Leonardo da Vinci Ainda Passeia Pelas Ruas

Dê uma espreitadela ao mundo dos encenadores do Renascimento que ressuscitam Leonardo e o seu trabalho 500 anos depois da morte do artista.sexta-feira, 21 de junho de 2019

Por Claudia Kalb
Fotografias Por Paolo Woods, Gabriele Galimberti

Em Florença, Itália, o velho e o novo convivem lado a lado. Nas ruas seculares de calçada, os carros elétricos parecem deslizar. Na Ponte Vecchio, enquanto exibem as suas mercadorias, os vendedores escrevem dedicatórias. Os turistas, com camisas, calções e relógios Apple, deliciam-se com gelato debaixo da famosa cúpula de Brunelleschi.

Ainda assim, existe algo de surpreendente quando vemos o Renascimento a ganhar vida à frente dos nossos olhos – como acontece quando Leonardo da Vinci verifica o seu telemóvel, ou Mona Lisa se inclina para fora da moldura, para beber um pouco de sumo de maçã.

Esta rotina é normal para os imitadores artísticos Valter Conti e para a sua filha, Elena Pinori, que encarnam as personagens do majestoso pintor italiano e do seu assunto mais famoso. Conti precisa de duas horas para se vestir, pelo menos três dias por semana, para se parecer com a estátua do artista que fica no exterior da Galeria Uffizi. Isto requer fixação de cabelos à altura dos ombros e de uma barba ondulada, feita de algodão e tinta acrílica; envergando um manto branco e uma boina; com maquilhagem branca espessa no rosto, incluindo nas pálpebras e nos lábios.

Elena Pinori precisa mais ou menos do mesmo tempo para se transformar em "La Gioconda", o nome dado pelos italianos à esposa de Francesco del Giocondo, que se acredita ser a modelo do retrato. Replicar o talento de Leonardo requer habilidade e paciência excepcionais, diz Pinori. Isso acontece porque a famosa técnica sfumato do artista – um borrão de contornos – confere à pintura uma qualidade etérea extremamente difícil de imitar num rosto sensível.

Esquerda: Conti a aplicar maquilhagem facial branca, debaixo de uma luz fluorescente, numa sala de arrumações, nas ruas de Florença, onde passa duas horas a preparar-se para o dia. Direita: Conti gosta de trabalhar com a sua filha, Elena Pinori, que dá vida ao icónico quadro de Leonardo. Pinori dominou a sua maquilhagem para se assemelhar ao rosto de Mona Lisa, ou "La Gioconda", como é conhecida em Itália.
Fotografia de PAOLO WOODS

Conti, de 58 anos, costuma trabalhar sozinho em Florença, mas é muito mais divertido quando Pinori, de 47 anos – que Conti adotou quando se casou com a sua mãe – se junta a ele. As suas imitações enquanto dupla são convincentes o suficiente para assustarem os seus admiradores. Uma vez, quando Conti mudou de posição, alarmou tanto uma turista francesa que ela recuou, tropeçou e caiu. E correr para verificar se ela estava bem também não ajudou; a mulher ficou com tanto medo que mal conseguia falar. Leonardo ressuscitado em 2019? Ele era assim tão talentoso?

Embora o seu trabalho dependa da inércia, a representação renascentista requer muita resistência física. Durante as 6 a 8 horas de duração do espetáculo, Conti e Pinori devem manter as suas poses, sem esquecer que, nos dias quentes de verão, os trajes e a maquilhagem conseguem ser sufocantes. A pintura carregada nos lábios de Conti dificultam a fala; e quando Conti fala, a maquilhagem desaparece e tem de ser reaplicada. Pinori, por seu lado, precisa de parecer incessantemente relaxada, sustentando o sorriso sedutor e os olhos errantes de Mona Lisa, sem revelar quaisquer outras expressões no rosto. "Isto é muito difícil", diz Pinori.

Contudo, o retorno é extremamente gratificante. Turistas, de Nova Iorque a Tóquio, param para observar e tirar fotografias, dando a Conti a oportunidade de distribuir centenas de panfletos que ele guarda num livro que faz parte do disfarce. Os panfletos contêm palavras que Conti atribui a Leonardo ("A pintura é um poema que pode ser visto e não ouvido, e a poesia é uma pintura que é sentida e não pode ser vista"), bem como as próprias teorias enigmáticas de Conti sobre o dinheiro, às quais ele chama de "Código Da Vinci da Economia".

Por outro lado, a interpretação de Pinori de Mona Lisa permite animar uma obra de arte que de outra forma estaria inacessível. A verdadeira Mona Lisa, trabalhada no início dos anos 1500, é pequena (apenas 77 por 53 centímetros) e está protegida atrás de vidro grosso à prova de bala, no Museu do Louvre, em Paris. Os turistas costumam acotovelar-se para se aproximarem da obra, mas são mantidos a vários metros de distância por um parapeito – exceto os fotógrafos Paolo Woods e Gabriele Galimberti, da National Geographic, que receberam permissão para passar várias horas perto da imagem a tirar fotografias, ainda que sob guarda. Caso eles se aproximassem demasiado do vidro de segurança, soaria um alarme e os seguranças estavam por perto, prontos para agir.

Muitos dos turistas que fazem a viagem até ao Louvre mal conseguem vislumbrar o venerado sorriso da Gioconda; antes de se virarem de costas para tirarem uma selfie com uma celebridade artística, e antes de serem empurrados por alguém. Uma senhora brasileira, que conseguiu tirar uma boa fotografia, comparava Mona Lisa ao Sumo Pontífice: "Ela é como o Papa".

A representação de Pinori oferece às pessoas uma versão ao vivo desta figura icónica. Ela presta especial atenção aos detalhes que atraem os espetadores: os olhos esfumaçados de Mona Lisa e a fina faixa do véu no topo da sua testa. Pinori e Conti também são uma diversão bem-vinda à lista de destinos turísticos inanimados de Florença: museus e igrejas. Os melhores momentos são quando Pinori vê as pessoas reagirem positivamente ao que ela e Conti estão a fazer. Os seus sorrisos, diz ela, "ficam radiosamente iluminados".

Tal como em qualquer emprego, a reconstituição do Renascimento também tem as suas coisas más. De vez em quando, Pinori tem de suportar piadas indecentes. E como Conti e Pinori dependem de doações públicas, não usufruem de um salário do qual possam depender. Quando a chuva encharca as ruas da cidade, como aconteceu durante grande parte do mês de maio, os turistas desaparecem. Num dia normal, eles conseguem ganhar entre 50 a 150 euros; num dia mau, esse número cai para os 30 euros, ou menos.

No entanto, este promete ser um ano excepcional para os amantes de Leonardo. O número de turistas já é maior do que nunca; as estatísticas mais recentes revelam que Florença foi visitada, em 2017, por 10 milhões de turistas – mais de 25 vezes a população da cidade. E com 2019 a marcar o 500º aniversário da morte (em 1519)  do artista, o lugar onde Leonardo começou a sua jornada artística é um destino cada vez mais tentador.

Isto é um bom presságio para Conti e Pinori, que se apresentam no exterior da Galeria Uffizi, em frente a uma imagem gigante que anuncia a nova Sala Leonardo da galeria, no segundo andar. A cena acaba por se transformar em arte surreal: imitadores a representar Leonardo e Mona Lisa; uma fotografia iminente em pano de fundo com a pintura de Leonardo, Adoração dos Magos; e turistas que podem – ou não – entrar para ver o trabalho original de Leonardo.

Recentemente, numa tarde de sábado, a dupla fez uma pausa e sentou-se nuns degraus de pedra, em frente a uma das formidáveis portadas de madeira de Florença, iluminada pelo sol da tarde, para relaxar e brincar sobre o seu ofício. Nenhum dos dois se identifica como uma pessoa do Renascimento, nem reivindica o século XXI como seu. Conti vê-se como homem do futuro; Pinori, uma hippie autoproclamada, diz que gostava de viver na época “flower power”.

Ainda assim, a transformação em Leonardo e Mona Lisa oferece um elo único de gratificação emocional. Conti estudou música, mas achava que as atuações ao vivo eram “demasiado selvagens”. A imitação garante-lhe um anonimato silencioso, algo que ele diz preferir. Pinori, que vive em Pisa e também trabalhou como modelo e atriz, é apaixonada por arte e acha gratificante animar figuras históricas e imaginar as suas histórias. "É lindo", diz ela. "Eu posso ser muitas pessoas e ter muitas vidas."

Tanto Pinori como Conti pretendem continuar a reinventar-se. As outras personagens de Pinori incluem Vénus, da pintura Primavera de Botticelli, e Istar, a deusa mesopotâmica do amor e da guerra. Conti trabalha agora na roupa de Galileu Galilei, que ele planeia apresentar no próximo ano, quando se espera que um eclipse solar total escureça partes do hemisfério sul – um momento de destaque para os astrónomos.

Nos seus esboços extraordinários, Leonardo saltava frequentemente para o futuro; Galileu, nascido em 1564, várias décadas depois da morte de Leonardo, virou o seu telescópio para o céu. Conti e Pinori levam-nos de regresso ao passado, animando vidas anteriores que iluminam não só as suas próprias almas, mas também os espíritos das pessoas que os rodeiam.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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