História

Explore as Obras de Leonardo Da Vinci da Coleção Privada da Rainha Isabel II

O Palácio de Buckingham está a exibir a maior exposição dos últimos 60 anos de Leonardo da Vinci, marcando o 500º aniversário do seu falecimento.Friday, May 31, 2019

Por Claudia Kalb
Martin Clayton, Chefe do Departamento de Gravuras e Desenhos da Coleção Real e curador da exposição – “Leonardo da Vinci: A Life in Drawing” – segura um dos esboços feitos por Leonardo, na Sala de Gravuras do Castelo de Windsor. A folha de dupla-face contém vários perfis e, no topo, tem a Virgem com o Menino e São João Batista criança.

Os desenhos da Coleção Real britânica de Leonardo da Vinci não costumam sair do seu santuário protegido, no Castelo de Windsor, com muita frequência. Mas 2019, que marca o 500º aniversário da morte do artista, é diferente. No dia 24 de maio estreou na Galeria da Rainha, no Palácio de Buckingham, a maior exposição de obras de Leonardo da Vinci (em mais de seis décadas), oferecendo aos visitantes uma oportunidade única de ver as pinceladas de tinta e as marcas de giz feitas pelas mãos do próprio da Vinci.

Martin Clayton estuda um desenho de Leonardo na Sala de Gravuras (controlada termicamente), no Castelo de Windsor. A Coleção Real mantém obras de vários mestres do Renascimento, incluindo Rafael e Miguel Ângelo. O esboço com a cor azul, em primeiro plano, é o mapa de Leonardo do Vale de Chiana, no sul da Toscânia.

A exposição, Leonardo da Vinci: A Life in Drawing, é composta por cerca de 200 desenhos (aproximadamente um terço das páginas de Leonardo atualmente na posse da Coleção Real), iluminando a curiosidade, o assunto e a técnica do artista. A seleção inclui esboços para A Última Ceia; desenhos para o fabrico de armas; e um estudo de mãos ligado à sua pintura Adoração dos Magos – uma de duas folhas desenhada a ponta de prata, muito desbotada, que só é visível à luz ultravioleta. Também em destaque: uma página com esboços da perna de um cavalo (feita em preparação para um dos três monumentos equestres que Leonardo nunca completou) e uma imagem a tinta de um homem introspetivo com uma barba ondulada. No início de maio, Martin Clayton, curador da exposição e Chefe do Departamento de Gravuras e Desenhos da Coleção Real, identificou o retrato como sendo uma imagem de Leonardo, feita por um dos seus assistentes pouco antes da sua morte.

Esquerda: Leonardo fez inúmeros estudos de preparação para as suas pinturas, incluindo estudos para o inacabado Adoração dos Magos, um dos seus trabalhos iniciais. Restaurado recentemente e agora em exibição na Galeria Uffizi, em Florença, Itália, o quadro retrata a Virgem Maria com o menino ao centro. Direita: Leonardo usou ponta de prata para retratar estas mãos, que serviram de estudo para a sua pintura Adoração dos Magos. Devido ao alto teor de cobre no estilete, os desenhos foram desvanecendo ao longo de tempo. A página aparece toda a branco e as imagens só são reveladas quando expostas a luz ultravioleta.
Este desenho está a ser exibido publicamente pela primeira vez na exposição na Galeria da Rainha, no Palácio de Buckingham, desde final de maio até meados de outubro de 2019. Martin Clayton, curador da exposição, identificou recentemente o esboço como sendo um retrato de Leonardo, provavelmente concluído por um dos seus assistentes, pouco antes da morte do artista em 1519.

As reproduções dos desenhos de Leonardo, facilmente acessíveis em livros e online, revelam a sua extraordinária capacidade em captar e visualizar informações. Mas ver a arte de Leonardo na sua forma original é uma experiência completamente diferente, um privilégio que tive no outono passado, quando vi uma seleção da coleção no Castelo de Windsor. Das páginas surgem texturas e manchas e conseguimos observar o vigor com que Leonardo trabalhava – a profundidade da cor que ele explorava nas suas folhas, a energia das suas pinceladas e a sua destreza notável. Num dos desenhos, Leonardo faz um estudo de dois centímetros e meio de Leda, com uma simples dispersão de marcas de caneta e tinta; noutro, retrata a tapeçaria no braço da Virgem, um estudo para A Virgem e o Menino com Santa Ana, com uma transparência de tirar a respiração, usando traços de giz vermelhos e pretos sobre o branco. "Nenhuma reprodução", diz Clayton, "capta a gama de tons, a subtileza e a vida destes desenhos".

Esquerda: Leonardo explorava todos os aspetos da botânica, desde a espessura dos galhos até ao efeito da luz solar sobre as folhas. Neste desenho, o artista destaca um aglomerado de estrelas-de-belém, uma planta representada nos seus estudos para a sua pintura perdida, Leda e o Cisne. Direita: Esta representação etérea de Leda, a mítica rainha de Esparta, foi concluída no final da vida de Leonardo e foi um estudo para a sua pintura perdida, Leda e o Cisne. Esboçado a giz preto, caneta e tinta, a imagem retrata o cabelo de Leda com belos detalhes pormenorizados.
Apesar das suas opiniões pacifistas, Leonardo serviu como arquiteto e engenheiro para César Bórgia, chefe dos exércitos papais, em 1502. Este desenho mostra quatro morteiros a disparar pedras sobre uma fortaleza.

Uma reprodução também não pode ser comparada com o imediatismo dos originais, algo que atrai o público para um relacionamento mais pessoal com o artista. Nós sentimos essa ligação. Esse relacionamento, em união com o incansável esforço do artista para dar sentido a tudo o que o rodeava, humaniza o génio de Leonardo. A sua destreza evoluiu através de rabiscos, esboços e sombreamentos para compreender astronomia, arquitetura, anatomia e tantos outros campos de estudo. Na mesma página onde está o seu famoso desenho de um feto em posição no útero, esboços menores mostram os esforços do artista para discernir a biologia da placenta e a física de como um bebé em posição fetal se virava para nascer. Os seus desenhos eram as suas experiências. "Ele estava a brincar com a sua própria imaginação", diz Clayton.

Leonardo era um anatomista muito talentoso cujas dissecações e observações apuradas figuravam nas suas imagens do corpo humano. Neste esboço maravilhoso, Leonardo imagina um feto no útero, com o cordão umbilical enrolado nas pernas.

Um dos aspetos mais marcantes dos originais de Leonardo é o trabalho deixado por aqueles que herdaram as suas criações. O artista deixou os seus desenhos a Francesco Melzi, seu aluno dedicado, que os recebeu após a morte de Leonardo, a 2 de maio de 1519, e os manteve durante cerca de 50 anos. Melzi tentou catalogar partes do material do seu professor, diz Clayton, com anotações – muitas vezes espalhadas de forma incompreensível – de uma página a outra. Ele assinalou os desenhos de tapeçarias, mapas e dilúvios de Leonardo com números consecutivos, num esforço de ordenação. Nalguns casos, Melzi até cortou perfis e pequenas figuras de páginas diferentes, enquanto se esforçava para unir temas semelhantes, incluindo a famosa série de "grotescos" de Leonardo, que retratam rostos humanos desagradáveis com enormes queixos salientes e lábios bolbosos.

Durante a minha visita, Clayton segurou uma dessas páginas para me mostrar o resultado final. "Você tem desenhos como este, onde Melzi cortou pedaços", disse ele, apontando para as lacunas angulares no topo e laterais do papel. Os pedaços ausentes só contribuem para uma série, já de si confusa, de assuntos díspares na frente e verso do papel – o perfil de um jovem; um vestido decorativo; um dispositivo hidráulico; um esófago e estômago.

Décadas depois da morte de Leonardo, os seus desenhos foram reunidos em pelo menos dois álbuns, pelo escultor Pompeo Leoni. A encadernação de Leoni, nome pelo qual este volume é conhecido, chegou a Inglaterra apinhada com cerca de 600 desenhos. Em 1690, a encadernação apareceu na Coleção Real, provavelmente adquirida alguns anos antes pelo rei Carlos II.

As alterações continuaram após a morte de Melzi, por volta do ano de 1570. O escultor Pompeo Leoni adquiriu os desenhos de Leonardo e encadernou-os, em pelo menos dois álbuns, um dos quais chegou à Coleção Real. Compilar cerca de 600 desenhos num único volume de couro, contendo apenas 234 fólios, foi certamente um desafio. O plano de Leonardo da cidade de Imola, no norte de Itália, demonstra isso mesmo: marcas de vincos na horizontal e na vertical revelam onde o papel foi dobrado em quatro, com um pequeno buraco de desgaste ao centro.

Enquanto servia às ordens de César Bórgia, chefe dos exércitos papais, Leonardo percorreu todos os cantos de Imola, uma cidade no norte de Itália, para criar este mapa, em 1502. As linhas a caneta dividem o mapa circular em oito partes. A página também apresenta vincos de onde foi dobrada em quatro partes.

O extraordinário mapa do artista do Vale de Chiana, no sul da Toscânia, contém idiossincrasias de outra ordem. A escrita no mapa lê-se convencionalmente da esquerda para a direita, e não da direita para a esquerda, a distinta escrita de Leonardo, sugerindo que o mapa foi preparado sob comissão profissional – e não para o próprio artista, diz Clayton. O verso da página mostra um perfil rudemente desenhado (que não foi feito por Leonardo, assegurou-me Clayton), assim como restos de lacre vermelho, que foram provavelmente usados para unir o mapa a um quadro para apresentação. "A arqueologia destes desenhos é fascinante", diz Clayton.

Seja com rasgos nas pontas, ou manchados com nódoas, ou marcas de água, todos os originais de Leonardo contêm os seus próprios resíduos seculares. Observar tudo isso de muito perto é uma experiência singular e este ano oferece uma variedade de oportunidades para o fazer. Entre outras exposições, mais de 50 obras de Leonardo estão atualmente expostas nos Museus Reais de Turim, incluindo o seu Códex sobre o Voo dos Pássaros, e a Gallerie dell'Accademia, em Veneza, tem em exposição o célebre Homem Vitruviano de Leonardo, juntamente com duas dezenas de outros desenhos.

A exposição na Galeria da Rainha, no Palácio de Buckingham, onde está patente até ao dia 13 de outubro, pode atrair grandes multidões. Só este ano, 12 exibições menores dos desenhos da Coleção Real, em locais dispersos por todo o Reino Unido, atraíram um milhão de visitantes – superando todas as expectativas. A fase final, depois de Londres, será realizada na Galeria da Rainha, no Palácio de Holyroodhouse, em Edimburgo, na Escócia, onde um grupo de 80 desenhos será exibido entre finais de novembro e meados de março de 2020.

Como um todo, os desenhos de Leonardo são um testemunho da paixão incansável do artista pela aprendizagem. “O que Leonardo nos pode ensinar hoje é que se olharmos para além da nossa própria disciplina podemos obter inspiração”, diz Clayton. “Ficamos com uma noção de possibilidade.” Uma forma de observar que pode despertar admiração em todos nós.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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