Quem Eram os Guerreiros Impiedosos de Átila, o Huno?

Os hunos saquearam grande parte da Europa e são acusados de terem provocado a queda do Império Romano – mas o registo arqueológico sugere um legado menos violento.

Thursday, September 19, 2019,
Por Erin Blakemore
Átila, o Huno, e a sua horda em combate, num quadro do artista francês Eugene Delacroix.
Átila, o Huno, e a sua horda em combate, num quadro do artista francês Eugene Delacroix.
Fotografia de The Picture Art Collection, Alamy

Por volta do ano 370 d.C., multidões de hunos invadiram grande parte da Europa Ocidental, conquistaram tribos germânicas e afugentaram todas as pessoas do seu crescente território. Mas esse povo nómada merece realmente a reputação que tem?

Esta é uma questão difícil de responder. Os hunos "continuam envoltos em mistério", escreve o historiador Peter Heather, em parte devido à ausência de história escrita e às suas origens obscuras. Acredita-se que este povo nómada veio de uma região onde atualmente fica o Cazaquistão, e varreu as estepes do leste após o ano 350 d.C. Alguns estudiosos especulam que se tratava de uma tribo turca, descendente dos Xiongnu – um grupo de pastores nómadas que unificou grande parte da Ásia durante finais do século III e início do século II a.C.

A pilhagem e violência impiedosas dos hunos fizeram com que o seu líder ficasse conhecido por "Flagelo de Deus".
Fotografia de Icas94, De Agostini/ Getty

Enquanto os hunos se movimentavam pelo Mar Negro, atacavam todas as pessoas que encontravam pelo caminho. Essas pessoas – vândalos, visigodos, godos e outros grupos – fugiram para Roma. Estas migrações destabilizaram o Império Romano e ajudaram os hunos a ganhar a reputação de assassinos.

O seu líder mais conhecido, Átila, o Huno, ajudou a solidificar essa perceção. Entre 440 e 453 d.C., Átila liderou hordas de hunos por grande parte da Europa, incluindo a Gália (França). Ao longo do caminho, pilhou sem destino, ficando nos relatos históricos com a reputação de "Flagelo de Deus", cujo povo praticava atos indescritíveis de terror sempre que invadia novos territórios.

Mas os registos arqueológicos contam uma história diferente. Por exemplo, em 2017, a arqueóloga Susanne Hakenbeck analisou ossos de hunos enterrados na Panónia, uma antiga província do Império Romano, onde atualmente fica a Hungria. A análise isotópica revelou que os hunos coexistiam e tinham um intercâmbio cultural com os romanos. A história da Hungria "não é apenas uma história de conflito, mas também uma história de trocas e adaptabilidade transfronteiriça", disse Hakenbeck em 2017 ao jornal Washington Post.

Átila nunca chegou a invadir Roma em pessoa, o seu império desmoronou por volta do ano 469 d.C. No entanto, a reputação bárbara do seu povo ainda persiste. No século VI d.C, nos escritos do historiador grego Jordanes, os hunos eram uma "tribo traiçoeira", e foram largamente associados à queda do Império Romano. Contudo, os historiadores modernos acreditam que os hunos tiveram um papel indireto na dissolução de Roma e que a instabilidade inerente ao próprio império o deixou vulnerável às invasões bárbaras.

A reputação temível dos hunos também desempenhou um papel nos conflitos modernos. Depois do imperador alemão Guilherme II ter incentivado os seus soldados a serem tão impiedosos quanto os hunos, durante um discurso em 1900, o termo ficou associado à Alemanha. Durante a Primeira Guerra Mundial, a palavra "Hun" foi amplamente utilizada como um epíteto para os alemães. Atualmente, a palavra ainda implica um povo bárbaro – mas que pode ter muito menos força do que o nome sugere.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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