História

“Pista Fascinante” Marca o Fim da Expedição Amelia Earhart

Embora a localização do avião da destemida aviadora permaneça desconhecida, um artefacto redescoberto após 80 anos pode abrir novos caminhos de investigação.quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Por Rachel Hartigan Shea
Hercules, um veículo operado remotamente, é recuperado das águas ao largo da Ilha Nikumaroro para o convés do E/V Nautilus, depois de um dia de buscas pelo Lockheed Electra 10e de Amelia Earhart.

ILHA NIKUMARORO, KIRIBATI – Ao início da manhã, no último dia da expedição para encontrar o avião de Amelia Earhart, a tripulação do E/V Nautilus recolheu do oceano o Hercules, um veículo operado remotamente (ROV). Enquanto o Hercules ensopava o convés, Robert Ballard, o cientista-chefe da expedição, foi verificar as últimas amostras trazidas pelo ROV. A embarcação Nautilus estava agendada para zarpar de Nikumaroro, em direção a Samoa, dentro de uma hora.

Com luvas de plástico pretas, Ballard retirou um recipiente da zona frontal do ROV. Entre as amostras recolhidas estavam uma folha de prata, do tamanho de um computador portátil, e um fragmento preto que parecia ser um tubo.

Ballard examinou os itens no laboratório do navio. O fragmento preto não era de alumínio, portanto não poderia ser do Lockheed Electra 10e de Earhart. A folha de prata era mais promissora, principalmente porque parecia ter orifícios de rebites. "Debaixo de água parecia mesmo alumínio", disse Megan Lubetkin, membro da equipa científica do Nautilus.

Ballard agarrou na peça. “Não é do avião dela”, disse. “Dobra-se demasiado.”

Esquerda: Na sala de controlo do Nautilus, Robert Ballard e Jeff Dennerline monitorizam o trabalho de um veículo operado remotamente. Direita: Uma vista aérea do Nautilus com o pequeno ROV amarelo, Hercules, a bombordo.

Este foi um final adequado para o que, em muitos aspetos, foi uma expedição bem-sucedida (filmada pela National Geographic para um documentário de duas horas a ser emitido em outubro). Com tecnologia muito mais avançada do que a usada anteriormente nas buscas por Amelia Earhart, recolheram algo de intrigante do fundo do oceano. Mas não era o que Ballard e restante equipa procuravam.

Ballard foi atraído para esta ilha desabitada pelas evidências recolhidas pelo Grupo Internacional de Recuperação Histórica de Aeronaves (TIGHAR). Com base na última mensagem de rádio de Earhart e nos sinais de rádio feitos depois do seu desaparecimento, o grupo acredita que Earhart e o navegador Fred Noonan aterraram em Nikumaroro, em 1937, depois de não conseguirem encontrar a pequena Ilha Howland, o ponto de paragem seguinte no seu voo mundial.

A teoria diz que Earhart aterrou durante a maré baixa no recife que circunda Nikumaroro. Alguns dias depois, a maré subiu e tirou o avião do recife, acabando por o desfazer em pedaços – ou onde flutuou durante algum tempo, afundando-se depois nas profundezas.

Esquerda: Analistas dos serviços secretos disseram que o objeto indistinto, à esquerda desta fotografia da Ilha Nikumaroro – tirada poucos meses depois do desaparecimento de Earhart – parece ser o trem de aterragem de um Lockheed Electra. Direita: Allison Fundis e Samantha Wishnak, membros da expedição, mergulham na área de investigação base, perto da Ilha Nikumaroro.

O TIGHAR identifica o lado noroeste da ilha como sendo o local de aterragem do avião, uma zona onde o cargueiro S.S. Norwich City naufragou em 1929, e onde a lagoa da ilha se abre para o mar durante a maré alta. Três meses depois do desaparecimento de Earhart e Noonan, um oficial britânico que estava a examinar a ilha, para conhecer o seu potencial de colonização, tirou uma fotografia do naufrágio – vários analistas afirmaram que, na fotografia, a forma desfocada que aparece à esquerda do naufrágio poderia ser o trem de aterragem do Electra. E as pessoas que viveram na ilha, depois de esta ter sido colonizada, disseram aos investigadores do TIGHAR que tinham encontrado destroços de alumínio perto da entrada da lagoa.

Esse segmento a noroeste – onde a lagoa se abre até à ponta da ilha – tornou-se na zona primária de busca da expedição. "O objetivo principal é encontrar o avião", disse Ballard durante a expedição, "ou provar que não está lá".

Para fazer isso, Ballard, que também é geólogo, precisava de conhecer Nikumaroro. Circum-navegou a ilha cinco vezes, que tem 7.2 km de comprimento, para a mapear com um sonar multifeixes. Enviou um veículo autónomo de superfície (ASV) duas vezes para a ilha, para mapear as áreas de pouca profundidade perto do recife. E também enviou drones para ter uma vista aérea da ilha, sobretudo as zonas de rebentação das ondas contra o recife. O Argus, outro ROV, foi enviado para águas mais profundas para fazer um mapeamento de sonar de varredura lateral. O Argus e o Hercules, com as suas câmaras de alta-definição, estiveram nas águas da ilha à procura de destroços do avião. As imagens foram monitorizadas 24 horas por dia, por turnos, pela equipa científica. "Fizemos tudo como mandam as regras", diz Ballard. "Uma cobertura total."

Ballard descobriu que Nikumaroro é uma pequena ilha que fica no cume de um monte submarino maciço. O monte desce até ao fundo do oceano numa série de penhascos e rampas íngremes, com declives mais acentuados na zona primária de busca. E, tal como os riachos numa montanha, também estas encostas afunilam detritos pelas colinas abaixo. Algumas dessas zonas ficam com destroços presos.

O Hercules e o Argus vasculharam os declives submarinos de uma ponta à outra. Por baixo dos destroços do S.S. Norwich City, os ROV iluminaram as hélices, as caldeiras e outros pedaços do navio para a equipa de observação científica. "Aprendi muito com o Norwich City" – sobre a forma como os objetos são drenados do recife – diz Ballard.

Na zona primária de busca a história era completamente diferente – o local do suposto trem de aterragem que aparece na fotografia. "Se o avião estivesse lá em cima, as peças teriam descido pelos declives", diz Ballard, mas os ROV e os cientistas não encontraram nada.

"Examinámos visualmente a ilha a 100%, até aos 750 metros de profundidade, e não encontrámos evidências do avião", diz Ballard. "E também fizemos a zona primária a 100%, até aos 900 metros.”

Sem avião.

Ballard não ficou desiludido com os resultados. “Isto foi muito divertido”, diz. “Obrigou-nos a dar tudo o que tínhamos.”

INVESTIGAÇÃO INSULAR E ANÁLISES ÓSSEAS

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Mas Ballard não considera que a investigação tenha terminado. Na realidade, depois desta expedição, o Nautilus ruma às ilhas Howland e Baker para mapear as águas desses territórios norte-americanos, para a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA. Talvez descubram algo na costa da ilha onde Earhart pretendia aterrar.

Ballard não planeia regressar a Nikumaroro, a menos que a equipa local encontre evidências definitivas de que Earhart e Noonan faleceram na ilha. Independentemente disso, Ballard sabe onde iria procurar caso regressasse: praias mais a sul, planas o suficiente para aterrar um avião e com uma topografia subaquática menos agressiva – perfeita para o sonar, diz.

Amelia Earhart junto ao seu Lockheed Electra, no aeroporto de Parnamirim, no Brasil, em junho de 1937. O navegador Fred Noonan está em segundo plano.

E isso pode acontecer mais cedo do que se julga. Em 1940, um administrador colonial encontrou ossos, incluindo um crânio, em Nikumaroro, e enviou-os para as Fiji, onde se perderam. Na época, especulava-se que os ossos eram de Earhart. Agora, uma equipa de expedição liderada pelo arqueólogo Fredrik Hiebert, da National Geographic Society, pode ter encontrado fragmentos do crânio no Museu Te Umwanibong e no Centro Cultural de Tarawa, em Kiribati.

De acordo com Erin Kimmerle, antropóloga forense na Universidade do Sul da Flórida, o crânio pertencia a uma mulher adulta. "Não sabemos se é ela ou não, mas todas as linhas de evidência apontam para os ossos de 1940 que estão neste museu", diz Erin. Saberemos mais quando o crânio for reconstruído e o seu ADN testado, algo que pode acontecer durante os próximos meses.

E este final também parece adequado para a expedição Amelia Earhart. Quando tudo parece ter terminado, eis que surge uma pista fascinante para estimular o trabalho dos investigadores.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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