Equipa de Investigação Procura Quem Traiu Anne Frank

75 anos após a sua detenção, investigadores ainda tentam perceber como é que os nazis descobriram a adolescente holandesa e a sua família.quarta-feira, 14 de agosto de 2019

No dia 4 de agosto de 1944, depois de mais de dois anos a viver escondida por cima do armazém do seu pai, Anne Frank e sete outras pessoas foram descobertas pelos alemães nazi e pelos oficiais holandeses. 75 anos depois, a investigação sobre quem – ou o que – pode ter denunciado a sua localização ainda continua.

Atualmente, historiadores, cientistas de dados e até equipas forenses usam novas tecnologias para identificar o informador – com alguns a sugerirem que Anne Frank pode ter sido descoberta por acidente.

O Diário de Anne Frank, escrito pela adolescente desde os 13 aos 15 anos de idade, é o texto mais lido a emergir do Holocausto. A história de cidadãos comuns a arriscarem as suas vidas para ajudar quem mais precisava tornou-se na narrativa mais proeminente do envolvimento da Holanda durante a ocupação da Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a história de Anne Frank também revela o relacionamento, muitas vezes cúmplice, dos holandeses com a Alemanha nazi. Durante a guerra, cerca de 80% da população judaica holandesa foi morta, a segunda maior percentagem a seguir à Polónia.

"A Holanda abraçou a ideia do heroísmo", diz Emile Schrijver, diretor do Museu Histórico Judaico e do Bairro Cultural Judaico em Amesterdão. "Foi preciso passar uma geração inteira até que o papel de perpetrador e de espetador passivo fosse aceite.”

Ao longo dos anos, surgiram mais de 30 suspeitos de terem traído Anne, a sua família e amigos.

Entre os acusados estava um funcionário do armazém – excessivamente curioso – que trabalhava debaixo do esconderijo do grupo. Embora duas investigações tenham sido abertas para apurar se ele era o culpado, uma em 1947 e outra em 1963, Wilhelm Geradus van Maaren manteve sempre a versão de que não era o delator e, sem provas, não foi acusado. Outra suspeita, Lena Hartog-van Bladeren, ajudava a gerir pragas no armazém. Há quem afirme que Lena suspeitava que existiam pessoas lá escondidas e que tinha iniciado rumores perigosos, mas as entrevistas posteriores não conseguiram confirmar esta versão.

A lista de suspeitos continua, sem evidências que provem ou refutem o envolvimento de alguém. Gertjan Broek, investigador da Casa de Anne Frank em Amesterdão, acredita que esta busca por um informador pode impedir que os investigadores descubram realmente o que aconteceu. “Ao perguntar ‘Quem traiu Anne Frank?’, já estamos a assumir uma visão afunilada. E deixamos de fora outras opções”, diz Broek.

É possível, diz Broek, que os Frank nem sequer tenham sido traídos – podem ter sido descobertos por acidente. Existe a possibilidade de terem sido descobertos durante uma fiscalização de cupões de rações fraudulentos, diz Broek, após um projeto de investigação de dois anos.

Quando considerados em conjunto, os poucos factos verificados desde aquele dia suportam esta afirmação. Primeiro, quando as autoridades alemãs e holandesas chegaram, não tinham transporte para as pessoas escondidas – tiveram de improvisar. Segundo, um dos três oficiais envolvidos na captura estava designado para a unidade que investigava crimes económicos. Por fim, dois homens que ajudavam os Frank, e os que se escondiam com cupões de rações fraudulentos foram presos, mas um dos casos foi indeferido por razões desconhecidas. É possível que um dos homens tenha feito um acordo; sobretudo se levarmos em consideração que um dos oficiais que estava a supervisionar o caso dos cupões também esteve envolvido na captura de Anne Frank.

Embora seja possível que as oito pessoas escondidas tenham sido descobertas acidentalmente, Broek ainda não o consegue provar. “Infelizmente, não existem provas conclusivas. Mas quanto mais pontos colocamos no mapa, mais nos aproximamos da realidade. Essa é a grande virtude.”

Outro grupo, composto por mais de 20 criminologistas, técnicos forenses e investigadores de dados, espera conseguir estreitar as hipóteses até um único indício. A equipa, liderada por Vincent Pankoke, um agente aposentado do FBI, está a encarar a investigação como se esta se tratasse de um caso moderno. Durante anos, perscrutaram arquivos e verificaram fontes por todo o mundo, recorrendo às tecnologias do século XXI para verificar todas as pistas. A equipa criou um mapeamento em 3D do esconderijo de Anne para perceber como é que os sons poderiam ter viajado até aos prédios adjacentes.

A equipa também está a usar sistemas de inteligência artificial para descobrir ligações ocultas entre indivíduos, lugares e eventos relacionados com o caso. A empresa de ciência de dados Xomnia criou um programa personalizado que, em parte, analisa textos de arquivo para criar mapas de ligações com subtilezas e camadas.

“O que podemos fazer, por exemplo, é tentar ver quantas vezes algumas palavras e nomes são usados em conjunto. Se determinados nomes forem usados de forma predominante, podemos criar uma espécie de rede e analisar esses dados”, diz Robbert van Hintum, cientista chefe de dados na Xomnia. Por exemplo, é possível cruzar referencias de moradas com relações familiares e relatórios da polícia para verificar quem é pode ter estado envolvido, ou ter tido conhecimento, dos vários eventos no bairro de Anne Frank.

“Quando juntamos todas estas dimensões, começa a surgir uma imagem que não era possível ver de outra forma”, explica Robbert van Hintum.

A equipa de investigação vai publicar as suas descobertas num livro que se espera ser publicado no próximo ano.

Dos oito judeus escondidos, só o pai de Anne, Otto Frank, sobreviveu à guerra. Pode já ser tarde demais para trazer um suposto traidor à justiça, mas o antissemitismo está a aumentar e esta investigação ainda é importante para muitas pessoas. “Ao compreendermos melhor o que aconteceu neste caso, podemos aprender sobre a forma como as pessoas se tratam umas às outras e prepararmo-nos para o futuro”, diz Schrijver.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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