História

Encontrados Indícios de uma Religião Misteriosa no Lago Mais Elevado do Mundo

Artefactos de ouro, conchas preciosas e vestígios de sacrifícios de animais apontam para um sistema de crença que ajudou a estruturar o antigo estado de Tiwanaku, afirmam os investigadores. Segunda-feira, 8 Abril

Por Erin Blakemore

Há cerca de 1200 anos, um recife no meio do Lago Titicaca, onde fica atualmente a Bolívia, tornou-se num repositório para as posses mais valiosas de um povo. Em 2013, um dos esconderijos desses objetos foi desenterrado por arqueólogos subaquáticos. Agora, os investigadores acreditam ter descoberto o significado dos objetos – vestígios de uma religião que ajudou o estado de Tiwanaku a transformar-se numa força dominante na região.

Os resultados da escavação foram revelados num artigo publicado no dia 1 de abril na revista Proceedings of National Academy of Sciences. Objetos de ouro, ornamentos de metal, pedras semipreciosas e queimadores de incenso recuperados no local sugerem que o recife – perto da Isla del Sol, lar de vários locais sagrados de Tiwanaku – já foi usado como zona de rituais do antigo estado.

Os antropólogos ainda estão a estudar os detalhes da religião que ajudou a criar o estado de Tiwanaku, que existiu entre cerca de 500 d.C. e 1000 d.C., e que no seu auge se estendeu ao Chile e ao Peru. O povo de Tiwanaku não deixou vestígios significativos de poderio militar, e acredita-se que o estado tenha adquirido a sua influência através da religião e do comércio. Apesar dos arqueólogos terem descoberto diversas provas arqueológicas das crenças religiosas de Tiwanaku, ainda estão a tentar descortinar os significados da religião e a forma como esta pode ter contribuído para a expansão do estado.

Os artefactos encontrados no local, conhecido como recife de Khoa, incluem dois medalhões de ouro que representam a divindade de Tiwanaku, e placas de metal que retratam um híbrido puma-lama mítico. Os mergulhadores também recuperaram restos mortais de animais reais, incluindo ossos de três lamas sacrificados.

Outras descobertas surpreendentes incluem cinco itens feitos de conchas de Spondylus e uma concha completa. Os moluscos eram importantes para as primeiras culturas dos Andes, mas não são nativos do Lago Titicaca – vêm do Oceano Pacífico. O facto das conchas estarem a quase 2000 quilómetros de distância do seu habitat mais próximo demonstra que estas eram valiosas, e que o povo Tiwanaku se envolvia em trocas comerciais.

"Encontrar tantas conchas de Spondylus foi realmente notável", diz José M. Capriles, antropólogo e professor assistente de antropologia na Universidade Estadual da Pensilvânia, e um dos autores do artigo.

Porque deixaram os Tiwanaku objetos tão valiosos para trás, num lago a alta altitude nos Andes? Capriles encara os sacrifícios como evidências de uma tradição religiosa em formação – que ajudou o estado de Tiwanaku a crescer e a prosperar. Ao usarem materiais valiosos nos rituais, os adoradores de Tiwanaku mostravam o seu compromisso para com as novas tradições religiosas – costumes que "desempenham papéis importantes na construção de sociedades", diz Capriles. "Essas divindades que as pessoas criam transformam-se em instituições que alteram o seu comportamento".

Essa nova religião serviu de base para as normas de comportamento e de moral. “Se nos portarmos bem, somos imortais”, diz Capriles. “Mas se formos maus, somos punidos pela divindade que governa.” Isso também significava que as pessoas se podiam mover de um lado para o outro em segurança, cientes de que as suas crenças partilhadas evitariam que fossem encaradas como estranhos. E isso, acredita a equipa, ajudou na expansão do estado de Tiwanaku.

No seu auge, esta sociedade exercia influências políticas, económicas e culturais muito relevantes. Mas depois do seu colapso, por volta de 1000 d.C., foi ofuscada pelas culturas que se seguiram. "Tiwanaku é o maior império nativo americano do qual muitos americanos nunca ouviram falar", diz Paul Goldstein, arqueólogo no Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia, em San Diego, que também está afiliado ao Centro Scripps de Arqueologia Marinha (Goldstein não esteve envolvido na investigação.) “Sempre que encontramos algo que reflete a complexidade da sociedade, aprofundamos o nosso conhecimento sobre as origens das sociedades complexas de todo o mundo.”

O estado de Tiwanaku pode parecer longínquo, mas para Capriles, os seus artefactos ajudam a trazer o seu povo de volta. “Eles eram gratos, faziam oferendas”, diz. “Eram apenas pessoas como nós.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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