História

Alucinogénios Antigos Encontrados em Bolsa com 1000 Anos

O recipiente, feito de três focinhos de raposa, contém as primeiras evidências conhecidas do preparado ayahuasca.Wednesday, May 15, 2019

Por Erin Blakemore
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Uma pequena bolsa, feita a partir de três focinhos de raposa, pode conter as evidências arqueológicas mais antigas do consumo de ayahuasca, um preparado de plantas psicoativas, nativo dos povos da bacia amazónica, que produz fortes alucinações.

De acordo com José Capriles, antropólogo na Universidade Estadual Penn e autor do artigo que descreve este achado, a bolsa pode ter pertencido a um xamã, onde atualmente fica o sudoeste da Bolívia, há cerca de mil anos.

Capriles encontrou a bolsa – e evidências do seu conteúdo alucinogénio – durante uma escavação arqueológica feita 2010, em Cueva del Chileno, um abrigo rochoso que mostra sinais de atividade humana que remontam até há 4000 anos.

A caverna foi usada como túmulo, e apesar de mais tarde os saqueadores terem levado os corpos, deixaram para trás o que consideravam ser lixo – contas, tranças de cabelo humano e algo que Capriles pensava inicialmente ser um sapato de couro.

O “sapato” acabou por se revelar um tesouro arqueológico – trata-se de um conjunto de peças de couro usadas em rituais, contendo uma bolsa feita de focinhos de raposa, uma fita com adornos para a cabeça, espátulas minúsculas feitas de ossos de lamas e um tubo entalhado com pequenas plataformas de madeira para inalar substâncias. A datação de radiocarbono da superfície da bolsa de couro indica que esta foi utilizada por volta de 900 a 1170 D.C.

SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS EM ABUNDÂNCIA
Embora o conjunto ainda tivesse alguns restos de plantas secas, Capriles e a sua equipa internacional de investigação não foram capazes de determinar a sua identidade com precisão. Ainda assim, interrogando-se sobre os tipos de plantas que o xamã poderia ter armazenado na bolsa, os investigadores analisaram a assinatura química do seu interior e compararam-na com uma variedade de plantas.

Descobriram que a bolsa já tinha transportado várias substâncias psicoativas. A análise revelou vestígios de bufotenina, benzoilecgonina (BZE) e cocaína (provavelmente da folha de coca), dimetiltriptamina (DMT), harmina e possivelmente psilocina, um componente químico dos cogumelos psicadélicos.

O dono da bolsa ou era bem viajado ou estava ligado a uma vasta rede comercial, já que nem todas as plantas ali presentes são nativas do sudoeste da Bolívia. A harmina é abundante na planta caapi, que vem de zonas tropicais no norte da América do Sul, a centenas de quilómetros de distância. E a equipa acredita que o DMT pode vir da planta chacrona, uma planta das terras baixas da Amazónia. "Esta pessoa ou viajava grandes distâncias ou tinha acesso a pessoas que o faziam", diz Capriles.

Um curandeiro a oferecer ayahuasca durante um ritual cerimonial de cura, na Colômbia. A descoberta feita na caverna boliviana é agora o achado arqueológico mais antigo do consumo de ayahuasca.

O alegado xamã também tinha acesso a experiências psicadélicas poderosas, provavelmente graças a uma combinação de harmina e de DMT. Caapi, a planta que contém harmina, é o ingrediente principal da ayahuasca moderna e é frequentemente combinada com chacrona, que contém DMT. Estas substâncias interagem para provocar alucinações poderosas, juntamente com náuseas e vómitos.

PERSPETIVA TEMPORAL PROFUNDA
Embora a ayahuasca seja considerada uma mistura “antiga”, a idade real da bebida e do ritual ainda é contestada. A descoberta de Capriles pode ser considerada a evidência arqueológica mais antiga do consumo de ayahuasca, embora não existam formas de provar que o xamã de Cueva del Chileno tenha realmente fabricado ou administrado a ayahuasca a partir dos ingredientes detetados na bolsa.

Os preparados modernos de ayahuasca “são idiossincráticos”, diz Dennis McKenna, formado em etnofarmacologia e especializado em alucinogénios de plantas. “Todos os xamãs têm a sua própria bebida.” Mas McKenna concorda que as substâncias encontradas na bolsa de Cueva del Chileno podem ter sido usadas para preparar a ayahuasca.

"As pessoas ainda debatem se a ayahuasca é uma coisa recente", diz Scott Fitzpatrick, arqueólogo na Universidade do Oregon que não esteve envolvido na investigação. “Os rituais de ayahuasca têm agora uma perspetiva temporal profunda.”

Hoje, a ayahuasca desfruta de uma popularidade recém-adquirida. Os seus efeitos psicadélicos – e os seus potenciais benefícios psiquiátricos para pessoas com perturbações de humor e doenças – estimulam a sua procura, tanto na América do Sul como nos Estados Unidos, onde os xamãs praticam cerimónias de ayahuasca para praticantes curiosos.

EXPERIÊNCIAS ‘SURPREENDENTES’
Capriles admite que a descoberta pode ter sido usada para publicitar rituais modernos de ayahuasca dirigidos aos turistas, mas ele enfatiza a natureza sagrada do trabalho dos xamãs. "Essas pessoas não estavam apenas a alucinar para fins de entretenimento", diz.

E o conjunto das peças de rituais não foi deixado na caverna por acidente. “Acreditamos que foi deixado lá intencionalmente”, acrescenta Capriles. “Este é o comportamento normal encontrado em locais com fortes presenças de rituais.”

Os utilizadores modernos não experimentam a droga para fins especificamente espirituais, diz McKenna. “Hoje em dia, a droga é usada de forma muito diferente – não necessariamente de uma forma pior, mas de uma forma diferente.”

Mas McKenna, que passou vários anos a estudar e a testar amostras de ayahuasca, encontra semelhanças entre os antigos curandeiros e aqueles que procuram atualmente experiências psicadélicas poderosas. “Quando eu utilizo estas substâncias, fico geralmente surpreendido com o que sinto”, diz. "Antigamente, eles também deviam ficar surpreendidos."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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