História

Nas Casas (e Mentes) dos Colecionadores de Fósseis

Estas criaturas temíveis, há muito extintas, estão a aparecer nas salas de estar e nos escritórios de grandes empresas: um passatempo de colecionadores abastados que gera controvérsia.segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Por Richard Conniff
Fotografias Por Gabriele Galimberti e Juri De Luca
Um dinossauro (Kaatedocus siberi) entre uma mistura eclética de itens, no Theatrum Mundi, uma galeria em Arezzo, Itália.

Num motel, no meio de Tucson, no Arizona, um cirurgião com botas de cowboy e calças de ganga azuis está sentado à beira da piscina, parece que está a recitar uma rapsódia sobre crânios fossilizados. Este colecionador trouxe um fóssil na sua bagagem de mão, quando voou para a cidade, e está claramente emocionado com o estado de conservação do crânio e com as aberturas por onde passavam os nervos cranianos.

“Consigo ver o nervo ótico responsável pela visão”, diz, como se o antigo ocupante do crânio ainda estivesse vivo. “Consigo ver o nervo abdutor, que permitia os movimentos laterais dos olhos, e o nervo trigémeo, que transmitia as sensações da pele no rosto."

O cirurgião pediu para não ser identificado para este artigo. Possuir uma coleção de crânios fósseis deixa-o feliz, mas também nervosamente discreto, como muitos dos colecionadores que estão na cidade para o Tucson Gem e o Mineral Show. Este colecionador está a construir um “museu particular” para os crânios que tem e começa a sorrir quando pensa em exibi-los por ordem cronológica: o crânio de um Allosaurus, com 91 centímetros de comprimento, um monstro marinho com dentes, Elasmosaurus, e o crânio mais completo de um Pteranodon alguma vez encontrado.

Na Zoic, uma empresa de restauração de fósseis, em Trieste, Itália, os trabalhadores montam um Allosaurus que foi desenterrado no Wyoming. O espécime foi posteriormente vendido em leilão, em Paris, por 1.2 milhões de euros.
Para complementar o mar que se vê no exterior, um mosassauro de 5 metros de comprimento flutua na casa de Joan e Henry Kriegstein, no Massachusetts. Este réptil marinho é um dos vários fósseis que Henry Kriegstein colecionou ao longo dos últimos 30 anos. Henry, oftalmologista, diz que o seu amor pelos animais extintos já vem desde a infância. Ele cresceu em Manhattan, e o Museu Americano de História Natural era o seu local favorito. "Fiquei impressionado com estes esqueletos de dinossauros no meio de Nova Iorque.” Todos os verões, Henry faz escavações no Dakota, no Wyoming ou no Montana, geralmente com a sua filha mais velha, Adie, que encontrou o mosassauro. “Para mim, os fósseis representam a chave do nosso passado biológico. Estar na sua presença desperta um sentimento muito espiritual de conexão com a história da vida.”

Atualmente, existem muitos colecionadores particulares de fósseis. Alguns, como o cirurgião, são sérios o suficiente para passar por paleontologistas profissionais. Outros parecem satisfazer principalmente um gosto juvenil por monstros grandes e assustadores – e dispendiosos. Alguns colecionadores estão entre as pessoas mais ricas do mundo, como o promotor imobiliário chinês que está em Tucson a regatear por um ictiossauro, um réptil marinho grande, oferecendo 750.000 dólares pelo exemplar. E também aqui assistimos a uma necessidade de discrição nervosa: o promotor interrompe a minha pergunta ao tradutor e marcha de forma sombria na direção de um estegossauro que custa 3 milhões de dólares.

A paixão pela paleontologia entre os colecionadores particulares significa que dinossauros e outros fósseis gigantes podem aparecer em residências, ou empresas, em praticamente qualquer lugar do mundo. Numa casa de verão à beira-mar, no Massachusetts, os chifres de um crânio de Triceratops saúdam os hóspedes no hall de entrada. Na sala, está pendurado um mosassauro com 5 metros de comprimento, um lagarto gigante dos mares. No sul da Califórnia, um ictiossauro monstruoso adorna a casa de banho principal da casa de um colecionador, porque a sala de estar já está cheia de fósseis. No Dubai, um diplodoco de 24 metros de comprimento é a atração principal de um centro comercial. E em Santa Bárbara, na Califórnia, um dos crânios de tiranossauro mais bem preservados do mundo está no átrio de entrada de uma empresa de software. Tem um ar furioso, está a mostrar os dentes à rececionista que está sentada à sua frente – com um ar completamente indiferente.

Um crânio de Triceratops (ao centro, em segundo plano) e outros fósseis atraem uma multidão até ao centro de leilões Drouot, em Paris. "Muitas destas pessoas não vêm aqui para comprar", diz a fotógrafa Gabriele Galimberti. O centro de leilões, o maior e mais antigo de Paris, está aberto a visitantes e curiosos, bem como a colecionadores sérios que desejam licitar. Galimberti diz que os leilões de história natural são um atrativo particular que ficam para os conjuntos finais. Em 2018, num destes eventos, um licitante anónimo do Sudeste Asiático comprou um Allosaurus e um Kaatedocus siberi pela Internet, por 2.6 milhões de euros. Os preços de venda do evento que vemos nesta imagem foram mais modestos, com o Triceratops a ser amealhado por 172.577 euros. O Zarafasaura (em primeiro plano) foi repatriado para Marrocos. As autoridades do país argumentaram, com sucesso, que o espécime tinha de ser devolvido.
Esquerda: Trabalhadores transportam um crânio de Triceratops, no centro de leilões Drouot, em Paris. Direita: De martelo na mão, no famoso centro de leilões Drouot, em Paris, o leiloeiro Alexandre Giquello, da casa de leilões Binoche et Giquello, coordena a licitação para um alossauro.

Os colecionadores costumam ser discretos em relação aos seus fósseis porque a comercialização de paleontologia provocou duas décadas de controvérsia exasperada. Esta controvérsia remonta até ao leilão feito em 1997 de um Tyrannosaurus rex chamado Sue. O espécime acabou no Museu Field de Chicago, mas o preço de venda – 8.4 milhões de dólares – induziu fantasias em alguns proprietários de terras. E também deixou muitos paleontologistas de museus com o receio de que estes fósseis estavam a ser monetariamente avaliados fora de um domínio que há muito tempo consideravam seu.

Mas esta corrida ao ouro nunca se materializou. Atualmente, existe um excesso de espécimes de tiranossauro no mercado, e outros espécimes muito apreciados só são vendidos depois de anos de redução de preços. Apesar disso, os vários escândalos – espécimes falsificados da China, ossos de dinossauros ilegalmente contrabandeados da Mongólia e escavações descuidadas ou ilegais por todo o lado – sustentaram a hostilidade de alguns paleontólogos académicos em relação aos colecionadores particulares. E a tendência em tratar os fósseis preciosos apenas como objetos estéticos, ou coisa pior, não ajuda.

Em Tucson, um homem estava a tentar vender ilegalmente uma perna de Apatosaurus. O vendedor gritava: "Isto deve ter dado para fazer um belo churrasco!" Não é de admirar que um paleontólogo tenha discutido online a apreensão de alguns fósseis de dinossauros com um comentário que dizia: "quem beneficia com isto está a apunhalar a ciência nos olhos".

Conhecido em alguns círculos como o "cowboy dos dinossauros", o rancheiro Clayton Phipps (em cima) explora parte da formação de Hell Creek, perto da sua casa, em Jordan, no Montana, com o seu filho Luke. Estas camadas de rochas ricas em fósseis datam do final do período Cretáceo e contêm um registo valioso do mundo, pouco antes da extinção dos dinossauros. Muitos dos fósseis cientificamente importantes foram encontrados aqui, incluindo o primeiro Tyrannosaurus rex identificado em 1902. Nos Estados Unidos, os fósseis encontrados em propriedades privadas pertencem geralmente aos proprietários dos terrenos, e os colecionadores podem fazer acordos com os proprietários para escavar nas suas terras. Phipps diz que os fósseis geram a maior parte dos seus rendimentos; portanto, quando ele não trabalha como rancheiro, trabalha no seu terreno de uma forma mais lucrativa – perscrutando-a em busca de ossos de dinossauros.
Esquerda: Luke Phipps, de 11 anos, está em cima de um fóssil de Triceratops, com Chris Morrow, na CK Preparations, uma empresa comercial de fósseis que Morrow possui no Montana. Luke encontrou o fóssil enquanto fazia escavações com o seu pai, Clayton Phipps, um rancheiro e paleontologista amador conhecido como o "cowboy dos dinossauros". Direita: A reprodução de um Tyrannosaurus rex verdadeiro está a ganhar forma no Instituto de Pesquisa Geológica de Black Hills, em Hill City, no Dakota do Sul. Esta é a maior empresa privada de fósseis do mundo, e já escavou mais fósseis de Tyrannosaurus rex do que qualquer outra – incluindo o famoso espécime denominado Sue.

Contudo, o mais surpreendente é a forma como os colecionadores particulares, os caçadores de fósseis comerciais e os paleontologistas dos museus cooperam agora silenciosamente, apesar da guerra de palavras. Isto acontece, em parte, por questões de necessidade. Por todo o lado, os museus têm orçamentos reduzidos, e cortam nas equipas de investigação e nos investimentos. Os colecionadores comerciais estão "a fazer muito mais escavações do que os cientistas", diz Kirk Johnson, diretor do Museu Nacional de História Natural Smithsonian. "Nós estamos no campo 3 semanas, eles fazem escavações durante 5 meses.”

Os espécimes que os revendedores comerciais descobrem e vendem aos colecionadores particulares "não iam aparecer do nada nos museus", acrescenta Mark Norell, paleontólogo no Museu Americano de História Natural. “O mais provável era os fósseis ficarem onde estavam, a desvanecer nas encostas com o passar do tempo.”

Nas décadas de 1980 e 90, as escavações que eram feitas pelos agricultores e pelos  cowboys “destruíram exemplares muito importantes, mas agora é raro isso acontecer”, diz Norell. “No oeste americano, os colecionadores comerciais costumam fazer um trabalho de melhor qualidade do que os paleontólogos académicos, mais não seja porque a qualidade da escavação adiciona muito valor ao espécime.”

Nos Jardins Suspensos de Marqueyssac, em França, a oficial de comunicações Stéphanie Angleys limpa a vitrine de um alossauro com 150 milhões de anos. Os jardins, propriedade do empresário francês Kléber Rossillon, estão abertos ao público. Rossillon adquiriu o dinossauro – cujo crânio está entre os mais bem preservados do mundo – em 2016, alguns anos depois de ter sido encontrado no Wyoming.
Esquerda: Como se estivesse congelado a nadar, um fóssil de ictiossauro confere um toque da era jurássica ao escritório de Stefano Piccini, em Itália. Este paleontólogo, geólogo e proprietário da Geoworld – uma empresa comercial de fósseis que também vende brinquedos de ciências naturais – escavou o fóssil, que tem 160 milhões de anos, numa pedreira na Alemanha. Direita: Um Othnielosaurus – uma espécie diminuta que percorreu os Estados Unidos há cerca de 150 milhões de anos – parece pronto para saltar da mesa, na casa do colecionador Niels Nielsen, em Londres (que sobe as escadas com o seu filho mais novo). "Eu tenho uma paixão por fósseis", diz Nielsen, cuja primeira compra foi um dente de T. rex, seguido de um T rex. inteiro. Atualmente, tanto o T. rex como o Othnielosaurus estão emprestados a museus europeus. "Gosto de trabalhar com os museus", diz Nielsen, executivo financeiro e imobiliário. "Isto permite exibir alguns fósseis espetaculares que os museus não conseguem adquirir por conta própria.”
Os dinossauros de plástico podem ocupar a imaginação de Edoardo, mas para o seu pai, Francesco Invernizzi, diretor e produtor de filmes italianos (ao fundo à esquerda), os brinquedos não chegam. "Eu sempre quis ter um dinossauro", diz, "e finalmente decidi comprar um”. Embora o crânio maciço que Francesco comprou pertença a um mosassauro, que é um réptil marinho e não um dinossauro, Invernizzi estima a cabeça do animal antigo. Agora, este exemplar está na sala da sua casa, perto de Milão. “Mas, eventualmente, o espécime vai ser transferido para um museu de história natural”, diz, juntamente com os outros objetos que colecionou.

Na China, onde amadores não treinados ainda fazem a maior parte das escavações, as coisas são piores. Mas durante os últimos 25 anos do século passado, os colecionadores comerciais de ambos os países descobriram algo que Johnson chama de "coisas bastante requintadas"

Estas descobertas obrigam quase inevitavelmente os colecionadores e os paleontólogos a cooperar. Há alguns anos, quando Norell estava a ajudar a preparar uma exposição de pterossauros, decidiu incluir um famoso espécime chamado Dark Wing. Este espécime de réptil voador foi preparado e emprestado por um alemão aposentado – que tinha o fóssil em casa, por cima da lareira. E quando surgiu um fóssil espetacular de um dinossauro parecido com um pássaro, chamado Archaeopteryx, um colecionador particular adquiriu-o para o Centro de Dinossauros do Wyoming, um museu criado pelo mesmo colecionador, em Thermopolis, no Wyoming.

De uma forma geral, os outros espécimes particulares também acabam por ir parar aos museus, seja por empréstimo permanente, ou como doações – partindo do princípio que os compradores preservaram a documentação científica crítica. Os doadores nem sempre são os colecionadores particulares que compraram originalmente os dinossauros. Isto porque, mais cedo ou mais tarde, a visão tentadora de uma doação, que é dedutível de impostos, pode fazer cintilar os olhos dos seus herdeiros. “Sobretudo quando perceberem”, diz um designer de exibições de museus, “que os dinossauros não são realmente propícios ao ambiente doméstico e que não são fáceis de limpar quando estão cheios de pó”.

Destacando-se como bicos, os dentes afiados da mandíbula inferior – com um metro e meio de comprimento – de uma nova espécie de tilossauro, estão em Edgemont, no Dakota do Sul, na casa de Frank Garcia (à esquerda) e da sua esposa, Debby. O casal encontrou o fóssil deste réptil marinho em 2016 – primeiro a cauda e depois o crânio – não muito longe de onde vivem. O crânio é o mais completo alguma vez encontrado. Garcia não tem formação em paleontologia, mas passou a maior parte da sua vida a descobrir fósseis. Em 1979, assinou um contrato com o Instituto Smithsonian para escavar fósseis na Flórida. "Durante 10 anos, pagaram-me para encontrar fósseis", diz. Durante a sua carreira, Garcia descobriu dezenas de milhares de espécimes que agora estão em museus e universidades dos Estados Unidos.

Os fotógrafos Gabriele Galimberti e Juri de Luca estão sediados em Itália. Richard Conniff é o autor do livro “Lar de Mundos Perdidos: Dinossauros, Dinastias e a História da Vida na Terra”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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