História

ADN Antigo Pode Revelar a Origem dos Filisteus

Os relatos históricos e a arqueologia concordam que os maiores vilões da Bíblia hebraica eram 'diferentes' – mas quão diferentes?Friday, July 19, 2019

Por Kristin Romey
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O primeiro estudo feito com ADN recuperado de um antigo local filisteu oferece uma visão genética única sobre as origens de alguns dos ‘desordeiros’ mais infames do Antigo Testamento.

Os autores da Bíblia hebraica deixaram bem claro que os filisteus não eram como os hebreus: este grupo "incircuncidado" é descrito em várias passagens como sendo originário da "Terra de Caftor" (atual Creta), antes de assumirem o controlo da região costeira onde atualmente fica o sul de Israel e a Faixa de Gaza. Os filisteus lutaram contra os seus vizinhos israelitas, chegando a ter a Arca da Aliança durante algum tempo. Os seus representantes na Bíblia incluem o gigante Golias, que foi abatido pelo rei David, e Dalila, que roubou o poder a Sansão quando cortou o seu cabelo.

Os arqueólogos modernos concordam que os filisteus eram diferentes dos seus vizinhos: a sua chegada à costa oriental do Mediterrâneo, no início do século XII a.C., é marcada pelas peças de cerâmica semelhantes às do antigo mundo grego, pelo uso de escrituras egeias – em vez de semitas – e pelo consumo de carne de porco.

O ADN dos séculos X a IX a.C., recuperado de túmulos no cemitério de Ascalão, foi comparado com o de antigos enterros de crianças filisteias e com o de indivíduos que viviam na região antes da chegada dos filisteus, no início do século XII a.C.

Muitos dos investigadores também associam a presença dos filisteus às façanhas dos Povos do Mar, uma misteriosa confederação de tribos que, de acordo com fontes egípcias e outras fontes históricas, parece ter destruído o leste do Mediterrâneo no final da Idade do Bronze, em finais do século XIII e no início do século XII a.C.

Agora, um estudo publicado na revista Science Advances, originado pela descoberta inédita, feita em 2016, de um cemitério na antiga cidade filisteia de Ascalão, na costa sul de Israel, fornece um olhar intrigante sobre as origens genéticas e o legado dos filisteus. A investigação parece suportar a sua origem estrangeira, mas revela que os forasteiros se misturaram rapidamente com as populações locais.

O estudo analisou o ADN de 10 conjuntos de restos mortais recuperados em Ascalão, de três períodos de tempo diferentes: um cemitério da Idade do Bronze (cerca de 1650 – 1200 a.C.), que antecede a presença filisteia na área; enterros infantis de finais do século XI a.C., após a chegada dos filisteus no início da Idade do Ferro; e indivíduos enterrados num cemitério filisteu, em finais da Idade do Ferro (séculos X e IX a.C.).

As quatro amostras de ADN de inícios da Idade do Ferro, todas de crianças enterradas debaixo do chão de casas filisteias, incluem proporcionalmente mais "ancestralidade europeia" nas suas assinaturas genéticas (aproximadamente 14%) do que nas amostras pré-filistinas da Idade do Bronze (2% a 9%), de acordo com os investigadores. Embora as origens desta “ascendência europeia” não sejam conclusivas, os modelos mais plausíveis apontam para a Grécia, Creta, Sardenha e para a Península Ibérica.

Daniel Master, diretor da Expedição Leon Levy a Ascalão e coautor do estudo, diz que os resultados são "provas diretas" que suportam a teoria de que os filisteus começaram como migrantes, vindos do ocidente, que se estabeleceram em Ascalão no século XII a.C.

"Esta teoria encaixa nos textos egípcios e em outros textos que temos, e também se encaixa nos materiais arqueológicos."

O que os investigadores acham ainda mais estranho é que essa "referência europeia" em específico desaparece rapidamente e é estatisticamente insignificante no ADN das amostras do estudo recuperadas no cemitério de Ascalão. Os enterros filisteus posteriores têm assinaturas genéticas muito semelhantes às das populações que viviam na região antes de os filisteus chegarem.

"Conseguimos captar este movimento de pessoas vindas do sul da Europa para Ascalão", diz Michal Feldman, arqueogeneticista no Instituto Max Planck e coautor do estudo. “Depois, num espaço de 200 anos, o registo desaparece, provavelmente porque os filisteus se casaram e esse tipo de assinatura genética foi diluída dentro da população local.”

"Durante mais de um século, debatemos a questão da origem dos filisteus", escreve o arqueólogo Eric Cline por email, sobre a sua escavação no sítio cananeu de Tel Kabri (Cline não esteve envolvido na investigação atual). “Agora, temos a resposta: o sul da Europa e provavelmente mais especificamente a Grécia continental, Creta ou a Sardenha. Isto encaixa naquela que anteriormente parecia ser a resposta mais plausível, especialmente a julgar pelos restos arqueológicos, fazendo desta uma conclusão lógica."

Aren Maeir, o arqueólogo que dirige escavações na cidade filisteia de Tel Safi (também não esteve envolvido neste estudo), adverte contra o simplificar a história dos filisteus, chamando aos vilões da Bíblia de “entrelaçados” ou grupo “transcultural” composto por povos de várias origens.

“Embora eu concorde plenamente que existia um componente estrangeiro significativo entre os filisteus no início da Idade do Ferro, esses componentes estrangeiros não eram de uma só origem e, não menos importante, misturaram-se com populações locais levantinas a partir do início da Idade do Ferro em diante”, escreve Maeir por email.

Para Daniel Master, o mais interessante é o facto de – apesar da rápida assimilação genética sofrida pelos filisteus – terem permanecido um grupo cultural distinto que era claramente diferente dos seus vizinhos, durante mais de cinco séculos, até serem conquistados pelos babilónios em 604 a.C.

"É interessante observar a forma como a mistura genética filisteia mudou tão rapidamente", observou o arqueólogo. "Porque se estivéssemos apenas a confiar nos textos hebraicos, pensaríamos que ninguém se iria querer misturar com os filisteus, certo?"
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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