História

Equipa de Investigação Procura Quem Traiu Anne Frank

75 anos após a sua detenção, investigadores ainda tentam perceber como é que os nazis descobriram a adolescente holandesa e a sua família.quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Por Sydney Combs
Anne Frank retratada em fotografias de passaporte, em 1939, antes de ela e da sua família serem forçadas a viver em esconderijo. A família Frank tentou imigrar para os Estados Unidos duas vezes, mas a burocracia e os rígidos regulamentos de imigração dos EUA mantiveram a família em Amesterdão.

No dia 4 de agosto de 1944, depois de mais de dois anos a viver escondida por cima do armazém do seu pai, Anne Frank e sete outras pessoas foram descobertas pelos alemães nazi e pelos oficiais holandeses. 75 anos depois, a investigação sobre quem – ou o que – pode ter denunciado a sua localização ainda continua.

Atualmente, historiadores, cientistas de dados e até equipas forenses usam novas tecnologias para identificar o informador – com alguns a sugerirem que Anne Frank pode ter sido descoberta por acidente.

O primeiro diário de Anne Frank, mantido pela adolescente entre 12 de junho e 5 de dezembro de 1942, tinha uma capa vermelha axadrezada. Este diário documenta os primeiros meses de vida da sua família em esconderijo.

O Diário de Anne Frank, escrito pela adolescente desde os 13 aos 15 anos de idade, é o texto mais lido a emergir do Holocausto. A história de cidadãos comuns a arriscarem as suas vidas para ajudar quem mais precisava tornou-se na narrativa mais proeminente do envolvimento da Holanda durante a ocupação da Segunda Guerra Mundial.

No entanto, a história de Anne Frank também revela o relacionamento, muitas vezes cúmplice, dos holandeses com a Alemanha nazi. Durante a guerra, cerca de 80% da população judaica holandesa foi morta, a segunda maior percentagem a seguir à Polónia.

"A Holanda abraçou a ideia do heroísmo", diz Emile Schrijver, diretor do Museu Histórico Judaico e do Bairro Cultural Judaico em Amesterdão. "Foi preciso passar uma geração inteira até que o papel de perpetrador e de espetador passivo fosse aceite.”

A vista do anexo onde Anne Frank e outras sete pessoas – a sua irmã e os seus pais; a família van Pels; e Fritz Pfeffer – se escondiam, revela como um ruído ou uma luz descuidada podem ter denunciado a sua presença aos vizinhos mais atentos.

Ao longo dos anos, surgiram mais de 30 suspeitos de terem traído Anne, a sua família e amigos.

Edith Frank, mãe de Anne, morreu no dia 6 de janeiro de 1945, no campo de concentração de Auschwitz, três semanas antes da libertação do campo.

Entre os acusados estava um funcionário do armazém – excessivamente curioso – que trabalhava debaixo do esconderijo do grupo. Embora duas investigações tenham sido abertas para apurar se ele era o culpado, uma em 1947 e outra em 1963, Wilhelm Geradus van Maaren manteve sempre a versão de que não era o delator e, sem provas, não foi acusado. Outra suspeita, Lena Hartog-van Bladeren, ajudava a gerir pragas no armazém. Há quem afirme que Lena suspeitava que existiam pessoas lá escondidas e que tinha iniciado rumores perigosos, mas as entrevistas posteriores não conseguiram confirmar esta versão.

A lista de suspeitos continua, sem evidências que provem ou refutem o envolvimento de alguém. Gertjan Broek, investigador da Casa de Anne Frank em Amesterdão, acredita que esta busca por um informador pode impedir que os investigadores descubram realmente o que aconteceu. “Ao perguntar ‘Quem traiu Anne Frank?’, já estamos a assumir uma visão afunilada. E deixamos de fora outras opções”, diz Broek.

É possível, diz Broek, que os Frank nem sequer tenham sido traídos – podem ter sido descobertos por acidente. Existe a possibilidade de terem sido descobertos durante uma fiscalização de cupões de rações fraudulentos, diz Broek, após um projeto de investigação de dois anos.

Dos oito judeus presos no dia 4 de agosto de 1944, o pai de Anne, Otto Frank, foi o único sobrevivente. Mais tarde, foi viver para a Suíça e faleceu em 1980.

Quando considerados em conjunto, os poucos factos verificados desde aquele dia suportam esta afirmação. Primeiro, quando as autoridades alemãs e holandesas chegaram, não tinham transporte para as pessoas escondidas – tiveram de improvisar. Segundo, um dos três oficiais envolvidos na captura estava designado para a unidade que investigava crimes económicos. Por fim, dois homens que ajudavam os Frank, e os que se escondiam com cupões de rações fraudulentos foram presos, mas um dos casos foi indeferido por razões desconhecidas. É possível que um dos homens tenha feito um acordo; sobretudo se levarmos em consideração que um dos oficiais que estava a supervisionar o caso dos cupões também esteve envolvido na captura de Anne Frank.

Embora seja possível que as oito pessoas escondidas tenham sido descobertas acidentalmente, Broek ainda não o consegue provar. “Infelizmente, não existem provas conclusivas. Mas quanto mais pontos colocamos no mapa, mais nos aproximamos da realidade. Essa é a grande virtude.”

Outro grupo, composto por mais de 20 criminologistas, técnicos forenses e investigadores de dados, espera conseguir estreitar as hipóteses até um único indício. A equipa, liderada por Vincent Pankoke, um agente aposentado do FBI, está a encarar a investigação como se esta se tratasse de um caso moderno. Durante anos, perscrutaram arquivos e verificaram fontes por todo o mundo, recorrendo às tecnologias do século XXI para verificar todas as pistas. A equipa criou um mapeamento em 3D do esconderijo de Anne para perceber como é que os sons poderiam ter viajado até aos prédios adjacentes.

A equipa também está a usar sistemas de inteligência artificial para descobrir ligações ocultas entre indivíduos, lugares e eventos relacionados com o caso. A empresa de ciência de dados Xomnia criou um programa personalizado que, em parte, analisa textos de arquivo para criar mapas de ligações com subtilezas e camadas.

“O que podemos fazer, por exemplo, é tentar ver quantas vezes algumas palavras e nomes são usados em conjunto. Se determinados nomes forem usados de forma predominante, podemos criar uma espécie de rede e analisar esses dados”, diz Robbert van Hintum, cientista chefe de dados na Xomnia. Por exemplo, é possível cruzar referencias de moradas com relações familiares e relatórios da polícia para verificar quem é pode ter estado envolvido, ou ter tido conhecimento, dos vários eventos no bairro de Anne Frank.

“Quando juntamos todas estas dimensões, começa a surgir uma imagem que não era possível ver de outra forma”, explica Robbert van Hintum.

A equipa de investigação vai publicar as suas descobertas num livro que se espera ser publicado no próximo ano.

Dos oito judeus escondidos, só o pai de Anne, Otto Frank, sobreviveu à guerra. Pode já ser tarde demais para trazer um suposto traidor à justiça, mas o antissemitismo está a aumentar e esta investigação ainda é importante para muitas pessoas. “Ao compreendermos melhor o que aconteceu neste caso, podemos aprender sobre a forma como as pessoas se tratam umas às outras e prepararmo-nos para o futuro”, diz Schrijver.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler