História

O Mundo Antes das Vacinas – Um Mundo Que Não Podemos Esquecer

O sarampo está a reaparecer nos Estados Unidos e em muitos outros países. A ‘amnésia’ histórica faz parte do problema.sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Por Richard Conniff
Em abril de 1947, na Escola Católica St. Joan of Arc, em Queens, Nova Iorque, os rapazes fazem fila para serem vacinados contra a varíola. A doença provocou duas mortes, levando as autoridades de saúde a lançar um programa de vacinação em massa na cidade.

Em meados da década de 1950, tal como muitas crianças americanas da minha geração, também eu me alinhei com os meus colegas para levar a primeira vacina contra a poliomielite. Nos Estados Unidos, naquela altura, a doença provocou 15.000 casos de paralisia e todos anos morriam cerca de 1.900 pessoas, maioritariamente crianças. Depois, também fizemos fila para a vacina contra a varíola, que também estava a ceifar milhões de vidas em todo o mundo. Desde então, continuei sempre a atualizar as minhas vacinas, incluindo algumas exóticas para fazer trabalhos para a National Geographic, entre elas as vacinas contra o antraz, a raiva, a encefalite japonesa, a febre tifoide e a febre amarela.

Tendo crescido à sombra da poliomielite (o meu tio ficou de muletas para o resto da vida) e tendo conhecido o sarampo em primeira mão (no ano de pico pré-vacinal de 1958, juntamente com outros 763.093 americanos), levo de bom grado qualquer vacina recomendada pelo meu médico e pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, que recebe informações adicionais sobre viagens ao estrangeiro do Yellow Book do Centro de Controlo de Doenças (CDC) dos EUA. Estou profundamente grato às vacinas por me manterem vivo, e também por me ajudarem a regressar das viagens tão saudável como quando parti.

Contudo, tal como a maioria das pessoas, também eu pareço sofrer de uma espécie de amnésia seletiva: as vacinas salvam-nos de doenças, mas também nos fazem esquecer que essas doenças existem. Assim que a ameaça de determinada doença desaparece das nossas vidas, ficamos negligentes. Ou pior, inventamos outras coisas para nos preocuparmos. Alguns pais bem intencionados evitam vacinar os seus filhos com o receio de que a vacina MMR (contra o sarampo, a papeira e a rubéola) provoque autismo. Mas os estudos científicos independentes demonstraram repetidamente que esse vínculo não existe – mais recentemente num estudo feito com 657.000 crianças na Dinamarca.

FONTE: U.S. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. GLOBAL POLIO ERADICATION INITIATIVE, "POLIO ENDGAME STRATEGY 2019-2023," ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2019

Este medo irracional é o motivo pelo qual os Estados Unidos estão a testemunhar quase 1.200 casos de sarampo em 2019, quase duas décadas depois das autoridades de saúde pública terem orgulhosamente declarado que a doença tinha sido erradicada. 124 das vítimas, a maioria crianças, foram hospitalizadas, 64 com complicações que incluem pneumonia e encefalite, que podem causar danos cerebrais ou a morte.

No entanto, parece que o autismo ainda é uma ameaça maior do que o sarampo, nem que seja porque aparece em inúmeros programas de televisão e filmes como  Encontro de Irmãos e Gilbert Grape. Mas na realidade é mais provável apanharmos sarampo numa sala de cinema do que a ver uma doença retratada no ecrã.

VACINAÇÃO À VOLTA DO MUNDO

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Ou seja, os pais esquecem-se – ou provavelmente nunca souberam – que em cada 100.000 pessoas que sofrem os efeitos do sarampo real, 33 acabam com deficiências mentais ou danos no sistema nervoso central. (Isto para além das que morrem.)

E também se esquecem que, no início dos anos 1960, um surto de rubéola resultou no nascimento de 20.000 crianças com danos cerebrais, incluindo autismo e outras anomalias congénitas.

E a varíola, antes de ser erradicada por uma vacina na década de 1970, deixou muitos sobreviventes cegos, com mazelas físicas ou danos cerebrais.

Uma das soluções para esta situação passa por fazermos um esforço consciente para nos lembrarmos do mundo antes das vacinas. O Tdap, por exemplo, é um item intrigante no meu cartão de vacinas. (As crianças recebem uma formulação ligeiramente diferente, chamada DTaP.) O T é para o tétano e o P para a tosse convulsa. Mas eu não fazia ideia o que era o D – de difteria.

Em março de 1938, em Gasport, Nova Iorque, um médico da escola e uma enfermeira do condado vacinam um rapaz contra a varíola.

Os próprios médicos só costumam conhecer esta doença através dos livros. Mas antes de ter sido desenvolvida uma vacina eficaz contra a difteria, no início da década de 1940, esta era uma doença que estava entre os maiores terrores da infância. Em meados de 1930, quando os meus pais estavam no ensino secundário, matou mais de 3.000 jovens americanos. E está novamente a matar crianças na Venezuela e no Iémen, e em outras áreas onde as agitações sociais e políticas interromperam as vacinações.

Entre outros sintomas, a difteria produz uma membrana cinzenta de células mortas na garganta que pode bloquear a traqueia de uma criança, provocando a morte por asfixia. Daí um dos seus apelidos: "o anjo estrangulador".

De acordo com um historiador, Nova Inglaterra, onde eu vivo, “sofreu nas décadas de 1730 e 1740 uma das piores epidemias de doença infantil na história dos EUA”. E os seus efeitos foram exacerbados pela ideia de que Deus a tinha enviado para punir  comportamentos pecaminosos. Um poema de 1738 alertava os rapazes e raparigas mal comportados:

Depressa a morte sem respirar
As suas almas devem surgir
Perante o Juiz veloz a matar
A Frase escrita para ouvir

A partir daí sem demora
Expulso e amaldiçoado
Inferno onde o demónio mora
Em sofrimento continuado

A difteria era terrível, não só porque podia matar com uma velocidade impressionante, mas também porque se disseminava facilmente de criança para criança através da tosse e dos espirros que induzia. Algumas famílias também podem ter contaminado inadvertidamente os seus filhos que, para se despedirem de um irmão ou irmã em estado terminal, faziam fila para os beijar. Nos nossos cemitérios ainda se podem ver as evidências desta epidemia.

Por exemplo, em Lancaster, no Massachusetts, temos lápides de ardósia todas juntas sobre os túmulos dos 6 filhos de Joseph e Rebeckah Mores. Efraim, de 7 anos, foi o primeiro a morrer, no dia 15 de junho de 1740. Foi seguido por Hannah, de 3 anos, no dia 17 de junho, e por Jacob, 11 anos, um dia depois. Foram todos enterrados na mesma sepultura. Depois, no dia 23 de junho, morreu Cathorign, com 2 anos, e Rebeckah, com 6 anos, morreu no dia 26. As mortes – 5 crianças em apenas 11 dias – pararam durante algumas semanas, um fio de esperança para os pais. Mas dois meses depois, no dia 22 de agosto, Lucy, com 14 anos, também faleceu. Alguns anos depois, a difteria ou outra doença epidémica regressou para ceifar as 3 crianças dos Mores que ainda estavam vivas.

Ghulam Ishaq é lojista em Karachi e não confiava na vacina contra a poliomielite. Agora culpa-se pelos problemas de Rafia, a sua filha de 4 anos: tem uma perna a definhar devido à doença, e a outra partida por um carro do qual não se conseguiu desviar.

Joseph e Rebeckah não estavam sozinhos na sua tragédia. Muitos outros pais também perderam todos os seus filhos, com alguns casos de 12 ou 13 crianças numa só família. (Atordoados pela dor, os pais não conseguiam calcular o número exato da sua perda.) E em 1735, numa rua com cerca de 800 metros, em Newburyport, no Massachusetts, morreram 81 crianças em 3 meses. Haverhill, também no Massachusetts, perdeu metade das suas crianças e 23 famílias perderam todos os seus filhos.

Atualmente, os pais raramente conhecem este tipo de dor porque os filhos estão protegidos pelas vacinas, que incluem Tdap/DTaP. É por isso que nos sentimos seguros em ter famílias mais pequenas. E também é uma das principais razões pelas quais a esperança média de vida nos Estados Unidos aumentou de 47.3 anos, no início do século XX, para 76.8 no virar do século.

Durante as nossas próprias vidas, os níveis de proteção continuam a aumentar, mas a terminologia das imunizações recomendadas tem tendência para obscurecer essas melhorias. Nenhum pai ou mãe perdeu o sono, por exemplo, sobre algo chamado “Hib”, abreviatura de “Haemophilus influenzae Tipo B”, ou sobre outro patógeno chamado “rotavírus”.

Mas quando a doença de Hib começou a aparecer na década de 1970, "dominou a casa onde eu vivia”, diz o imunologista Paul Offit. É uma das principais causas de meningite infantil, pneumonia e sépsis, uma infeção sistémica no sangue. As crianças com essa infeção bacteriana entravam na sala de emergência de forma tão rotineira que o hospital até tinha uma sala escura especial, com um aquário para acalmar as crianças, enquanto um anestesiologista se apressava e a equipa de cirurgia se preparava para operar. O perigo, caso a criança estivesse muito ansiosa, era a epiglote inflamada começar a contrair-se, bloqueando a traqueia.

"Eu tive várias conversas muito dolorosas com os pais, quando as crianças tinham meningite ou sépsis", lembra Offit. "Muitas vezes as crianças perdiam definitivamente a audição, ou ficavam com deficiências mentais ou motoras".

O médico Stanley Plotkin, também imunologista, começou a trabalhar na década de 1950 e, 60 anos depois, ainda se lembra de ter visto uma criança com Hib a morrer nas suas mãos. Por vezes a traqueostomia ajudava – um tubo inserido através de uma incisão na traqueia por baixo da obstrução. "Mas na altura eu era estagiário e não sabia fazer uma traqueostomia.”

Técnicos de laboratório examinam amostras de um patógeno chamado rotavírus, a principal causa de diarreia infantil que afeta anualmente milhões de crianças. Nos países mais pobres da África subsaariana e no sul da Ásia, ceifa centenas de milhares de vidas.

Os médicos (e pais) da atualidade não precisam de viver com essa memória em particular. Uma vacina eficaz, introduzida na década de 1990, reduziu a incidência da doença de Hib nos Estados Unidos em 99%, passando de 20.000 casos por ano para apenas 29.

O rotavírus também é um termo relativamente desconhecido para a maioria dos pais. Mas costumava infetar quase todas as crianças com menos de 5 anos de idade e é responsável por cerca de 40% dos casos graves de diarreia infantil. Na ausência de um tratamento médico, a desidratação matava entre 20 a 60 pessoas por ano nos EUA, e meio milhão de pessoas em todo o mundo.

A vacina para o rotavírus ficou disponível na década de 1990, e em 2006 o CDC aprovou uma versão mais segura, desenvolvida por Offit e Plotkin, juntamente com o falecido H. Fred Clark, microbiologista e ativista social. A vacina fez com que a diarreia induzida pelo rotavírus se tornasse rara, e preveniu entre a 40 a 50 mil hospitalizações de bebés e crianças todos os anos. Mas em 2017, num surto do rotavírus na Califórnia, morreu uma criança que não tinha sido vacinada – dois meses antes de completar os 2 anos de idade.

É claro que as vacinas acarretam riscos, tal como muitas coisas na vida. Esses riscos podem ir desde a dor no local da injeção até aos casos extremamente raros de reações alérgicas potencialmente fatais. Os investigadores médicos são normalmente os primeiros a identificar estes riscos. Por exemplo, em 2016, um estudo feito pelo CDC analisou 25.2 milhões de vacinações durante um período de 3 anos e encontrou 33 casos de reações alérgicas graves desencadeadas pela vacinação – 1.3 casos por milhão de doses de vacina.

Estas crianças em Vashon Island, em Washington – onde muitos pais são receosos com os produtos químicos – são há muito tempo a cara do movimento anti-vacinação. No entanto, em resposta aos surtos de sarampo e aos esforços dos profissionais de saúde pública, as taxas de vacinação estão a aumentar.

Como é que os pais devem avaliar este tipo de riscos? Ser um bom pai não é proteger as crianças de todos os riscos médicos. Mas sim fazer um julgamento, com a orientação de um médico, sobre as riscos relativos. Faça uma pergunta a si próprio: o que é pior para o meu filho – a possibilidade extremamente remota de uma reação alérgica, ou o risco de doença de Hib, do rotavírus, da pneumonia ou da varicela? No caso da varicela (apesar da sua reputação trivial), em 1994, um ano antes da aprovação de uma vacina eficaz, matou entre 100 a 150 crianças americanas.

O que é pior, um vínculo fictício entre a vacina MMR e o autismo – agora descartado como fraudulento pela própria revista que originalmente publicou esse mito – ou expormos os nossos filhos todos os dias à possibilidade de terem sarampo, com todas as suas consequências potencialmente fatais ou debilitantes?

Para mim e para a minha mulher, a decisão passou sempre por vacinarmos os nossos filhos segundo as recomendações. É claro que nos preocupamos, todos os pais se preocupam. Mas os nossos filhos são saudáveis e nós dormimos mais descansados sabendo que prevenimos com segurança muitos dos terrores médicos do passado.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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