Titanic: Perdido e Achado

Investigadores uniram os destroços do Titanic para compreender as horas finais do famoso navio e dos seus passageiros.quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Por National Geographic Staff
Destroços do navio Titanic
Destroços do navio Titanic
fotografia de Emory Kristof, Nat Geo Image Collection

Muitos dos relatos históricos do naufrágio do RMS Titanic afirmam que o navio, com 269 metros de comprimento, “parecia deslizar para o fundo oceano", como se a embarcação e os seus passageiros estivessem a adormecer tranquilamente, mas a realidade foi completamente diferente. Com base em análises feitas cuidadosamente durante vários anos aos destroços, com modelos e simulações de afundamento de última geração usados na indústria naval moderna, os especialistas conseguem pintar um cenário horrível das últimas horas e minutos do Titanic.

No início de agosto, as investigações ao navio ainda decorriam, com uma equipa de especialistas a fazer cinco mergulhos submersíveis tripulados ao local, durante um período de oito dias. Usando equipamentos de alta tecnologia, a equipa capturou imagens dos destroços que podem ser usadas para criar modelos em 3D – que posteriormente serão utilizados em sistemas de realidade virtual e realidade aumentada. Este trabalho ajuda os investigadores a estudar melhor o passado e o futuro do navio.

O Titanic está a deteriorar-se de forma dramática devido à corrosão do sal e às bactérias que comem metais, informou a Caladan Oceanic, empresa que supervisiona a expedição. Em agosto, um submersível tripulado chegou ao fundo do Oceano Atlântico Norte.

Esta viagem ao Titanic está a ser filmada pela Atlantic Productions, para o documentário especial, Missão Titanic, que será exibido no National Geographic em 2020.

"A zona de deterioração mais chocante fica no lado estibordo das cabines dos oficiais, onde eram os aposentos do comandante", disse Parks Stephenson, historiador do Titanic. O casco começou a colapsar e a levar cabines no processo.

Os cientistas acreditam que a erosão do Titanic vai continuar.

"Os destroços vão continuar a deteriorar-se com o tempo, é um processo natural", disse a cientista Lori Johnson.

O destino do Titanic foi selado na sua viagem inaugural de Southampton, em Inglaterra, para Nova Iorque. No Atlântico Norte, no dia 14 de abril de 1912, às 23:40, o Titanic bateu e raspou num icebergue. Este evento danificou partes do casco a estibordo, ao longo de mais de 90 metros, deixando os 6 compartimentos estanques expostos às águas do oceano. A partir desse momento, o afundamento era inevitável. Contudo, este acontecimento trágico pode ter sido apressado pelos tripulantes que abriram uma porta de passagem a bombordo do Titanic, numa tentativa falhada de carregar botes salva-vidas a partir de um nível inferior. Assim que o navio se começou a inclinar, a gravidade impediu a tripulação de fechar a porta maciça e, às 01:50, a proa já tinha atingido um ângulo que permitia a passagem da água do mar para o corredor.

Às 02:18 da manhã, 13 minutos depois do último barco salva-vidas ter partido, a proa encheu-se de água e a popa ganhou altura suficiente para expor as hélices e criar tensões com níveis catastróficos na zona central do navio. Depois, o Titanic partiu-se ao meio.

Uma vez libertada da secção da popa, a proa mergulhou para o fundo do oceano com um ângulo íngreme, caindo na lama com uma força tão grande que os seus padrões impacto ainda são visíveis no fundo do mar.

A popa, sem uma forma hidrodinâmica como a proa, inclinou-se e afundou em espiral, durante mais de 3 km, até ao fundo do oceano. Os compartimentos explodiram. O convés desfez-se. As peças mais pesadas, como as caldeiras, caíram a pique, enquanto que outras foram espalhadas pelo abismo.

Naufrágio
Durante décadas, várias expedições tentaram encontrar sem sucesso o Titanic – um problema agravado pelo clima imprevisível do Atlântico Norte, a enorme profundidade a que o navio se encontra e os relatos contraditórios dos seus momentos finais. Finalmente, 73 anos depois de afundar, o destino final do Titanic foi localizado por Robert Ballard, Explorador National Geographic, juntamente com o cientista francês, Jean-Louis Michel, no dia 1 de setembro de 1985. O Titanic encontrou a sua zona de repouso final 612 km a sudeste de Terra Nova, em águas internacionais. (Veja como um projeto militar clandestino conduziu à descoberta do Titanic.)

Nos anos que se seguiram à expedição de Ballard, os visitantes do local deixaram as suas marcas: lixo moderno pela área, e alguns especialistas afirmam que os submersíveis utilizados nessas visitas danificaram o navio. Os processos orgânicos também estão a destruir incansavelmente o Titanic: os moluscos devoraram a maior parte da madeira do navio, enquanto que os micróbios corroem o metal exposto, formando estruturas que parecem gelo.

"Todas as pessoas têm a sua própria opinião sobre o tempo que o Titanic pode permanecer mais ou menos intacto”, disse Bill Lange, especialista no Instituto Oceanográfico de Woods Hole, no Massachusetts.

"Algumas pessoas acreditam que, dentro de um ano ou dois, a proa vai entrar em colapso", disse Lange. "Mas outras dizem que vai ficar lá durante centenas de anos."

O que se perdeu
A bordo da viagem inaugural do Titanic, entre passageiros e tripulação, estavam mais de 2.000 pessoas, mas só sobreviveram 706.

E apesar de o transatlântico poder transportar 3.511 passageiros, o Titanic só tinha barcos salva-vidas para 1.178 pessoas. Para piorar a situação, durante a evacuação desesperada do navio condenado, nem todos os salva-vidas partiram completamente lotados. Grande parte das 1.500 vítimas do Titanic morreu de hipotermia na superfície gelada da água. Centenas de pessoas também podem ter morrido dentro do navio, enquanto este afundava. E grande parte dessas pessoas eram famílias de imigrantes que viajavam em classe económica à procura de uma vida nova na América.

Juntamente com as vidas que se perderam, a tragédia do Titanic também mudou a perspetiva das pessoas – à medida que a Europa se mobilizava em direção à guerra, a ilusão de ordem, a crença no progresso tecnológico e o desejo de um futuro melhor foram substituídos pelos receios e horrores que tão bem conhecemos atualmente.

"O infortúnio do Titanic foi o rebentar de uma bolha", disse o cineasta James Cameron. “Durante a primeira década do século XX, havia um sentimento generalizado de progresso. Elevadores! Automóveis! Aviões! Rádio sem fios! Parecia tudo maravilhoso, uma espiral ascendente que parecia não ter fim. Depois, desabou tudo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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