apoios a mulheres grávidas e contribuiu largamente para a divulgação dos cuidados materno-infantis. Adelaide foi ainda médica escolar, professora de higiene e puericultura, anatomia e filosofia no Instituto Feminino de Educação e Trabalho em Odivelas. Diz-se que aqui terá ensinado educação sexual às suas alunas!

Mas Adelaide distinguiu-se em muito mais áreas para além da medicina. Esta grande mulher foi defensora dos animais, defendendo a abolição das touradas, foi co-fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e de outras associações feministas, e uma grande lutadora pelo voto feminino.

Em 1929, passando o país pelo Estado Novo, partiu para Angola onde continuou a lutar pelos direitos das mulheres e a exercer medicina, e onde veio a trabalhar na defesa dos direitos indígenas. Assim, Adelaide reivindicou a construção de uma maternidade, tendo-se construído a Maternidade Alfredo da Costa, em 1932. Em 1933 tornou-se na primeira e única mulher a votar em Luanda, sob a nova Constituição Portuguesa.

Esta obstetra, ginecologista, professora, maçom, benemérita, pacifista, abolicionista, defensora dos animais e humanista veio a falecer aos 67 anos, 14 de setembro de 1935, em Lisboa.

MARIA DE LOURDES BRAGA DE SÁ TEIXEIRA, PRIMEIRA MULHER PILOTO DE PORTUGAL

Maria Lourdes, ou Milú, nascida em 1907, foi a primeira mulher portuguesa a obter o brevete (ou brevê), um documento que concede permissão ao seu titular para pilotar aviões, a título civil ou militar. Apesar de o seu pai, médico, se opor veemente ao seu desejo de voar, acabou por aceitar quando Milú ficou doente de tristeza, pela sua recusa. Obstinada, Milú obteve o brevete aos 21 anos, e Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas – do qual Adelaide Cabete fazia parte – fez uma angariação de fundos para lhe comprar um avião.

Durante quase vinte anos, Maria de Lourdes foi a única mulher autorizada a pilotar um avião. A segunda mulher a conseguir um brevete de aviação civil foi Maria Ghira, em 1947. E, apenas muito mais recentemente, em 1994, é que as primeiras asas de piloto militar foram atribuídas a uma mulher, Paula Costa.

ISABEL RILVAS, A PRIMEIRA MULHER PARAQUEDISTA DE PORTUGAL E DA PENÍNSULA

Isabel Rilvas, uma outra grande portuguesa, esta nascida em 1935, foi a primeira mulher a saltar de paraquedas na Península Ibérica. E fê-lo profissionalmente. Isabel Rilvas, depois de obter o brevê de paraquedista em 1956, em França, tornou-se a primeira mulher-piloto acrobata, primeira mulher paraquedista civil e primeira piloto de balões de ar quente da Península Ibérica.

De volta ao país, foi a principal impulsionadora das Enfermerias Pára-Quedistas de Portugal, tendo início o primeiro Curso de Enfermeiras Para-quedistas a 6 de junho de 1961, no Aeródromo Militar de Tancos. Entre 1961 e 1974 formaram-se 46 mulheres enfermeiras para-quedistas, cujas funções eram assistir feridos em locais de combate, facilitar evacuações aéreas de e para hospitais, acompanhar os feridos de guerra ou ainda prestar apoio em postos médicos, nomeadamente entre as ex-Províncias Ultramarinas e a Metrópole, e também Goa e Timor.

Isabel Rivas, hoje com 84 anos, foi condecorada pela Força Aérea Portuguesa, em 2014, com a medalha de mérito aeronáutico de 1.ª classe.

Faltariam nomes, ainda que esta lista contasse oito mil. E o Dia da Mulher é, também, por elas.

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