Migrantes Africanos na Europa Trocam Uma Dificuldade por Outra

Espanha alberga agora quase um milhão de africanos que enviam histórias de esperança às suas famílias. Mas a realidade é muito diferente.quinta-feira, 4 de julho de 2019

Por Cynthia Gorney
Fotografias Por Aitor Lara
Em 2016, depois de abrir caminho desde o Senegal até à região agrícola no sul de Espanha, Mbaye Tune estabeleceu-se em trabalhos sazonais, de forma regular, em quintas de produção. Agora, com 25 anos, conseguiu residência legal e aluga um apartamento que partilha com outros senegaleses.
Em 2016, depois de abrir caminho desde o Senegal até à região agrícola no sul de Espanha, Mbaye Tune estabeleceu-se em trabalhos sazonais, de forma regular, em quintas de produção. Agora, com 25 anos, conseguiu residência legal e aluga um apartamento que partilha com outros senegaleses.
fotografia de Aitor Lara

Quando Youssouf caminha pela cidade de Lepe, no sul de Espanha, onde agora vive num matadouro abandonado, cumprimenta os outros africanos que reconhece: os senegaleses, os nigerianos, os homens do Burkina Faso e da Costa do Marfim.

Youssouf é fluente em francês e aprendeu a falar bem espanhol, mas com os malianos como ele os intercâmbios são feitos em língua bambara, algo que requer cortesias mais elaboradas – A sua família afastada está bem? Sim, eles estão bem. A sua família mais próxima está bem? Eles também estão bem. E a sua esposa? Ela está bem.

Youssouf gosta de usar um chapéu de abas curtas e óculos de sol. Sempre que ele anda na rua, as suas roupas estão limpas; no matadouro, onde os trabalhadores humanitários improvisaram um abrigo de migrantes entre os estábulos de betão, tem acesso a água quente. Youssouf ajuda a manter a ordem no matadouro porque sabe o que é ter ambição e sabe o que é lutar contra a vergonha diariamente – sabe porque é que um bom filho, um bom marido ou amigo mentem ao telefone às pessoas que amam e que estão num continente distante – Youssouf faz questão de se sentar com os recém-chegados nas salas comuns do abrigo, apenas para lhes fazer companhia.

O homem que apareceu hoje era um maliano chamado Lassara. Ele tinha um rosto melancólico e sentou-se na mesa de uma cozinha improvisada, olhando para o telemóvel e inclinando a cabeça para descansar. "As próximas colheitas ainda não começaram", disse Youssouf. "Por isso ele não tem trabalho."

Nos últimos anos, a irrigação e as estufas têm transformado o sul de Espanha numa fonte abundante de bagas, citrinos e outros produtos agrícolas. Trabalhadores de muitos países trabalham agora nos campos; os jovens da Gâmbia (tangerinas) e do Senegal (framboesas) estão entre os milhares de africanos que encaram Espanha como uma primeira paragem promissora na sua migração para o norte da Europa.
Nos últimos anos, a irrigação e as estufas têm transformado o sul de Espanha numa fonte abundante de bagas, citrinos e outros produtos agrícolas. Trabalhadores de muitos países trabalham agora nos campos; os jovens da Gâmbia (tangerinas) e do Senegal (framboesas) estão entre os milhares de africanos que encaram Espanha como uma primeira paragem promissora na sua migração para o norte da Europa.

Lassara está em Espanha há oito meses. Youssouf, que está em Espanha há 14 anos, chama encruzilhada à cidade de Lepe. Ele diz que este é um lugar de paragem, mas também é uma confusão de caminhos cruzados. O impulso e a força da migração global moderna fazem estas encruzilhadas em lugares que ninguém conseguiria imaginar há algumas décadas. Nesta pequena e simples cidade agrícola, Youssouf interroga-se sobre a quantidade de vezes que ouviu rapazes como Lassara a contar histórias idênticas às dele: a primeira resolução foi sair de casa, já que os seus vizinhos continuavam a contar aventuras de ​​familiares que desfrutavam de vidas boas e que enviavam dinheiro de longe. A convicção de que, apesar de infringir as leis de imigração (pagar mil euros ou mais para ser contrabandeado para o norte, país por país, e conseguir, pela graça de Deus ou Alá, sobreviver à travessia ilegal de Marrocos para Espanha) um migrante que trabalhe no duro nos campos espanhóis conseguirá, de alguma forma, obter uma permissão de trabalho e um emprego fixo, e que poderá visitar os seus familiares, devia ter sido o ponto de partida.

Lassara levantou a cabeça e disse algo em bambara, e Youssouf traduziu para espanhol: “Ninguém diz a verdade sobre o que se passa.”

Youssouf observou-o a esconder o rosto e concordou. No ano passado, quase 60.000 pessoas arriscaram a travessia do Mediterrâneo, seguindo rotas para o norte mapeadas por rumores e contrabandistas. Mas nas encruzilhadas de todo o mundo, os migrantes conversam entre si desta forma, trocando esperanças, desilusões, tenacidade e dor. Youssouf tem uma filha adolescente que não vê desde criança, e um filho que só conhece de fotografias; a sua esposa estava grávida quando Youssouf abandonou a capital do Mali, Bamako. Ninguém da sua família sabe que ele dorme num antigo matadouro. Quando ele passou uma década a dormir em barracas construídas pelos migrantes com lonas de plástico e pedaços de madeira arrastados dos campos de frutas, a sua família também não sabia. Foi por essa razão que Youssouf pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome.

Com formação em engenharia, este nigeriano de 38 anos imaginou que Espanha seria a porta de entrada para uma vida melhor na Europa. Mas isso foi há 14 anos. Agora, ainda a migrar entre trabalhos de plantação e colheita em Espanha, vive numa barraca que os trabalhadores dos campos fazem a partir de pedaços de madeira e plástico.
Com formação em engenharia, este nigeriano de 38 anos imaginou que Espanha seria a porta de entrada para uma vida melhor na Europa. Mas isso foi há 14 anos. Agora, ainda a migrar entre trabalhos de plantação e colheita em Espanha, vive numa barraca que os trabalhadores dos campos fazem a partir de pedaços de madeira e plástico.
Embaladas e atadas como se fossem caixas de carga gigantes, estas barracas abrigam trabalhadores migrantes que as constroem com excedentes de materiais agrícolas. Nos arredores de Lepe e de outras cidades espanholas que dependem da produção agrícola, os aglomerados de barracas podem abrigar centenas de migrantes; as barracas são por vezes abandonadas e reocupadas à medida que os migrantes se deslocam para trabalhar.
Embaladas e atadas como se fossem caixas de carga gigantes, estas barracas abrigam trabalhadores migrantes que as constroem com excedentes de materiais agrícolas. Nos arredores de Lepe e de outras cidades espanholas que dependem da produção agrícola, os aglomerados de barracas podem abrigar centenas de migrantes; as barracas são por vezes abandonadas e reocupadas à medida que os migrantes se deslocam para trabalhar.
Em Huelva, no sul do país, ao passar por um campo de barracas, um espanhol assiste a um jovem africano a praticar as suas habilidades com a bola. O futebol é uma forma de passar o tempo.
Em Huelva, no sul do país, ao passar por um campo de barracas, um espanhol assiste a um jovem africano a praticar as suas habilidades com a bola. O futebol é uma forma de passar o tempo.

“Existem segredos que cada um de nós tem de guardar para si”, disse.

Youssouf acenou com a mão em redor: o sofá desgastado; as ervas daninhas que irrompem do betão no exterior; o cemitério ao fundo da rua, onde ao lado das sepulturas existem agora tantas barracas que, quando as pessoas em Lepe dizem el cementerio, geralmente estão a referir-se aos bairros de lata dos migrantes. "Tudo isto", disse Youssouf. “Nenhum de nós conta nada disto às famílias. Tudo isto é um segredo.”

Eu estou bem. As coisas por aqui estão bem. Certifica-te de que a mãe não se preocupa. Ao longo dos séculos, quanta migração humana foi impulsionada, em parte, pelo encobrimento da verdade? E agora, no século XXI, é mais eficiente enviar um relatório tranquilizador por telemóvel. Há alguns anos, economistas do Banco Mundial descobriram que as famílias mais pobres do mundo tinham mais probabilidades de ter acesso a um telemóvel do que a uma casa de banho. No interior das barracas de Lepe, o mobiliário é feito de lixo reaproveitado, mas quase todos os migrantes têm um telemóvel. Alguns telemóveis têm câmaras, e existem muitos cenários atraentes para enviar uma selfie para casa: o carro descapotável de um estranho, a televisão de um bar, a cozinha de um conhecido que conseguiu alugar um quarto na cidade.

Uma década depois de terem chegado a Espanha, as amigas senegalesas Fatou Ndoye, à esquerda, e Hawka Diallo preparam-se para celebrar um feriado senegalês no apartamento de Ndoye, na cidade de Moguer. Diallo trabalha na apanha de bagas; Ndoye e o marido trabalham num armazém de fruta. A mais nova dos dois filhos dos Ndoye, uma menina com oito anos, nasceu em Espanha e tem boas notas na escola pública.
Uma década depois de terem chegado a Espanha, as amigas senegalesas Fatou Ndoye, à esquerda, e Hawka Diallo preparam-se para celebrar um feriado senegalês no apartamento de Ndoye, na cidade de Moguer. Diallo trabalha na apanha de bagas; Ndoye e o marido trabalham num armazém de fruta. A mais nova dos dois filhos dos Ndoye, uma menina com oito anos, nasceu em Espanha e tem boas notas na escola pública.
Esquerda: A travessia do Estreito de Gibraltar quase ceifou a vida a esta migrante maliana de 37 anos. Depois de perder a consciência, devido aos vapores de gás e à exaustão do mar violento, foi resgatada pela Cruz Vermelha e assistida num hospital de Sevilha. Dois anos depois – ainda sem emprego ou residência – vive num refúgio, na província de Huelva, no sul de Espanha.

Direita: Há cinco anos, este agricultor de cacau abandonou a sua casa, na Costa do Marfim, convencido de que só conseguiria sustentar a sua família se trabalhasse na Europa. Agora, com 30 anos, ainda é um migrante “irregular”, designação dada pela ONU aos migrantes sem emprego e documentação; mesmo assim, diz ele, “o trabalho nos campos permite-me continuar a enviar dinheiro à minha família. É uma vida perigosa, as barracas – existem incêndios todos os verões. Uma forma de nos ajudarem, se os governos da Europa quisessem, era darem-nos documentação para trabalharmos".
Esquerda: A travessia do Estreito de Gibraltar quase ceifou a vida a esta migrante maliana de 37 anos. Depois de perder a consciência, devido aos vapores de gás e à exaustão do mar violento, foi resgatada pela Cruz Vermelha e assistida num hospital de Sevilha. Dois anos depois – ainda sem emprego ou residência – vive num refúgio, na província de Huelva, no sul de Espanha. Direita: Há cinco anos, este agricultor de cacau abandonou a sua casa, na Costa do Marfim, convencido de que só conseguiria sustentar a sua família se trabalhasse na Europa. Agora, com 30 anos, ainda é um migrante “irregular”, designação dada pela ONU aos migrantes sem emprego e documentação; mesmo assim, diz ele, “o trabalho nos campos permite-me continuar a enviar dinheiro à minha família. É uma vida perigosa, as barracas – existem incêndios todos os verões. Uma forma de nos ajudarem, se os governos da Europa quisessem, era darem-nos documentação para trabalharmos".

Historicamente, Lepe não era uma encruzilhada de migrantes. Esta cidade, na costa sul de Espanha, foi transformada nas últimas décadas através da irrigação intensiva e agricultura de estufa, numa abundante região agrícola que produz durante todas as estações do ano. Os citrinos e bagas de Lepe são enviados para toda a Europa, mas quando as quintas se estavam a expandir, os produtores não conseguiam encontrar espanhóis dispostos a aceitar as horas e os salários de trabalho no campo, recorrendo assim a mão-de-obra estrangeira – no principio eram marroquinos e europeus de leste, alguns contratados por empreiteiros que ofereciam documentos de trabalho, mas alguns chegavam de forma ilegal e tentavam arranjar emprego por conta própria. Homens e mulheres chegavam às centenas; os produtores de bagas preferiam as mãos delicadas das mulheres. Alguns retalhistas colocavam anúncios de trabalho em polaco, romeno e árabe. Os talhantes começaram a oferecer carne halal.

E a palavra continuou a disseminar-se até lugares mais pobres e mais duros: uma oportunidade. De quê? "De procurar... por uma vida", disse Youssouf pausadamente. "Eu ouvi falar de todas essas pessoas que foram para Espanha. Ouvi dizer era fácil chegar lá. E que tinham uma vida melhor do que a nossa.”

Na verdade, ele acreditava que ia encontrar a sua vida em França: um africano de língua francesa que parte para a Europa e que vai ficar algum tempo no sul de Espanha, que vai recuperar e organizar os seus recursos para seguir para o norte. Mas as coisas vão acontecendo, um trabalho leva a outro, alguns empregadores mal intencionados prometem documentação, mas não a entregam, os apartamentos para arrendar são caros e escassos, sobretudo para estrangeiros de pele escura que precisam de muitos colegas de quarto para dividir a renda – e ainda assim enviar dinheiro para casa.

Gody Fofana (à direita), originalmente do Mali, e o seu amigo senegalês, Atab Bodian, estão há mais de uma década no sul de Espanha – e prosperam. Ambos garantiram residência legal depois de começarem a trabalhar na apanha de fruta; Agora, são coproprietários de vários negócios, incluindo um que exporta carros, como este Mercedes, da Europa para África.
Gody Fofana (à direita), originalmente do Mali, e o seu amigo senegalês, Atab Bodian, estão há mais de uma década no sul de Espanha – e prosperam. Ambos garantiram residência legal depois de começarem a trabalhar na apanha de fruta; Agora, são coproprietários de vários negócios, incluindo um que exporta carros, como este Mercedes, da Europa para África.
Issa Diakite, 50 anos, construiu a sua barra de pesos e a sua casa – uma de dezenas de barracas agrupadas perto de uma região agrícola na Andaluzia. Originalmente do Mali, estabeleceu-se como trabalhador regular de campo e ajuda os outros a construírem barracas mais sólidas. Diakite transformou uma dessas barracas num centro de convívio, com sofás e mesas, onde os amigos podem ver futebol numa televisão a energia solar. Atualmente, a sua equipa preferida é o Real Madrid.
Issa Diakite, 50 anos, construiu a sua barra de pesos e a sua casa – uma de dezenas de barracas agrupadas perto de uma região agrícola na Andaluzia. Originalmente do Mali, estabeleceu-se como trabalhador regular de campo e ajuda os outros a construírem barracas mais sólidas. Diakite transformou uma dessas barracas num centro de convívio, com sofás e mesas, onde os amigos podem ver futebol numa televisão a energia solar. Atualmente, a sua equipa preferida é o Real Madrid.

No ano passado, enquanto colocava o chapéu e os óculos de sol, Youssouf ainda era uma pessoa sem documentação para trabalhar e residir em Espanha, algo que lhe permitiria atravessar mais fronteiras de forma legal. "Tirando maletas", disse: andar com a casa às costas. Foi essa a vida de migrante que encontrou.

Mas repare, disse Youssouf, enquanto caminhava tranquilamente em direção ao centro da cidade, “tenho um teto onde dormir”. O trabalho nos pomares e nos campos de cultivo é difícil e esporádico, mas todos os meses Youssouf envia para casa pelo menos cem euros – através de um dos serviços de transferência de dinheiro que agora proliferam em torno de Lepe. O seu filho e a sua filha têm boas notas na escola. E têm dinheiro suficiente para comer. Youssouf comprou um tablet da Huawei, e sempre que encontra Wi-Fi gratuito, descarrega músicas do Mali e conversa com a sua família através de videochamada. Em Bamako, ele podia estar com a sua esposa e filhos, podia viver com eles, mas o seu salário e o pequeno terreno herdado não eram suficientes para sustentar a sua família. E isso era algo que Youssouf não conseguia suportar. “É melhor eu estar aqui”, disse.

Ele podia desistir da Europa, sim. Podia poupar dinheiro para comprar um bilhete só de ida para casa. Mas não o vai fazer, pelo menos para já. O investimento feito é muito grande – os pagamentos aos contrabandistas, as expetativas acumuladas pela sua família ao longo de tantos anos no estrangeiro. Youssouf tem vergonha de regressar a casa. “Não de mãos vazias”, disse.

Numa das entradas da histórica Plaza Mayor, em Madrid, migrantes senegaleses fazem uma pausa no trabalho para uma celebração de outono com tambores, cantos e agradecimentos em oração. Na urbe espanhola, muitos africanos não conseguem obter licenças de trabalho. Uma das alternativas mais conhecidas: vender mercadorias em cobertores que podem ser carregados facilmente para fugir da polícia. Estes vendedores são chamados de “manteros”.
Numa das entradas da histórica Plaza Mayor, em Madrid, migrantes senegaleses fazem uma pausa no trabalho para uma celebração de outono com tambores, cantos e agradecimentos em oração. Na urbe espanhola, muitos africanos não conseguem obter licenças de trabalho. Uma das alternativas mais conhecidas: vender mercadorias em cobertores que podem ser carregados facilmente para fugir da polícia. Estes vendedores são chamados de “manteros”.

Ao virar da esquina, a pouco mais de cem metros da praça de Lepe, onde migrantes de muitas nações se reúnem ao anoitecer, Youssouf levanta o braço em saudação. O jovem saudado por ele é um maliano, chamado Ibrahim, que responde em bambara de acordo com o protocolo: Sim, a sua família afastada estava bem, a sua família próxima estava bem, e ele estava bem. Só que não estava. Ele estava a regressar a Lepe depois de um trabalho de colheita noutra província, e tinha passado a noite ao relento numa caixa de papelão.

Youssouf e Ibrahim olharam um para o outro. "Não, eu não conto isto à minha família", disse Ibrahim. “Eu envio dinheiro ao meu irmão. Ele divide com todos. Não os vejo há quase 10 anos.”

Juntos, no meio da rua, ponderam sobre o que os faria regressar ao Mali com dignidade.

Poucos dias depois de pagarem aos contrabandistas para atravessarem o Estreito de Gibraltar, estes jovens africanos – da Guiné (à esquerda) e da Costa do Marfim (à direita) – tentam adaptar-se à sua nova realidade num centro “acogido”, no sul de Espanha. A palavra significa refúgio e bem-vindo. Dezenas de instalações deste género oferecem aos migrantes alojamento e orientação durante algumas semanas. Depois, se os recém-chegados não conseguirem documentação para residir e trabalhar, podem ser obrigados a abandonar o país.
Poucos dias depois de pagarem aos contrabandistas para atravessarem o Estreito de Gibraltar, estes jovens africanos – da Guiné (à esquerda) e da Costa do Marfim (à direita) – tentam adaptar-se à sua nova realidade num centro “acogido”, no sul de Espanha. A palavra significa refúgio e bem-vindo. Dezenas de instalações deste género oferecem aos migrantes alojamento e orientação durante algumas semanas. Depois, se os recém-chegados não conseguirem documentação para residir e trabalhar, podem ser obrigados a abandonar o país.
Na década de 1980, quando a irrigação e as estufas estavam a transformar a região da Andaluzia, no sul de Espanha, Francisco Braima Sanhá chegou da Guiné-Bissau como cozinheiro. Agora, com 59 anos, é um veterano entre os trabalhadores estrangeiros. É ele quem verifica a horta que plantou à volta da sua barraca. A economia agrícola moderna da Andaluzia explodiu, diz Braima – "graças aos migrantes".
Na década de 1980, quando a irrigação e as estufas estavam a transformar a região da Andaluzia, no sul de Espanha, Francisco Braima Sanhá chegou da Guiné-Bissau como cozinheiro. Agora, com 59 anos, é um veterano entre os trabalhadores estrangeiros. É ele quem verifica a horta que plantou à volta da sua barraca. A economia agrícola moderna da Andaluzia explodiu, diz Braima – "graças aos migrantes".

“Dinheiro suficiente para comprar uma boa casa”, disse Ibrahim.

“Dinheiro suficiente para abrir um negócio”, disse Youssouf. “Já aprendi muito na agricultura.”

Ibrahim disse que precisava de uma cama para passar a noite. Youssouf disse-lhe para aparecer no abrigo dos migrantes, e disse-lhe que tinham Wi-Fi. Nessa noite, Youssouf usou o tablet para enviar a sua coleção mais recente de fotografias à família. Ele encontrou uma aplicação onde personaliza as imagens. É só clicar numa seta, a música de piano começa a tocar e as imagens aparecem em rotação: Youssouf na praia, Youssouf no parque, Youssouf ao lado de um carro. Nas últimas fotografias, Youssouf está numa cadeira de escritório, com uma camisa de botões e óculos de sol no alto da cabeça. Está relaxado de pernas esticadas. Está a sorrir para a câmara. Parece que está ótimo.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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