História

Pode Uma Mulher Andar Pelo Mundo Atualmente?

Mulheres aventureiras revelam como as desigualdades de género podem limitar os movimentos – e a imaginação.Monday, April 22, 2019

Por Camille Bromley
A jornalista Bhavita Bhatia é uma de 14 mulheres que se juntaram a Paul Salopek, na sua jornada de contar histórias do mundo. Ela diz que caminhar por dois estados indianos, conhecidos pelo seu conservadorismo e violência, a deixou confiante de que "conseguiria voltar e fazê-lo" novamente – sozinha.

NELLIE BLY, uma jornalista famosa, entrou pelo gabinete do seu editor e disse-lhe que tinha uma ideia. Estávamos em 1888. Ela propôs viajar pelo mundo inteiro, para bater o recorde fictício narrado por Júlio Verne em A Volta ao Mundo em 80 Dias.

O editor respondeu-lhe que isso era impossível: ela precisaria de um acompanhante, porque iria transportar muita bagagem e só falava inglês – para além disso, só um homem conseguiria fazer tal jornada.

Bly respondeu, “Comece com um homem e eu começo a fazer o mesmo, no mesmo dia, para outro jornal, e vou ganhar-lhe”.

O jornal era o New York World, de Joseph Pulitzer e, eventualmente, enviaram Bly na sua volta ao mundo. Ela viajou sozinha, usou um vestido, tinha ouro nos bolsos e usava notas, que guardava numa bolsa pendurada ao pescoço, e só tinha uma mochila (continha artigos de higiene, roupas íntimas, lenços, agulha e linha, papel e canetas, um copo e um frasco de creme gelado). Bly partiu de Hoboken para Londres e, 72 dias, 6 horas e 11 minutos depois chegou de comboio a Jersey City, onde se reuniram milhares de pessoas para a receber. A sua jornada estabeleceu um recorde mundial.

Em 1887, a reportagem da jornalista Nellie Bly sobre os maus tratos às mulheres no Asilo Lunático de Nova Iorque trouxe melhorias imediatas para os residentes – eficou nacionalmente famosa.

Bly recebeu uma tarefa tão ambiciosa precisamente por ser quem era. Ela tinha alcançado a fama nacional dois anos antes, a trabalhar sob disfarce, durante 10 dias, no conhecido Asilo Lunático de Nova Iorque. Os seus relatórios detalhados sobre a falta de condições de saúde e sobre os maus tratos sofridos pelas mulheres internadas no asilo provocaram indignação, seguida de um pedido de desculpas e consequente encerramento.

Fazer uma corrida em torno do mundo era um empreendimento sensacionalmente semelhante, mas era mais uma façanha do que um artigo – as atualizações do itinerário, publicadas por Bly, consistiam principalmente em esboços de companheiros de viagem e em observações superficiais de culturas estrangeiras; não fizeram nada que colocasse em questão os estereótipos raciais da época. Os horários marítimos e ferroviários não davam obviamente tempo para relatar histórias; e esse também não era o objetivo. A jornada mostrava aos leitores do World as maravilhas mecanizadas dos transportes, e que o império colonial do Ocidente estava acessível. As últimas décadas do século XIX foram um período lucrativo para o jornalismo, e o desafio de Bly encontrou sucesso em contratos publicitários para o World, que realizou um concurso para os leitores adivinharem o tempo que demoraria a viagem – participaram quase um milhão de pessoas. Chegou até a existir um jogo de tabuleiro moldado pela viagem.

Em 1888, Nellie Bly estabeleceu um recorde ao dar a volta ao mundo em 72 dias, 6 horas e 11 minutos, assegurando o seu legado enquanto mulher pioneira.

Bly acabou por publicar trabalhos jornalísticos melhores, para além de A Volta ao Mundo em 72 Dias. Mesmo assim, admiro a proposta que ela fez ao seu editor: “Quero dar a volta ao mundo! Posso tentar?” Era uma questão ousada vinda de uma jovem mulher – Bly tinha apenas 24 anos na altura – mesmo atualmente. A julgar pelo que nos fazem acreditar, uma mulher sozinha tem tudo para correr mal. Uma mulher em lugares estranhos, entre pessoas estranhas, provoca suspeição e medo. Em grande parte do mundo, uma mulher a viajar sozinha desafia as normas socioculturais; nalgumas partes desafia mesmo a lei. No jornalismo, uma profissão que se dedica a percorrer o mundo em busca de histórias com finais desconhecidos, as divisões de género são um entrave.

Eu faço a gestão das redes sociais da organização sem fins lucrativos Out of Eden Walk, um projeto de jornalismo imaginado – e que vai agora no seu sétimo ano – por Paul Salopek. Paul está a seguir uma rota que engloba todo o planeta, e escreve sobre as pessoas e lugares que encontra.

Ele não está sempre sozinho – é acompanhado por guias, animais de carga, companheiros caminhantes e escritores, mas a sua rota é muitas vezes isolada.

O projeto suscitou uma pergunta que aparece frequentemente nos nossos canais de comunicação: Pode uma mulher andar pelo mundo atualmente? Este projeto depende da masculinidade? Ou da cor da pele? Ou é um privilégio para quem tem um visto ocidental?

A resposta é sim: essas marcas de identidade podem ser muito valiosas. Por outro lado, não: contar histórias não é um megafone que está apenas acessível àqueles que têm o poder e privilégios. Portanto, como seria uma caminhada liderada por uma mulher? Eu não consigo responder a esta questão na sua totalidade, nem o Paul – por isso, perguntei a algumas das suas companheiras de caminhada. Paul anda sempre com um companheiro local, geralmente um jornalista, interprete, ou guia de caminhadas. Até agora, nos 16 países que atravessou, teve a companhia de dezenas de pessoas, 14 das quais eram mulheres. No ano passado, na Índia, fez caminhadas com 5 mulheres. Acompanhei o seu paradeiro por telefone e email, nos locais por onde passavam: Nepal, Turquia, Jamaica, Seattle. Todas as pessoas se lembram vivamente dos trilhos de caminhada.

Na sua maioria, as nossas conversas não eram sobre segurança. Se uma viajante solitária inspira medo pela sua segurança, isso recai sobre os outros – na sua mãe, no seu companheiro; ou seja, nos seus autonomeados protetores – e não em si própria. Uma reportagem recente, publicada no New York Times, documenta um aumento no número de mulheres que viajam sem companhia e narra incidentes onde essas mulheres foram assassinadas, feridas ou agredidas sexualmente. Esse receio é desanimador, tanto na imprensa como coloquialmente. A mulher que saiu a pé, depois da meia-noite, e acabou numa valeta, transformou-se num mito passado de mãe para filha. Os homens, que também são vítimas de ataques, assumem a coragem e a inteligência das experiências negativas, mas as mulheres ficam danificadas ou traumatizadas para sempre – ou pior.

Não pretendo com isto desvalorizar a realidade da violência de género que é difundida pelo mundo inteiro. (Mais de um terço das mulheres de todo o mundo são violadas física ou sexualmente durante a vida, a maioria por parceiros íntimos.) Mas este receio transforma-se no seu próprio fardo. Ita Skoblinski, uma jornalista que se juntou a Paul na criação de um mapa da história de Jerusalém, disse-me que quando está num lugar novo fica extremamente consciente do ambiente que a rodeia. "As minhas antenas estão ligadas", disse. “Um homem pode temer ser roubado. Uma mulher receia poder ser violada. É um medo muito diferente.”

A normalidade com que um homem pode entrar num território desconhecido é um luxo raramente partilhado pelas mulheres. Arati Kumar-Rao, escritora e fotógrafa indiana que caminhou pela região Punjab do país disse, “Percebi que o Paul conseguia dormir, sentar-se e fazer as suas necessidades em qualquer lado, sem perigo, mas eu não podia fazer nada disso sem temer pela minha segurança.”

Quão forte é o medo interior; quão forte é o medo projetado pelos outros? Camille Framroze, advogada nos EUA, fez uma caminhada no ano passado pelo estado indiano de Madia Pradexe. Ela nunca sentiu nervosismo em relação à viagem até que a sua família e amigos a começaram a bombardear com precauções de emergência. Mas ela nunca se sentiu insegura. "Ficar com outras pessoas, pedir indicações e depender de estranhos para tudo, desde o ponto A ao ponto B, não era realmente assustador", disse Camille.

Eu vivo em Nova Iorque, e o assédio de rua que eu encontro diariamente é uma lembrança de que somos alvos móveis de atenção não solicitada. Na Índia, a caminhar com um homem branco e um burro ao lado, as mulheres eram recebidas com uma curiosidade ousada. (Algumas áreas da Índia rural não veem um ocidental desde a independência do país em 1947.) Para as mulheres, as perguntas investigavam frequentemente a natureza dos seus relacionamentos com os homens do grupo. Loveleen Mann, uma advogada indiana e ex-capitã do exército, que caminhou no estado predominantemente rural e conservador do Rajastão, descreveu Paul como sendo o seu chefe. Arati disse: "As pessoas perguntavam-me sempre quem era o Paul, o que estávamos a fazer, quem era eu, se era casada, onde estava o meu marido, se ele permitia que eu fizesse isto, quem cuidava da minha filha enquanto eu estava fora, o Paul era casado, porque estava eu com ele, era cristão, qual era a minha casta.”

Loveleen Mann (esquerda) e Priyanka Borpujari param para descansar, com Paul Salopek, no trilho na Índia.

Nas conversas que tive com as mulheres reparei num padrão de duvida e interrogação. “As pessoas perguntavam-me porque tinha escolhido este trabalho, se era difícil, se precisava de ajuda com alguma coisa”, disse Furough Shakarmamadova, guia profissional de caminhadas no Tajiquistão. “Disseram-me que conseguiam arranjar um carro. Eu bem tentei explicar, mais de cem vezes, o projeto do Paul, por que razão ele fazia estas caminhadas. Elas não conseguiam aceitar o que eu dizia.”

Furough e Safina Shohaydarova, ambas caminhantes experientes, acompanharam Paul em horários separados, ao longo de mais de 160 quilómetros, na autoestrada Pamir do Tadjiquistão. O esforço físico foi fácil, disseram elas – as únicas partes difíceis foram as saudades de casa. (Safina também se estava a preparar para o seu casamento, na semana seguinte.) Quando estava a caminhar ao longo da estrada, Safina disse: “Muitos condutores paravam e perguntavam-me se eu estava a fazer aquilo de livre vontade, se era obrigada a fazê-lo, ou se era uma questão de dinheiro. Eles não compreendiam que eu gostava de estar nas montanhas e que gostava de ser forte.”

Onde quer que existam mulheres em público, existem homens para as questionar. Para as policiar, ou até mesmo para oferecer conselhos bem intencionados, ou expressar uma opinião. Nem todas as abordagens são maliciosas ou arrogantes, mas o espaço público é a arena dos homens, seja em Teerão ou em Brooklyn. As mulheres não podem mover-se livremente, sem estarem sujeitas a olhares, comentários, perguntas, vaias, solicitações e ameaças. É algo que acontece, em toda a parte.

Essa vigilância do espaço é inseparável da vigilância dos corpos femininos. Priyanka Borpujari, que é jornalista há mais de 13 anos e já cobriu extensivamente toda a Índia em trabalho, não se preocupou com danos físicos ou em entrar em terreno desconhecido na sua caminhada com Paul. Ela disse: “Para mim, o maior desafio é algo com que todas as mulheres lidam, mas Paul não. Que é o corpo. Cresci com demasiados preconceitos horríveis sobre o que o meu corpo consegue ou não fazer. Houve um dia, no início da caminhada, que senti que a alça da minha mochila estava a competir com a alça do meu sutiã para me matarem.”

Priyanka Borpujari atravessa uma ponte de bambu, no estado indiano de Bengala Ocidental.

As mulheres foram amaldiçoadas com a crença pseudocientífica de que o corpo feminino não está equipado para se movimentar. “A crença de que as mulheres andam pior está espalhada por quase toda a literatura da evolução humana”, escreve Rebecca Solnit em Wanderlust, o seu livro extraordinariamente abrangente sobre a história de andar. O corpo feminino é um espetáculo, projetado para ser admirado; ou um item de uso único, concebido para dar à luz; ou uma fraqueza, sem a virilidade e força masculinas. Por outro lado, o corpo masculino é simplesmente neutro – um estado de ser assumido.

Paul costuma escrever sobre o seu corpo e sobre a forma como este se integra naturalmente nas paisagens por onde passa – a espécie humana construída como um motor focado no movimento e no pensamento. No entanto, o seu foco é intelectual, mais do que físico. Priyanka realçou que apesar de Paul sofrer desgastes físicos enormes nas caminhadas, ele evita falar sobre os efeitos reais no seu corpo. Não quer que as suas dificuldades físicas sejam o tema da conversa. Mas, para ela, “a coisa mais importante para se falar é sobre como se sente o meu corpo”. E acrescenta: “Dá-me vontade de rir porque eu sei que o Paul nunca falaria sobre estas coisas. Estou constantemente a pensar, será que posso falar sobre isto?”

Existe alguma mulher viva que nunca tenha sentido vergonha do seu corpo? Para as mulheres, ter simplesmente um corpo já é uma espécie de terror. É uma ideia feminista de que a experiência vivida de estar no corpo molda a perspectiva, a maneira de pensar. Enquanto conversava com Priyanka, lembrei-me da escrita de Jamaica Kincaid, Kathy Acker, Noelle Chatelet, da arte de Carolee Schneemann – trabalhos onde os corpos das mulheres são expostos em toda a sua forma confusa, feia e visceral. E em relação a fazer parte da paisagem? Priyanka disse: "Pense numa paisagem que foi pisada, é isso que são os corpos das mulheres".

Participaram muito menos mulheres no Out of Eden Walk – entre caminhantes, escritores e sujeitos de entrevistas – do que homens. Tal como escreveu Paul, a desigualdade de género é uma história global: É a injustiça mais enraizada encontrada por ele em seis anos de caminhadas. Os outros grupos minoritários também sentem na pele os limites da sua liberdade de movimentos – basta olharmos para a violência policial contra os homens negros nos EUA – mas, realça Solnit, a opressão de género é indiscutivelmente mais vasta do que a exercida de forma localizada sobre raça, classe, religião, etnia e orientação sexual. E há milénios que essa opressão, em grande parte do mundo, integra a identidade de género. “Aqueles a quem não lhes é permitido andar até onde os seus pés os conseguirem levar, não só estão a ser privados de exercício ou entretenimento, mas de uma vasta porção da sua humanidade”, escreve Solnit.

Mas o cerne da questão, para este projeto de jornalismo, reside na autoria: Quem conta e quais são as histórias. Para um jornalista, narrar as histórias dos outros requer acesso a um mundo exterior. Quais são as histórias que perdemos quando aceitamos que esse mundo exterior pode estar ausente de mulheres?

“Se há algo que eu me apercebi durante a caminhada e a fazer os meus artigos ambientais, é que os homens falam sempre pelas mulheres. Isso precisa de mudar, e eu tenho intenções de o fazer”, disse-me Arati. “As mulheres são afetadas de formas desiguais pelo que acontece no terreno – seja na política, nas leis, na economia, nas alterações climáticas e na degradação ambiental. Estas histórias precisam de ser contadas, e até estudadas, pois definem o que está a acontecer na Índia rural.”

Muitas das companheiras de caminhada de Paul também são jornalistas. Elas dizem-me que o preconceito de género afeta o seu trabalho, seja pela recusa de entrevistas ou pelo afastamento total. Mas falar com entrevistados requer respeito e confiança, que os homens ganham mais facilmente. Elas referem que Paul era geralmente mais respeitado – não se sabe se por ser homem, mais velho, americano, ou apenas por ser uma curiosidade. Camille Framroze disse, “Eu estava a falar hindi, mas todos os olhos estavam nele. Nunca consegui perceber se era algo de natureza sexista ou se olhavam para ele por ser estrangeiro”.

Noa Burshtein, uma jornalista israelita que edita a P.SEE, uma revista que só publica  artigos escritos por mulheres, disse-me: "As pessoas aceitam os homens de qualquer maneira." No entanto, para ela, "as coisas acabam sempre no foro pessoal; como é que você conseguiu esse trabalho? Qual é a sua história? Quem é você? Eu não posso ser apenas uma jornalista, apenas uma profissional. Eu sou sempre uma mulher que é jornalista.” Contudo, ela destacou a clareza oferecida pela perspectiva de uma mulher: “Quando pertencemos a um grupo que não é o grupo dominante, o grupo no poder, somos capazes de ver a influência do poder.”

Isso é uma vantagem. Uma mulher jornalista também tem acesso aos espaços femininos. “Paul não pode simplesmente entrar numa cozinha e ficar a fazer pães com as mulheres. Ele teria de ficar com os homens rajput, os homens machos e dignos”, disse Bhavita Bhatia, jornalista que se juntou à caminhada este ano. (Veja Como as Mulheres Fotógrafas Acedem a Mundos Escondidos dos Homens.)

Que tipo de pessoa devemos ser para caminharmos pelo mundo? Para perseguir o horizonte, dia após dia? Para Paul, levou décadas de experiência na indústria, apoio institucional, alguma liberdade da vida doméstica, e insatisfação com o estado das coisas, para embarcar em algo radicalmente diferente – entre inúmeras outras coisas. (Paul acrescentaria: Uma quantidade infinita de cartilagem nos joelhos.) Eu acrescentaria: Confiança. A confiança, ganha ou não, é um poder tremendo. Embora ninguém seja imune a problemas de autoconfiança (pelo menos alguém com uma mente sã), os homens têm sido muito melhores a adquirir essa capacidade. E é uma capacidade – autorizar-se a si próprio a falar autoritariamente, a ser ouvido, a discordar – aprender através da educação, da maturidade e do treino profissional. Os homens recebem mais facilmente a aprovação dos seus pares e famílias para estudar ou trabalhar em instituições de renome.

Todas as mulheres com quem falei são bem sucedidas, capazes, e beneficiam de vários privilégios adquiridos. Elas sabem quem são. Mesmo assim, muitas disseram que não tinham a certeza se conseguiriam fazer a caminhada com Paul, até que o fizeram. Bhavita, que atravessou dois estados indianos conhecidos pelo seu conservadorismo e violência, disse, “A razão pela qual eu me inscrevi, e apesar de já ter viajado por todo o país, é que eu nunca tinha conseguido ir a Utar Pradexe e Biar. Eu nunca consegui encontrar uma oportunidade para aparecer lá a caminhar – eu pensei, este tipo é a minha oportunidade. Mas agora sinto que podia regressar e fazê-lo novamente.”

Isso significa que podia regressar sozinha, nos seus próprios termos. Depois de me juntar a Paul, quase todas as mulheres com quem falei imaginavam-se no seu lugar. Existem inúmeras razões pelas quais nunca fariam tal coisa – outras ambições de carreira, compromissos familiares, projetos melhores e maiores – mas, crucialmente, o medo nunca seria um obstáculo.

Ela acrescentou: “Eu quero acordar um dia e ver uma mulher a fazer o que o Paul está a fazer. Enquanto for viva, espero ver uma jovem mulher a dizer, vou fazer isto também.”

Nellie Bly não refletiu sobre o seu estatuto de viajante solitária no seu livro A Volta ao Mundo em 72 Dias. (Embora refira diversos homens que assumiram como um dever seu assegurar a segurança dela.) Em vez disso, ela escreveu sobre o que viu, de forma sagaz e autoconfiante. Inúmeras outras mulheres na história, como Bly, caminharam (ou velejaram ou voaram): Sacagawea, que guiou Lewis e Clark pelo Território da Louisiana; Ida Pfeiffer, que deu a volta ao mundo duas vezes (e a quem ainda assim foi negada a filiação na Royal Geographical Society de Londres); Eliza Scidmore, uma escritora e fotógrafa que se juntou à National Geographic Society em 1890, porque os seus "sonhos eram sempre sobre outros países"; Freya Stark, que escreveu mais de duas dezenas de livros sobre as suas expedições ao Médio Oriente; a pirata da Dinastia Qing, Ching Shih, que comandou a maior tripulação da história; Gertrude Bell, que através das suas caminhadas no deserto do Médio Oriente, e através da confiança que construiu com os chefes tribais, exercia mais poder político do que qualquer outra mulher do Império Britânico. Acrescentando as mulheres da antiguidade que saíram de África, atravessaram o Estreito de Bering e navegaram até ilhas desconhecidas no remoto Pacífico.

Paul é muitas vezes descrito como um pioneiro. As mulheres do projeto Out of Eden Walk também estão a traçar novos horizontes, abrindo caminho para as que se seguem. Loveleen falou-me sobre uma noite, no Rajastão, em que ela desapareceu no campo para tomar banho em privacidade. Quando estava a regressar à vila, acompanhada por Priyanka, encontrou um grupo de raparigas da escola à sua espera, os seus olhos brilhavam no escuro. “Como é que você entrou no exército? Como é que você é advogada? Como é que você é jornalista?” perguntaram elas. Elas não se queriam intrometer, fazer juízos de valor ou provar algo. Elas só queriam saber, para poder fazer o mesmo.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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