História

Amelia Earhart: Equipa da Expedição Partilha as Suas Teorias

Os membros da expedição que tenta encontrar a famosa aviadora interrogam-se sobre o que pode ter acontecido há 82 anos.quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Por Rachel Hartigan Shea
Amelia Earhart posa em frente ao seu Lockheed Electra 10e, numa fotografia sem data.
Uma vista aérea da Ilha Nikumaroro.

ILHA NIKUMARORO, KIRIBATI – A partir do convés do E/V Nautilus, Summer Farrell observa a Ilha Nikumaroro. Enquanto piloto de veículos operados remotamente (ROV), Farrell interroga-se sobre o possível local onde Amelia Earhart poderia ter aterrado o seu Lockheed Electra 10e.

O Nautilus tinha chegado à ilha no dia anterior, integrado numa expedição patrocinada pela National Geographic. Farrell, membro da tripulação do Nautilus, recebeu um curso intensivo sobre a teoria que a expedição está a explorar – uma teoria que diz que Earhart aterrou o seu avião em Nikumaroro, em 1937, quando não conseguiu localizar a ilha para onde seguia na sua volta ao mundo.

Agora, Farrell analisa as evidências. O sol estava a pôr-se no atol de corais desabitado, uma faixa de vegetação densa cercada por uma praia estreita, com um recife à sua frente. Na zona onde a praia dá lugar ao recife, no centro da ilha, é possível vislumbrar uma lagoa azul-turquesa.

Esquerda: Os arqueólogos Dawn Johnson e Tom King procuram artefactos e fragmentos de ossos junto a uma árvore em Nikumaroro, onde, segundo uma das teorias, Earhart morreu. Direita: Berkeley, um cão-pisteiro, examina a ilha. Em 2017, uma equipa de cães-pisteiros, incluindo Berkeley, chamou a atenção para esta árvore, indicando a presença de restos humanos.

Farrell analisou o recife e a lagoa. O recife, apesar de ser relativamente nivelado, tem alguns buracos e é rijo como pedra. E para Earhart não era possível perceber a profundidade da lagoa a partir do ar. Mas o avião "tinha um trem de aterragem retrátil, pelo que amarar poderia ser mais seguro", disse Farrell. "Mas se a ideia fosse aterrar e descolar novamente, talvez o recife fosse melhor, especialmente se Amelia tivesse de fazer uma aterragem forçada.”

Os destroços do S.S. Norwich City, um cargueiro aqui encalhado em 1929, dividem o recife entre a ponta norte da ilha e a abertura para a lagoa. "Precisamos de 500 ou 600 metros para aterrar”, disse Farrell, apontando para o recife. "É uma extensão considerável."

É quase impossível resistir à tentação de especular sobre o que aconteceu, sobretudo para os envolvidos na expedição que tenta desvendar esse mistério. Os membros da tripulação interrogam-se – enquanto analisam exaustivamente as imagens dos ROV à procura de peças do avião, ou vasculham corais brancos à procura de ossos com a mesma tonalidade – sobre o que Amelia Earhart fez há 82 anos e porque razão o fez.

Os destroços ferrugentos do S.S. Norwich City que, em 1929, encalhou em Nikumaroro. O E/V Nautilus aparece em pano de fundo.

No extremo sudeste da Ilha Nikumaroro, John Clauss e Andrew McKenna consideram a questão do local de aterragem de Earhart, enquanto fazem buscas junto a uma árvore onde, há cerca de 2 anos, cães-pisteiros assinalaram a existência de restos mortais. Tanto Clauss como McKenna são pilotos (McKenna tem uma escola de aviação) e também são membros de longa data do Grupo Internacional de Recuperação Histórica de Aeronaves (TIGHAR)a organização que avançou a hipótese de Earhart ter aterrado em Nikumaroro e ali ter morrido como náufraga.

Ao longo dos anos, o TIGHAR recolheu evidências que sugerem que Earhart aterrou no recife, a norte dos destroços do S.S. Norwich City. Um oficial britânico que explorou a ilha alguns meses depois do desaparecimento da aviadora (para investigar as suas possibilidades de colonização), tirou uma fotografia que tem uma forma indistinta – alguns analistas dizem que essa forma é um trem de aterragem. E as pessoas que na sua infância viveram na colónia de Nikumaroro dizem ter encontrado peças de um avião.

Mas Clauss e McKenna têm razões para acreditar que Earhart não aterrou na lagoa. McKenna destaca que, nessa fase da história da aviação, era comum os pilotos aterrarem em lugares irregulares. "Não existiam aeroportos por todo o lado", diz. "É por isso que o avião dela tinha uns pneus enormes." E nove meses antes do seu desaparecimento, um avião com dimensões semelhantes tinha conseguido aterrar num recife. "Amelia saberia disso."

Analistas dos serviços secretos disseram que o objeto indistinto, à esquerda desta fotografia da Ilha Nikumaroro – tirada poucos meses depois do desaparecimento de Earhart – parece o trem de aterragem de um Lockheed Electra.

"Não me parece justo fazer conjeturas sobre as decisões de Earhart", acrescenta Clauss. “Poucas pessoas se lembram de como era a aviação antes da Segunda Guerra Mundial. Tudo o que temos agora – regras, convenções – surgiu da Segunda Guerra Mundial. Antes disso, a aviação parecia o velho oeste.” Nesse contexto, aterrar o avião num recife rochoso durante a maré baixa seria uma opção razoável.”

No sotavento da ilha, sentado à sombra de um coqueiro, Tom King, membro da tripulação terrestre e antigo arqueólogo do TIGHAR, cita um motivo completamente dissociado da aviação para a possibilidade de uma aterragem no recife. "Earhart não tinha intenção de terminar aqui o seu percurso", disse King. “Ela queria descolar novamente e terminar o seu voo mundial.” Mas se a teoria do TIGHAR estiver correta, a aterragem no coral danificou o avião, incluindo possivelmente o trem de aterragem, e Amelia já não conseguiu levantar voo.

Earhart, à direita, e o seu navegador, Fred Noonan, preparam-se para entrar no Electra, numa paragem em Porto Rico, durante a sua tentativa de dar a volta do mundo, em 1937.

De regresso ao Nautilus, Robert Ballard, o homem que encontrou o Titanic, investiga as águas de Nikumaroro à procura de destroços do Electra. Mas isso não o impede de especular sobre os possíveis locais de aterragem. Será que Amelia aterrou no lado barlavento da ilha, ou possivelmente noutra ilha? Com base na quantidade de combustível que a aviadora ainda tinha: "quais eram as outras ilhas acessíveis, desabitadas e que não foram investigadas?" Ballard já analisou os números e a resposta é: muito poucas.

O desaparecimento de Amelia Earhart é um enigma interminável e um desafio que Ballard aprecia. O mesmo acontece com os outros membros da expedição que estão intrigados com a forma como Earhart pode ter sobrevivido na ilha, o que comeu, se foi consumida por caranguejos, se o seu avião flutuou intacto para longe a partir do recife, se as equipas de busca e salvamento se esforçaram o suficiente para a encontrar e, sobretudo, como é que esta feminista e pacifista poderia ter mudado o mundo caso tivesse sobrevivido. Talvez nunca encontremos as respostas para algumas destas questões, mas enquanto o mistério não for desvendado, as especulações vão continuar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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