Bastidores da Construção Desenfreada na Índia –Mundo de ‘Escravatura Sistemática’

Muitos dos milhões de trabalhadores que trabalham nas fábricas de tijolos da Índia contraem dívidas esmagadoras para garantir trabalho.sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Por Paul Salopek
Fotografias Por Paul Salopek

PERTO DE DHUBRI, ASSAM, ÍNDIA – A ABC Brick Company, localizada perto das margens do Rio Brahmaputra, no estado nordeste de Assam, é semelhante a qualquer uma das 200.000 fábricas de tijolos que operam na Índia. E Shazima Kathum, que trabalha numa destas fábricas, tem o mesmo destino que os outros 12 milhões de trabalhadores da indústria.

Shazima, uma mulher pequena, magra e com traços vincados, parece mais velha do que os seus 24 anos.

Os seus pais, também eles fabricantes de tijolos, foram forçados a vender o pequeno lote de terreno que tinham porque já não dava para alimentar a família. E também precisavam de dinheiro para construir uma casa para acomodar as 6 filhas. Shazima abandonou a escola aos 14 anos e, desde então, trabalha sob as chaminés de várias fábricas de tijolos. Todos os anos, durante 5 meses de clima seco, a correr debaixo de um sol escaldante, carrega perto de 18 quilos de cada vez – ou cerca de 8 a 10 tijolos – em cima da cabeça. Tal como se fosse um empilhador humano, Shazima percorre vários quilómetros por dia a correr de e para os fornos. O suor transforma a espessa camada de poeira que tem no rosto em lama. (Veja estes trabalhadores no vídeo de Paul Salopek.)

 "Ganho 136 rúpias por 1.000 tijolos", diz, citando ganhos diários inferiores a 2 euros. “Ao início, as minhas costas doíam muito. Mas acabamos por nos habituar”.

A Índia é o segundo maior produtor de tijolos do mundo, a seguir à China. Para alimentar o boom de construção das suas megacidades, parques industriais e call centers, que já dura há uma década, o país fabrica 250 mil milhões de tijolos por ano.

Mas o imenso exército de fabricantes de tijolos da Índia vive sob o jugo de práticas de trabalho exploradoras há muito mais tempo.

Protegidos em teoria pelas leis do salário mínimo, pelas regras contra o trabalho infantil e pelos regulamentos que proíbem o trabalho escravo, milhões de homens, mulheres e crianças ainda enfrentam condições que, de acordo com um grupo dos direitos humanos, são de “escravidão sistemática”. Muitos dos trabalhadores estão reféns do seu trabalho árduo por causa de dívidas que contraem com os empreiteiros desonestos, que cobram taxas exorbitantes para garantir os empregos. Uma investigação médica feita recentemente descobriu que quase metade dos trabalhadores de tijolos do país estavam subnutridos. E mais de metade estavam anémicos.

Na fábrica de tijolos nos arredores de Dhubri, a maioria dos trabalhadores que transportam tijolos para os fornos são mulheres. Elas cantam enquanto equilibram as suas cargas pesadas na cabeça, em passadiços de madeira, em direção aos fornos de terra.

“Estou a pagar as mensalidades da escola da minha irmã”, diz Shazima sobre uma das suas irmãs mais novas que frequenta o 6º ano. “Não quero que ela alguma vez faça isto.”

Depois, foi-se embora muito apressada para ir buscar mais um carregamento de tijolos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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