História

Como Um Tsunami ‘Esquecido’ com 600 Anos Mudou a História

Novas provas mostram que um evento semelhante ao tsunami de 2004, no Oceano Índico, atingiu a mesma região séculos antes e pode ter dado origem a um poderoso reino islâmico.quinta-feira, 6 de junho de 2019

Por Megan Gannon
Os túmulos históricos revelados pelo tsunami de 2004, no Oceano Índico, levaram os investigadores a procurar evidências de tsunamis anteriores.

No dia 26 de dezembro de 2004, as marés revoltas com 30 metros de altura precipitaram-se sobre as margens de Achém, a província indonésia na ponta noroeste de Sumatra.

Um sismo submarino ao largo da costa desencadeou um tsunami destrutivo que atingiu as linhas costeiras ao longo do Oceano Índico, percorrendo distâncias longínquas até à Somália. Morreram mais de 160.000 pessoas, apenas em Achém, e muitas mais foram desalojadas.

Há mais de 600 anos, um tsunami semelhante parece ter varrido as aldeias costeiras em Achém, e a devastação daí resultante pode ter desempenhado um papel na ascensão do poderoso Sultanato de Achém, de acordo com novas evidências, publicadas no dia 27 de maio na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Em 2006, o arqueólogo Patrick Daly estava a trabalhar com as autoridades de Achém para preservar locais culturais e religiosos danificados pelo tsunami de 2004, quando viu lápides muçulmanas históricas, maravilhosamente esculpidas, derrubadas e desgastadas ao longo da costa.

“Vê-las arremessadas por todo o lado foi muito desolador”, diz o arqueólogo.

Daly começou a questionar a frequência com que esses tsunamis aconteceram no passado e, em caso afirmativo, como poderiam ter afetado as vidas das pessoas que habitavam em Achém. A ponta noroeste de Sumatra, onde fica a capital de Achém, Banda Achém, era o primeiro ou o último porto de escala para os navios que atravessavam a baía de Bengala, e o Sultanato de Achém, que ali surgiu no século XVI, tornou-se numa das poucas potências do sudeste asiático a conseguir resistir ao colonialismo durante séculos. Contudo, os arqueólogos não tinham muitas provas de povoações na área antes do século XVII.

Daly, que trabalha no Observatório da Terra de Singapura, e os seus colegas da Universidade Syiah Kuala, em Achém, começaram a estudar sistematicamente a costa, percorrendo cerca de 40 aldeias no litoral para falar com anciãos e mapear traços históricos da presença humana, como lápides, fragmentos de cerâmica e antigas fundações de mesquitas.

"O primeiro mapa que recebi contava a maior parte da história", diz Daly. "Foi impressionante. Conseguimos observar concreções muito discretas de materiais ao longo da costa, e pelo menos 10 povoações surgiram de forma muito distinta."

Tsunamis 101
Tsunamis 101

Com base na idade dos fragmentos de cerâmica presentes nessas povoações, os investigadores descobriram algo ainda mais impressionante. As aldeias costeiras parecem ter surgido nos séculos XI e XII, e 9 dos assentamentos de baixa altitude ao longo de uma costa de 40 km parecem ter sido abandonados por volta do ano 1400.

Evidências geológicas descobertas recentemente sugerem que um tsunami atingiu a região em 1394, mas Daly diz: "Não tínhamos a menor ideia da sua extensão, tamanho e poder destrutivo". O tsunami, possivelmente semelhante ao do evento de 2004, destruiu todas as aldeias de baixa altitude da região.

A única povoação de Achém que parece ter sobrevivido ao tsunami de 1394 fica no topo de uma colina, fora do alcance das marés. Daly e os seus colegas identificaram a povoação como sendo Lamri, um local de comércio conhecido dos registos históricos da Rota da Seda marítima medieval. Em Lamri, os investigadores encontraram cerâmicas de alta qualidade, de todas as partes da China e até mesmo da Síria, que não encontraram nas aldeias a baixa altitude.

No entanto, Lamri entrou em declínio acentuado por volta do início do século XVI. Algumas décadas antes, as pessoas tinham começado a reconstruir as aldeias destruídas pelo tsunami. O comércio estava a ser redirecionado para essas áreas de baixa altitude, evidenciado pelo aumento de cerâmicas e lápides de alta qualidade com nomes de elites de outras partes do Estreito de Malaca, que separa Sumatra da Península da Malásia.

Daly e os seus colegas acreditam que as áreas costeiras de baixa altitude não foram repovoadas pelos sobreviventes locais que regressaram a casa. Em vez disso, a equipa acredita que a destruição provocada pelo tsunami ofereceu um terreno de excelente qualidade para os comerciantes muçulmanos que estavam a ser deslocados para outros lugares, quando os europeus começaram a disputar influências na região. (Os portugueses conquistaram o estado vizinho de Malaca em 1511.) Os muçulmanos recém-chegados podem ter formado o núcleo do que se viria a tornar no Sultanato de Achém, um poderoso reino islâmico.

"Podemos ter um evento de tsunami seguido de um período absoluto de renascimento e construção", diz Beverly Goodman, geoarqueóloga na Universidade de Haifa, em Israel, que também estuda tsunamis do passado. (Goodman não esteve envolvida no estudo).

Os geólogos e os arqueólogos esperam que a reconstrução de tsunamis do passado possa ajudar a compreender melhor os riscos da atualidade.

"Se confiarmos apenas nos registos que conhecemos, podemos subestimar significativamente a frequência e o tamanho do impacto dos tsunamis em todo o mundo", afirma Goodman.

Ela refere que com o evento de 2004, Achém provou ser muito vulnerável. Mas os mesmos métodos deste novo estudo, no qual Goodman não participou, podem ajudar a reconhecer a vulnerabilidade de zonas que não tiveram um evento registado em tempos recentes.

"Este tipo de investigação é muito importante para reunir esses registos antigos, para entendermos melhor quais são os fatores de risco", diz Goodman. "Usar registos de sedimentos e registos arqueológicos é realmente crítico para preencher essas lacunas."

O maior desafio talvez esteja em descobrir como é que nos podemos adaptar a esses eventos raros.

"Se dissermos às pessoas que nos próximos séculos pode existir outro tsunami, mas não conseguimos afirmar quando, e que isso vai destruir uma determinada área, muitas pessoas estão dispostas a viver com esse risco”, diz Daly.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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