História

Exclusivo: a Expedição que Procura o Avião de Amelia Earhart

Já foram feitas muitas tentativas para descobrir o destino da famosa aviadora, mas nunca com as ferramentas tecnológicas que Robert Ballard tem à sua disposição.quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Por Rachel Hartigan Shea
Mais conhecido por ter descoberto o Titanic em 1985, o Explorador National Geographic Robert Ballard observa os monitores da sala de controlo da embarcação E/V Nautilus.

NIKUMARORO, KIRIBATI No Oceano Pacífico, a sul do equador, está uma noite tropical amena, mas dentro da sala de controlo do E/V Nautilus está frio e escuro. A única luz presente vem dos monitores de observação. Os movimentos dentro desta sala são traiçoeiros – com fios pendurados nas paredes e um espaço muito estreito entre as estações de trabalho. Apesar do calor que se verifica no exterior da embarcação, os membros da tripulação usam camisolas de lã para suportar o ar frio  no seu interior. As vozes sussurrantes da tripulação são quase inaudíveis.

Os ecrãs montados em paredes pintadas de preto oferecem uma visão para outro mundo. Um dos ecrãs mostra um veículo operado remotamente (ROV, na sigla em inglês) a flutuar numa luz azul sombria. Este ROV parece microscópico ao lado da parede rochosa do penhasco submarino. Outro dos ecrãs oferece uma visão mais aproximada – rochas e detritos de coral, ocasionalmente obscurecidos por neve marinha.

Amelia Earhart a passar em frente ao seu Lockheed Electra, o avião onde desapareceu, em julho de 1937, enquanto se tentava tornar na primeira mulher a voar em torno do globo.

"Estamos à procura de cores que não sejam naturais neste fundo", diz Robert Ballard, enquanto olha fixamente para os ecrãs. O homem que encontrou o Titanic está numa missão para tentar descobrir o que aconteceu a Amelia Earhart – aviadora que desapareceu enquanto se tentava tornar na primeira mulher a dar a volta ao mundo.

Se Amelia Earhart visse a tecnologia presente neste barco, provavelmente teria ficado deslumbrada. A aviadora estava sempre de olhos postos no futuro, fosse para quebrar recordes nos céus, ou para forjar novos caminhos para as mulheres. Amelia ainda se chegou a aventurar debaixo de água, numa versão inicial de um fato de mergulho.

Ainda assim, a aviadora teria ficado encantada com as maravilhas tecnológicas empregues na descoberta do seu destino final.

Dentro da sala de controlo, os membros da tripulação operam veículos submarinos e mantêm-se vigilantes de forma permanente, em turnos de 4 horas.

Ballard rumou o seu navio de última geração, o E/V Nautilus, em direção às águas ao largo de Nikumaroro, um anel isolado de corais e areia em torno de uma lagoa azul-turquesa. Com apenas 7.2 km de comprimento e 2.5 km de largura, a ilha aparece na maioria dos mapas como um simples ponto na vastidão do Oceano Pacífico.

"Existem muitas teorias sobre a zona de aterragem do avião de Amelia, e algumas dessas teorias são um bocado loucas", diz Ballard. Algumas pessoas acreditam que Earhart e o seu navegador, Fred Noonan, acabaram nas Ilhas Marshall, mas há quem diga que ficaram em Saipan, ou até mesmo em Nova Jersey, e outros dizem que o avião caiu no mar e se afundou. "Estamos a seguir a teoria que sugere que Amelia aterrou realmente o avião."

No dia 2 de julho de 1937, Earhart e Noonan estavam a voar em direção à Ilha Howland, que é ainda mais pequena que Nikumaroro. Depois de levantarem voo de Lae, na Nova Guiné, no último terço da sua viagem à volta do mundo, não conseguiram localizar Howland e desapareceram sem deixar vestígios.

Esquerda: Um veículo operado remotamente, chamado Hercules, é lançado do convés do Nautilus. O ROV é utilizado durante a noite, quando as suas luzes brilhantes e câmaras subaquáticas são mais eficazes. Direita: Um barco robótico, ou veículo autónomo de superfície (ASV), é usado para perscrutar águas demasiado rasas para o Nautilus.

Nas últimas décadas, o Grupo Internacional de Recuperação Histórica de Aeronaves (TIGHAR) investigou a hipótese de Earhart e Noonan terem aterrado o seu Lockheed Electra 10E em Nikumaroro.

Os investigadores baseiam as suas teorias nas últimas transmissões de rádio feitas por Earhart. Na manhã do dia 2 de julho, Earhart comunicou com a Itasca, uma lancha da Guarda Costeira dos EUA que aguardava por Earhart na Ilha Howland: "KHAQQ (a sigla de comunicação do Electra) chama Itasca. Estamos na linha 157 337." A lancha recebeu a transmissão, mas não conseguiu identificar a localização do sinal.

A "linha 157 337" indica que o avião estava a voar numa linha de navegação noroeste a sudeste, que passava mesmo no meio da Ilha Howland. Se Earhart e Noonan não conseguissem localizar Howland, voariam para noroeste ou sudeste, dentro dessa linha, para encontrar a ilha. A noroeste de Howland ficam milhares de quilómetros de oceano aberto; a sudeste fica Nikumaroro.

Equipado com uma vasta série de sensores subaquáticos, o E/V Nautilus funciona com um padrão de busca semelhante a uma grelha – que Ballard compara a "cortar a relva".

A mensagem de rádio com a linha de posição foi a última transmissão confirmada de Earhart, mas os operadores de rádio receberam 57 mensagens que podiam ter vindo do Electra. Algumas estações conseguiram identificar a localização de 7 mensagens. E cinco cruzavam-se perto de Nikumaroro, que na altura se chamava ilha de Gardner.

Em Nikumaroro, no momento em que Earhart desapareceu, a maré estava particularmente baixa, revelando uma superfície de recife longa e plana o suficiente para um avião aterrar. Se Earhart enviou qualquer uma daquelas 57 transmissões de rádio, o avião deve ter aterrado relativamente intacto.

Os investigadores do TIGHAR teorizam que Earhart e Noonan fizeram estas transmissões durante a noite, para evitar o intenso calor diurno que se fazia sentir dentro de um avião de alumínio. Eventualmente, a maré subiu e levou o Electra, ou então afundou-se e foi despedaçado pelas ondas. A última transmissão credível foi ouvida no dia 7 de julho de 1937.

Os membros do TIGHAR já visitaram a ilha 13 vezes, mas nunca com as ferramentas tecnológicas que Ballard tem à sua disposição. O Nautilus está equipado com um sonar de feixes múltiplos, dois veículos operados remotamente, ou ROV, com câmaras de alta definição, um veículo autónomo de superfície (ASV) e vários drones – para além dos anos de experiência de Ballard a encontrar tesouros submarinos.

Nesta expedição, o foco de Ballard está em descobrir o paradeiro do avião de Earhart.

É um trabalho extremamente meticuloso. O Nautilus não se aproximou diretamente da ilha, em vez disso, fez um caminho mais abrangente para o sonar conseguir mapear o terreno debaixo de água. O navio não se aproximou demasiado do recife porque é extremamente perigoso, como se pode verificar pelos destroços do S.S. Norwich City que ainda dominam a costa nordeste da ilha.

A expedição de Ballard centra-se na Ilha Nikumaroro, um atol desabitado que faz parte da nação Micronésia de Kiribati. Alguns investigadores acreditam que Earhart e o navegador Fred Noonan aterraram nesta ilha e morreram.

Quando o Nautilus chegou à ilha, desenvolveram rapidamente uma rotina: enviar o ASV (que basicamente é um barco robótico) para mapear o terreno perto da zona de rebentação das ondas. Quando o barco regressa, analisam os dados para ver o que, como Ballard diz, "sai da sopa". Ballard e os seus colegas estão à procura de alvos distintos – anomalias – embora a sua ausência não signifique que debaixo das ondas não existe nada de interessante.

Ballard gosta de colocar os seus olhos em cima da presa. “Tudo o que encontrei até agora foi visualmente”, diz.

É aí que entram os ROV. Geralmente lançados durante a noite, estes veículos operados remotamente conseguem atingir os 4.000 metros de profundidade. O Hercules, uma caixa amarela com uma base de metal, oferece uma visão na primeira pessoa, enquanto que o Argus, mais pequeno, mantém a sua câmara apontada ao Hercules.

Os pilotos dos ROV operam em turnos de 4 horas, dia e noite, e geralmente não encontram muita coisa. Mas na primeira noite encontraram destroços – itens que pareciam ser uma hélice, uma caldeira, um eixo e muito mais – pertencentes ao cargueiro naufragado S.S. Norwich City.

Não são os destroços que Ballard procura, mas respondem a uma questão importante: a que profundidade pode estar o avião? Os destroços do S.S. Norwich City estão concentrados em profundidades a rondar os 100 e os 300 metros. "Qualquer coisa com uma massa semelhante – parte de um avião ou de um navio – estava naquela zona", explica o líder da expedição, Allison Fundis. "Estamos a concentrar os mergulhos dos ROV nessa zona.”

Quando os operadores dos ROV detetam algo, as suas reações tendem a ser silenciosas. Durante um dos turnos, avistaram um objeto metálico em forma de tubo. O operador do Hercules murmurou, “parece feito pelo homem. Será que o devo apanhar?”

A resposta foi sim. Depois de um momento de hesitação, o Hercules esticou o seu braço robótico e, muito lentamente, fechou as pinças em torno do tubo e colocou delicadamente o objeto num recipiente de armazenamento.

O que era? A resposta teria de esperar até os ROV serem recuperados e a caixa aberta, algo que só iria acontecer no dia seguinte.

Earhart e o navegador Fred Noonan consultam um mapa do Pacífico que mostra a rota de voo planeada para a sua volta ao mundo.

Alerta de spoiler: não era um bocado do avião de Earhart. Parecia ser um pedaço de equipamento oceanográfico – um sinal de que o local já tinha sido explorado antes de Ballard.

Ballard descarta os falsos alarmes, sobretudo numa fase tão inicial das buscas. “Para o Titanic, fizemos isto durante 9 dias”, diz.

Amelia Earhart tinha planeado usar o seu Electra para testar a modernidade do equipamento – apelidando o avião de Laboratório de Voo.

Quando esta expedição terminar, o equipamento do Nautilus terá sido testado até aos limites e a pequena ilha de Nikumaroro estará completamente mapeada. E mesmo que não consigam descortinar o destino de Earhart, talvez a aviadora ficasse satisfeita só por saber que isto estava a acontecer.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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