História

Foi Encontrado o Último Navio Negreiro no Alabama

A escuna Clotilda traficava prisioneiros africanos para os EUA em 1860, mais de 50 anos depois da importação de escravos ter sido proibida.Tuesday, June 4

Por Joel K. Bourne, Jr.
Sobreviveram 109 prisioneiros africanos à brutal travessia de seis semanas, da África Ocidental para o Alabama, no porão apertado do Clotilda. Originalmente construído para transportar carga, não pessoas, o navio era único em termos de design e dimensões – facto que ajudou os arqueólogos a identificar os seus destroços.

A escuna Clotilda – a última embarcação conhecida a trazer africanos escravizados para as costas dos Estados Unidos – foi descoberta num braço remoto do Rio Mobile, no Alabama, após uma extensa busca de um ano feita por arqueólogos marinhos.

"Os descendentes dos sobreviventes do Clotilda sonhavam com esta descoberta há várias gerações", diz Lisa Demetropoulos Jones, diretora executiva da Comissão Histórica do Alabama e oficial do Departamento Estadual de Preservação Histórica. "Estamos felizes por poder anunciar que o sonho deles se tornou finalmente realidade."

Os prisioneiros que chegaram a bordo do Clotilda foram os últimos de 389.000 africanos que se estima terem sido entregues à escravatura na América continental, desde o início dos anos 1600 até 1860. Neste comércio transatlântico estavam envolvidos milhares de navios, mas foram encontrados poucos naufrágios.

"A descoberta do Clotilda abre uma nova perspetiva sobre um capítulo perdido da história americana", diz Fredrik Hiebert, arqueólogo-residente na National Geographic Society, que apoiou a investigação. "Esta descoberta também é uma parte crítica da história de Africatown, que foi construída pelos descendentes resilientes do último navio de escravos da América."

Os arqueólogos marinhos recuperaram pregos, fixadores e parafusos usados para proteger as vigas e tábuas da embarcação. Feitos de ferro forjado à mão, estes materiais eram comuns nas escunas construídas em Mobile, em meados do século XIX.

Relatos muitos raros, deixados em primeira mão pelos proprietários de escravos e pelas suas vitimas, oferecem uma visão única do comércio de escravos no Atlântico, diz Sylviane Diouf, reconhecida historiadora da diáspora africana.  

"É a história mais bem documentada de uma viagem de escravos no hemisfério ocidental", diz Diouf, cujo livro de 2007, Dreams of Africa in Alabama, narra a saga do Clotilda. "Foram feitos esboços dos prisioneiros, foram entrevistados e até filmados", diz ela, referindo-se aos que viveram até ao século XX. "A pessoa que organizou a viagem falou sobre isso. O capitão do navio escreveu sobre isso. Portanto, temos a história de várias perspetivas. Eu nunca vi nada assim."

Em 1927, Cudjo Lewis, na altura um dos últimos sobreviventes vivos do Clotilda, partilhou a sua história de vida com a antropóloga Zora Neale Hurston. O seu livro, Barracoon, finalmente publicado em 2018, inclui o relato de Lewis sobre a angustiante viagem a bordo do Clotilda.

Tudo começou com uma aposta
Supostamente, a história do Clotilda começou quando Timothy Meaher, um abastado proprietário de terras e construtor naval, apostou milhares de dólares com empresários do norte em como conseguia contrabandear uma carga de africanos para a Baía de Mobile, debaixo do nariz das autoridades federais.

A importação de escravos para os Estados Unidos já era ilegal desde 1808, e os proprietários de plantações no sul sentiam a subida de preços no comércio interno de escravos. Muitos, incluindo Meaher, defendiam a reabertura do comércio.

A Viagem do Clotilda

Em 1860, o Clotilda traficou prisioneiros da África Ocidental para os EUA. As rotas e datas são retiradas dos relatos do capitão do navio, William Foster.

Meaher fretou uma escuna elegante e veloz, chamada Clotilda, e recrutou o seu construtor, o capitão William Foster, para a levar até ao infame porto escravo de Ajudá, no atual Benim, para comprar prisioneiros. Foster zarpou da África Ocidental com 110 jovens – com homens, mulheres e crianças amontoados no porão de carga. Alegadamente, uma das raparigas morreu durante a brutal viagem de seis semanas. A carga humana, comprada por 9.000 dólares em ouro, valia mais de 20 vezes esse valor, em 1860, no Alabama.

Depois de transferir os prisioneiros para outro barco, propriedade do irmão de Meaher, Foster queimou a embarcação até à linha de água, para esconder o seu crime. Clotilda manteve os seus segredos durante décadas, apesar de alguns descrentes alegarem que esse episódio vergonhoso nunca aconteceu.

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Quando a Guerra Civil terminou e a escravatura foi abolida, os africanos ansiavam por regressar a casa, na África Ocidental. Mas como não tinham meios para o fazer, compraram pequenos lotes de terreno, a norte de Mobile, onde criaram a sua própria comunidade coesa – que mais tarde veio a ser conhecida por Africatown. Nessa comunidade construíram vidas novas, mas nunca perderam a sua identidade africana. Muitos dos seus descendentes ainda vivem lá atualmente e cresceram a ouvir histórias do famoso navio que trouxe os seus antepassados para o Alabama.

"Se eles encontrarem evidências desse navio, vai ser algo em grande", previu Lorna Woods, no início deste ano. "Tudo o que a nossa mãe nos dizia seria validado. Seria um alivio para nós."

Mary Elliott, curadora no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana Smithsonian, concorda.

"Existem muitos exemplos atualmente – os motins raciais de Tulsa, em 1921, esta história do Clotilda, e até mesmo o Holocausto – onde algumas pessoas afirmam que esses eventos nunca aconteceram. Agora, a arqueologia, a pesquisa de arquivos e a ciência, combinadas com as memórias coletivas da comunidade, não podem ser refutadas. Estas pessoas estão agora ligadas aos seus antepassados de uma forma tangível, sabendo que essa história é verdadeira."

Esquerda: Um busto de Cudjo Lewis, um dos últimos sobreviventes do Clotilda a falecer, fica na entrada da Igreja Batista da União Missionária, que ele ajudou a fundar. Direita: O Cemitério Old Plateau – também conhecido por Cemitério de Africatown – tornou-se no local de descanso final para muitos dos sobreviventes do Clotilda que se estabeleceram na comunidade, incluindo Lewis.

À procura da história perdida
Ao longo dos anos foram feitas várias tentativas para localizar os destroços do Clotilda, mas o delta de Mobile-Tensaw está repleto de lamaçais, ribeiros e braços de rio mortos, e também tem dezenas de naufrágios de mais de três séculos de atividade marítima. Mas em janeiro de 2018, Ben Raines, um jornalista local, informou ter descoberto os destroços de um grande navio de madeira, durante uma maré anormalmente baixa. A Comissão Histórica do Alabama (CHA), que detém a propriedade de todos os navios abandonados nas águas do Estado do Alabama, contactou a empresa de arqueologia Search Inc., para investigar o casco do navio.

A embarcação em questão não era o Clotilda, mas o falso alarme acabou por concentrar a atenção nacional no navio negreiro há muito perdido. O incidente também levou a CHA a financiar mais investigações, em parceria com a National Geographic Society e a Search Inc.

Os investigadores perscrutaram centenas de fontes originais da época e analisaram registos de mais de 2.000 embarcações, que estavam a operar no Golfo do México durante o final da década de 1850. Descobriram que Clotilda era apenas uma de cinco escunas construídas no Golfo, para as quais existia um seguro. Os documentos de registo forneceram descrições detalhadas da escuna, incluindo a sua construção e dimensões.

O arqueólogo marinho, James Delgado, examina uma secção do rio Mobile, durante as buscas pelo local de repouso final do Clotilda.

"O Clotilda era um navio customizado e atípico", diz o arqueólogo marinho James Delgado, da Search Inc. "Só existia uma escuna construída no Golfo com 26 metros de comprimento, com uma secção transversal de 7 metros e com um porão de carga de pouco mais de dois metros de altura, o Clotilda era isso."

Esquerda: O cientista forense, Frankie West, examina amostras de madeira do porão do navio na esperança de recuperar ADN do sangue ou dos fluidos corporais dos prisioneiros. Direita: Arthur Clarke, engenheiro da National Geographic, analisou um prego do naufrágio e descobriu que este era constituído por 99% de ferro puro, consistente com os fixadores utilizados na construção naval no Alabama, na década de 1850.

Os registos também informaram que a escuna tinha sido construída com tábuas de pinho amarelo do sul, colocadas sobre estruturas de carvalho branco, e equipada com um quadro central de 4 metros de comprimento, que podia subir ou descer consoante as necessidades de abordagem a portos de águas pouco profundas.

Com base nas suas investigações de possíveis localizações, Delgado e a arqueóloga estadual do Alabama, Stacye Hathorn, concentraram-se num trecho do rio Mobile que nunca tinha sido dragado. Com a ajuda de mergulhadores e uma série de dispositivos – um magnetómetro para detetar objetos de metal, um sonar de mapeamento lateral para localizar estruturas no fundo do rio e um aparelho de perfis marinhos para detetar objetos enterrados debaixo do leito do rio – descobriram um verdadeiro cemitério de navios afundados.

Antes da investigação estadual, Raines continuava na sua demanda para descobrir o naufrágio, recrutando investigadores da Universidade do Sul do Mississippi (USM) para mapear os contornos do leito do rio e detetar quaisquer objetos submersos. A pesquisa da USM revelou a presença de um naufrágio de madeira com algumas evidências de um navio do século XIX.

"As dimensões do navio ainda não foram determinadas", relatava Raines em junho de 2018. "Também não sabemos com exatidão o tipo de embarcação encontrada. Responder a essas questões pode exigir um exame mais completo e invasivo, que é precisamente a especialidade da Search Inc."

Esquerda: O Parque Estadual Meaher tem o nome da família de Mobile que doou propriedades à reserva junto à água. Em 1860, o capitão Timothy Meaher apostou uma enorme quantia de dinheiro em como conseguia importar escravos africanos no Clotilda sem ser apanhado. Meaher ganhou a aposta. Direita: Uma réplica do Sino da Liberdade de Africatown, no pátio da Escola de Treino do Condado de Mobile. As lendas locais dizem que o sino original pertencia ao Clotilda.

A equipa de Delgado eliminou facilmente a maioria dos possíveis naufrágios: tamanho errado, casco de metal errado, tipo de madeira errado. Mas o navio assinalado por Raines e pela investigação da USM destacava-se dos restantes.

Durante os dez meses seguintes, a equipa de Delgado analisou a forma e as dimensões do navio afundado, o tipo de madeira e metal usados na sua construção e  evidências de que este tinha sido queimado. "Batia tudo certo com os registos do Clotilda", disse Delgado.

As amostras de madeira recuperadas no Alvo 5 são de carvalho branco e pinheiro amarelo do sul da costa do Golfo. Os arqueólogos também encontraram restos de uma placa central com o tamanho correto.

Os parafusos de metal do casco são feitos de ferro-gusa forjado à mão, iguais aos do Clotilda. E existem provas de que o casco estava originalmente revestido de cobre, prática comum em embarcações mercantes oceânicas.

Não existem placas com o nome ou outros artefactos com inscrições que identifiquem conclusivamente o naufrágio, diz Delgado, "mas olhando para as várias evidências, chegamos a um ponto em que ultrapassamos a dúvida razoável".

Barco negreiro como monumento nacional?
O naufrágio do Clotilda carrega agora os sonhos de Africatown, que sofreu com o declínio da população, com a pobreza e com uma série de insultos ambientais de indústrias que cercam a comunidade. Os seus habitantes esperam que o naufrágio gere turismo e traga empresas e postos de trabalho para a comunidade. Algumas pessoas chegaram a sugerir que o navio fosse içado e colocado em exposição.

Recentemente, a comunidade recebeu quase 3.6 milhões de dólares do acordo legal com a BP, devido ao incidente com a plataforma Deepwater Horizon, para reconstruir um centro de visitantes que foi destruído em 2005 pelo furacão Katrina. Mas o que sobrou do naufrágio está em condições muito precárias, diz Delgado. Restaurá-lo custaria muitos milhões de dólares

Mas um monumento nacional do navio negreiro – semelhante ao túmulo aquático do U.S.S. Arizona, em Pearl Harbor – pode ser uma opção a considerar. A acontecer, os visitantes poderiam refletir sobre os horrores do comércio de escravos e lembrar-se da enorme contribuição de África para a construção da América.

"Ainda estamos a viver no rescaldo da escravatura", diz Paul Gardullo, diretor do Centro para o Estudo da Escravatura Global, no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, e membro do Projeto Slave Wrecks envolvido na investigação do Clotilda. “Continuamos a ser confrontados com a escravatura. É algo que está sempre a surgir porque não lidamos com esse passado. Se fizermos o nosso trabalho corretamente, temos uma oportunidade não apenas de reconciliar, mas de fazer algumas mudanças reais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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