História

A Poderosa e Esquecida Influenciadora Política da Índia – Qual Era o Seu Segredo?

Begum Samru comandou exércitos, teve vários amantes e autoproclamou-se Joanna, como Joana d'Arc.quarta-feira, 17 de julho de 2019

Por Priyanka Borpujari
No século XVIII, Begum Samru governou o reino mogol de Sardhana, não muito longe de Deli. Esta influenciadora política sagaz acumulou uma enorme fortuna antes de morrer, em 1836.

Um edifício de pedra branca, no distrito central do mercado de Deli, numa rua cheia de lojas de eletrónica que vendem um pouco de tudo, não se distingue muito das outras estruturas negligenciadas à sua volta – mas tem uma placa que diz: Palácio Bhagirath. Este edifício já foi a residência imponente de uma das mulheres mais poderosas da Índia: uma cortesã transformada em mercenária, que mais tarde foi diplomata e se tornou rainha.

Begum Samru era a comandante suprema de 3.000 soldados, incluindo pelo menos 100 mercenários europeus, no norte da Índia do século XVIII. Samru mantinha uma pose cordial, usava um turbante, fumava narguilé, converteu-se do islamismo para o catolicismo e autoproclamou-se Joanna, como Joana d'Arc. Mas atualmente está quase esquecida, e o Palácio Bhagirath é apenas um de dois marcos físicos da sua existência histórica no país.

“As mulheres não têm o direito de exercer o poder diretamente", diz Chakravarti, notável historiadora e feminista. Chakravarti refere-se às mulheres que ocupam 78 dos 543 lugares do parlamento na Índia. Hoje, as mulheres em posições de poder trabalham na sombra dos homens que dirigem os partidos políticos. Mas, diz Chakravarti, “Begum Samru foi capaz de usar o momento de transição política para se infiltrar nos corredores do poder e negociar um espaço para si própria”.

Esta pintura de Begum Samru e dos seus seguidores foi feita por volta de 1830. A comandante suprema de 3.000 soldados, incluindo muitos mercenários europeus, mantinha uma pose cordial, usava um turbante, fumava narguilé e converteu-se do islamismo para o catolicismo.

A transição política foi um período de caos e revolta, nos anos 1700, quando o Império Mogol, que na altura governava o vasto subcontinente indiano, enfrentou as insurreições de chefes locais e a invasão e colonização britânica.

Begum Samru nasceu em 1750 com o nome de Farzana. Alguns historiadores afirmam que ela era filha de um nobre muçulmano; outros afirmam que era uma órfã criada numa kotha – uma casa tradicional indiana de prazer e devassidão onde as mulheres dançavam para os homens mais abastados.

Para suprimir a suposta insurreição local, os reis mogol contrataram mercenários europeus – incluindo Walter Reinhardt que, depois de ter assassinado 150 ingleses, conquistou o apelido de Carrasco de Patna.

Reinhardt, com 45 anos e casado, ficou louco por Farzana, de 14 anos, que conhecera numa kotha. A dupla uniu-se e formaram um casal poderoso: mercenários a soldo.

“Samru rejeitou a perceção tradicional da mulher abnegada; em vez disso, fez o que era preciso para sobreviver enquanto governante.”

por ARCHANA GARODIA-GUPTA, ESCRITORA

Farzana encantou os governantes mogol nas suas cortes. Sagraram-na de Begum, um título de reverência. Samru, sobrenome que adquiriu na mesma altura, é uma versão modificada de Le Sombre – o apelido dado a Reinhardt pelo seu comportamento sombrio. Se Farzana fosse casada com Reinhardt, observa o historiador Aditi Dasgupta, Begum Samru não teria conseguido aceder internamente ao funcionamento político e aos governantes. O casamento teria confinado a cortesã à segregação de género, ou purdah.

“Samru rejeitou a perceção tradicional da mulher abnegada; em vez disso, fez o que era preciso para sobreviver enquanto governante”, diz Archana Garodia-Gupta, autora do livro As Mulheres que Governaram a Índia: Líderes, Guerreiras, Ícones.

Após a morte de Reinhardt, Begum Samru – com o seu metro e quarenta e dois de altura – comandou um exército e governou o reino de Sardhana, um reduto mogol, 136 km a nordeste de Deli, durante cinco décadas. Os reis mogol, quando eram atacados pelos seus rivais, recorriam a Samru. Ela tinha sempre um exército pronto para atacar e conseguia forjar acordos com qualquer inimigo que agredisse os mogol. Um imperador mogol conferiu-lhe o título de Zeb-un-nissa (Adorno Entre as Mulheres).

Begum Samru era, nas palavras de Julia Keay, uma das suas biógrafas, a “única mulher emancipada que a maioria dos seus acólitos estrangeiros alguma vez conhecera. Quando ela falava de uma era que poucos se conseguiam lembrar, os homens ficavam hipnotizados. Era uma época de exércitos e atrocidades, coragem e traição.”

As suas aventuras ganharam vida para além da corte. Samru tinha vários amantes europeus, chegando a fazer um pacto de suicídio com um amante francês. Quando os dois estavam a fugir de um ataque, Begum Samru esfaqueou-se. O francês, quando viu as roupas de Samru encharcadas de sangue, disparou contra si próprio. Ele morreu, mas ela sobreviveu. Um irlandês, que era um dos seus amantes rejeitados – um estivador transformado em mercenário - resgatou-a e, quando ele morreu, Begum Samru cuidou da sua mulher e dos seus filhos.

O livro de Garodia-Gupta narra a vida de 20 mulheres que foram negligenciadas nos textos históricos da Índia. O livro descreve a diplomacia de Begum Samru para com os mogol e os britânicos. Depois da morte de Reinhardt, Samru converteu-se ao catolicismo e construiu a Basílica de Nossa Senhora das Graças, em Sardhana – o arquiteto foi um oficial italiano do seu exército.

“Ela sabia que nos tempos vindouros os britânicos seriam os governantes. E podemos supor que a sua conversão religiosa tinha como objetivo agradar-lhes. Ou então, ela pode ter encontrado o caminho do catolicismo dentro de si”, diz Garodia-Gupta.

“Ela nunca comia na presença dos seus convidados, e não se sabe ao certo se alguma vez tocou no vinho... mas quando as mulheres dos convidados se retiravam, Samru gesticulava para um dos criados trazer o seu narguilé. Depois, acomodava-se entre os homens e fumavam charutos”, escreveu Keay.

Begum Samru morreu em janeiro de 1836. A Companhia das Índias Orientais, agente imperial da Grã-Bretanha na Índia, herdou a sua fortuna – aproximadamente 55 milhões de marcos em ouro, uma das maiores fortunas indianas para a época, hoje seria o equivalente a uns inimagináveis 35 mil milhões de euros. Samru foi sepultada na sua basílica, em Sardhana. Uma escultura de mármore, de Begum Samru, com quase 6 metros de altura – com o seu tronco envolto num xaile – eleva-se perto do altar.

Regressando à antiga Deli, ao Palácio Bhagirath, em ruínas e manchado de fuligem, com as suas altas colunas gregas, onde os homens dominam o comércio, uma idosa solitária parece manter o legado destemido de Begum Samru – embora esteja numa loja minúscula e não num trono...

“O que é que você quer?” diz-me ela. “Não tenho tempo para si.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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