História

Angola: Príncipe Harry Junta-se aos Esforços Para Erradicar Minas Terrestres

A limpeza de minas na região do Okavango está a dar origem a uma nova era de proteção de vida selvagem e ecoturismo, num dos últimos lugares selvagens do mundo.quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Angola viu as suas terras fortemente minadas durante as décadas de guerra civil. Agora, o governo fez uma parceria com conservacionistas para limpar dois parques nacionais, na esperança de atrair vida selvagem e turistas. Especialistas da HALO Trust, uma organização de remoção de minas, extraem minuciosamente as minas terrestres para as detonar remotamente.
Angola viu as suas terras fortemente minadas durante as décadas de guerra civil. Agora, o governo fez uma parceria com conservacionistas para limpar dois parques nacionais, na esperança de atrair vida selvagem e turistas. Especialistas da HALO Trust, uma organização de remoção de minas, extraem minuciosamente as minas terrestres para as detonar remotamente.

Ao início da manhã, em finais de setembro, o zumbido de um detetor de metais interrompe o silêncio da floresta. Um homem com um escudo facial de plástico e um colete azul blindado está a examinar uma faixa com um metro de largura, marcando cuidadosamente a segurança do trajeto com paus e etiquetas vermelhas: o interior deste trilho é seguro, o exterior é potencialmente mortal. Esta operação decorre num antigo campo de batalha, numa região remota do sudeste de Angola, onde há quase 20 anos as tropas rebeldes travaram as suas últimas batalhas na guerra civil. Hoje, é um parque nacional repleto de minas terrestres. A espreitar por cima do ombro do especialista em remoção de minas está o príncipe Harry, duque de Sussex.

Angola, que tem mais de 1 milhão de km quadrados ao longo da costa oeste de África, foi minada durante os seus 27 anos de guerra civil. Em 2002, quando os conflitos terminaram, o país duplicou a sua produção de petróleo, negligenciando os vastos parques e a sua rica biodiversidade. Agora, com a queda dos preços do petróleo, o país começou a virar as suas atenções para os conservacionistas e turistas. Em junho, o governo prometeu 55 milhões de euros para a primeira grande operação de desminagem de uma área protegida. Durante os próximos 3 anos, uma ONG de remoção de minas, a HALO Trust, vai limpar este campo de minas (e outros 152) ao longo de quase 78.000 km quadrados, nos Parques Nacionais do Luengue-Luiana e Mavinga. Estes trabalhos têm como objetivo começar uma nova era de ecoturismo e proteção, numa das últimas e mais ameaçadas regiões selvagens do planeta.

A sobrevivência do rio Okavango, que vai desde Angola até ao Botsuana e alimenta o ecossistema desta zona africana, também está em jogo – tal como a sobrevivência dos famosos elefantes do continente. Sem um acompanhamento adequado, a remoção de minas pode expor os parques aos caçadores e às grandes empresas, aumentando ainda mais o perigo para a natureza. Com uma proteção bem gerida, os parques podem vir a ser um dos poucos refúgios de vida selvagem. E os turistas que costumam passar férias de luxo nos países vizinhos podem começar a fazer aqui os seus safaris. Mas, de momento, tanto os animais como os turistas sabem que as condições não oferecem segurança.

Esquerda: Em setembro, o príncipe Harry percorreu um campo que tinha sido desminado recentemente, em Dirico, seguindo os passos da sua mãe na tentativa de erradicar as minas.
Direita: Em 1997, a princesa Diana passeava pela cidade do Huambo, em Angola, que tinha sido fortemente minada durante a guerra. Esta área é agora uma rua principal muito movimentada.
Esquerda: Em setembro, o príncipe Harry percorreu um campo que tinha sido desminado recentemente, em Dirico, seguindo os passos da sua mãe na tentativa de erradicar as minas. Direita: Em 1997, a princesa Diana passeava pela cidade do Huambo, em Angola, que tinha sido fortemente minada durante a guerra. Esta área é agora uma rua principal muito movimentada.

A visita do príncipe Harry a Angola foi a mais pessoal, integrada numa visita a quatro países do sul de África. Há 22 anos, a sua mãe, a princesa Diana, atravessou um campo minado em Angola e trouxe para as luzes da ribalta a questão das minas terrestres que mataram cerca de 88.000 mil pessoas no país. No final desse ano, 122 países assinaram o Tratado de Ottawa, um pacto para livrar o mundo das minas terrestres até 2025.

O local por onde Diana caminhou, onde antigamente existiam minas, na cidade do Huambo, tem agora edifícios novos e uma bela fileira de árvores. O campo minado do príncipe Harry, que fica a uma hora e meia de distância, foi o cenário da pior batalha em África a seguir à Segunda Guerra Mundial. Esta é a província mais minada de Angola. As minas terrestres, colocadas para abrandar os avanços do inimigo, foram deixadas no rescaldo da guerra, continuando a matar e a mutilar muito tempo depois de o confronto ter terminado.

Perto de umas árvores, ministros do governo, embaixadores e doadores abastados  aproximam-se para ver os limites do campo de minas, e para testemunharem o momento histórico: o príncipe Harry agradece ao especialista em remoção de minas e caminha pelo novo trajeto, agora seguro, seguindo os passos dados pela sua mãe há mais de duas décadas atrás. Os sinais de aviso com caveiras a dizer “PERIGO MINAS!” ladeiam o caminho. As fotografias da ocasião foram rapidamente colocadas ao lado da icónica fotografia da Princesa Diana e publicadas nas primeiras páginas do mundo inteiro, atraindo atenções e quiçá os fundos necessários.

Começando nas planícies aluviais de Angola, a água flui até dois rios que convergem para formar o Okavango, que corre depois para a Namíbia e para o Botsuana. E é no Botsuana que o Okavango alimenta uma indústria de turismo no valor de centenas de milhões de euros. O rio transformou a cidade de Maun na capital turística do país. Cerca de 60 lojas e acampamentos recebem os visitantes do delta. Mas Angola – a fonte de tudo – colhe poucas recompensas. A sobrevivência destas economias e ecossistemas, fonte vital para cerca de um milhão de pessoas, depende da proteção da bacia do Okavango.

No dia anterior, no Botsuana, Harry esteve no quintal do seu velho amigo, o Dr. Mike Chase, fundador da Elefantes Sem Fronteiras. Chase vive em Kasane, a porta de entrada para o Parque Nacional de Chobe, e tem uma placa no lado de fora do seu portão que diz "Passagem de Elefantes". Mike Chase cria elefantes órfãos.

Nesse dia, o príncipe acompanhou uma unidade de combate à caça furtiva que patrulhava o rio que divide o Botsuana e a Namíbia. O Botsuana, com as suas enormes áreas protegidas e vários guardas florestais, é considerado há muito tempo um refúgio para os elefantes. Aqui, vivem perto de 130.000 elefantes – um terço dos que restam no continente.

Um elefante-africano a entrar nas planícies aluviais da bacia do Okavango, para se alimentar ao longo do rio. A área da bacia está atualmente desprotegida. Os conservacionistas alertam que a sua preservação é vital para a sobrevivência dos ecossistemas que dependem do rio.
Um elefante-africano a entrar nas planícies aluviais da bacia do Okavango, para se alimentar ao longo do rio. A área da bacia está atualmente desprotegida. Os conservacionistas alertam que a sua preservação é vital para a sobrevivência dos ecossistemas que dependem do rio.

Mas Chase estava preocupado. No início deste ano, a sua organização revelou que o Botsuana tem um problema com a caça furtiva. Vários elefantes foram mortos e as suas presas cortadas – e provavelmente vendidas para o mercado negro asiático. Uma investigação aérea verificou que mais de 100 elefantes tinham sido mortos na região do delta do Okavango; cerca de 90% eram vítimas da caça furtiva. (Estas descobertas têm sido uma fonte de discórdia entre a comunidade conservacionista e o governo).

A aumento da população de elefantes, que tem acontecido graças aos esforços de conservação, obrigou alguns dos animais de 5 toneladas a sair das zonas protegidas. Os habitantes das regiões que não estão acostumadas a partilhar as terras com estes animais entraram em conflito com as criaturas – receando o seu potencial destrutivo. Para piorar as coisas, no início deste ano, o Botsuana suspendeu a sua proibição de caça aos troféus, abrindo o país à caça desportiva. Chase acredita que, para melhorar as coisas, pelo menos 50.000 dos elefantes do Botsuana devem ir para Angola – assim que os parques angolanos estejam prontos para os receber em segurança.

O rio Cuito converge com o rio Cubango, no sul de Angola, e fluem até à Namíbia e Botsuana sob a forma de Okavango.
O rio Cuito converge com o rio Cubango, no sul de Angola, e fluem até à Namíbia e Botsuana sob a forma de Okavango.

“O que nós gostávamos era que os elefantes dessem uma volta de 180 graus e fossem para Angola” disse Chase. “Porque muitos dos nossos elefantes acabam por ser...”, “refugiados”, completa Harry. 

Os elefantes têm dispositivos de identificação e são rastreados por satélite, e os investigadores já observaram que, quando os animais chegam à fronteira, no norte do Botsuana, regressam para trás. Aparentemente, sentem o perigo das minas e dos caçadores furtivos. “Não é possível selecionar aleatoriamente os elefantes mais perto da fronteira angolana e dizer que estes querem ir para casa. A única forma de o fazer é abrindo um corredor que seja seguro. Os elefantes não vão a lado nenhum se não se sentirem em segurança.”

Em 2002, depois de a guerra acabar, Angola avaliou os danos. As batalhas eram perigosas para os animais selvagens apanhados no fogo cruzado, mas mantinha os caçadores afastados. Chase, na altura um jovem investigador, viu os elefantes a iniciarem “uma longa caminhada rumo à liberdade”, começando no Botsuana, passando pela Namíbia e acabando em Angola, mas foram rapidamente perseguidos pelos caçadores furtivos. Chase acredita que os elefantes vão regressar. "Estou confiante de que Angola é a terra prometida para a vida selvagem e para os elefantes do Botsuana. Caso contrário, é um mau sinal. Se não conseguirmos salvar o elefante-africano, qual é o futuro da vida selvagem em África?"

No pós-guerra de Angola, tem sido difícil para os ambientalistas competir pelos financiamentos, dado que são divididos por outras questões humanitárias – desde a assistência médica à ajuda alimentar. Durante vários anos, os postos ambientais foram atribuídos aos partidos da oposição e caíram no esquecimento, diz Vladimir Russo, um influente ambientalista angolano. Restam apenas algumas ONG de educação e conservação ambiental. Mas, recentemente, o governo assumiu novos compromissos, incluindo a promessa dos 55 milhões de euros para a remoção das minas.

Vladimir Russo diz que a desminagem é apenas o começo. “Se começarmos a degradar áreas e a abrir corredores para os animais e para as pessoas – mas se não tivermos patrulhas – vamos assistir ao regresso da extinção dos animais. Enquanto falamos, os elefantes estão a morrer.” Proteger efetivamente a vida selvagem nestas áreas remotas exige patrulhas bem treinadas para detetar os caçadores, e também exige aviões, drones e veículos que consigam lidar com o terreno acidentado. Russo acredita que o governo angolano não consegue fazer isso tudo sozinho – a não ser que tenha a ajuda de uma organização internacional como a African Parks, que administra parques com problemas no continente africano. (Descubra como a caça furtiva está a fazer com que os elefantes percam evolutivamente as suas presas.)

O governo angolano está a debater as suas opções de parceria, enquanto começa a lidar com a situação na região sudeste. Ao mesmo tempo, o petróleo – a principal exportação do país – vê o seu preço a cair. O governo encara esta região como uma forma para diversificar a sua economia com o ecoturismo. “Como é que conseguimos lucros sem danificar o ambiente?”, pergunta a Dra. Paula Coelho, ministra do Ambiente de Angola. Em setembro, o governo criou uma nova agência para garantir que a região do Okavango tem proteção e consegue ser lucrativa. Paula Coelho diz que a região vai precisar de tudo, desde fontes de energia renovável a programas de educação locais e acampamentos turísticos.

Atualmente, não se sabe qual é vida selvagem que ainda permanece nestes parques. Um estudo de 2016 estimava que restavam apenas entre 10 a 30 leões, e que provavelmente também existem chitas, elefantes e outros mamíferos de grande porte. Está em andamento um inventário nacional sobre a vida selvagem, diz Paula Coelho, que recentemente ficou surpreendida quando soube que as girafas estavam a mudar-se para os parques.

Os Parques Nacionais de Luengue-Luiana e de Mavinga, que serão alvo da remoção de minas durante os próximos 3 anos, fazem parte da Área de Conservação Transfronteiriça Kavango-Zambeze (KAZA). Esta iniciativa transfronteiriça, formada em 2011, abrange parques nacionais de 5 países e é uma das maiores áreas protegidas do mundo.

"O governo angolano está a criar condições para as comunidades locais conseguirem beneficiar mais diretamente da vida selvagem", diz Kai Collins, diretor do Okavango Wilderness Project da National Geographic, que passou 5 anos a pesquisar o ecossistema do rio. A norte dos dois parques nacionais da KAZA em Angola, encontra-se a fonte vital e desprotegida da África austral: a grande bacia do Okavango. É aqui que o rio Okavango começa. Para já, esta bacia está ameaçada pela extração de recursos naturais, pelas minas terrestres e pelos novos projetos de desenvolvimento. Os animais estão a morrer devido à sua carne de caça e aos grandes incêndios que lavram pela região. Para remover todas as minas destes campos, em torno dos sistemas fluviais que alimentam o delta, são necessários 55 milhões de euros adicionais, diz Collins.

O príncipe Harry usou a sua visita para incentivar o público internacional a não deixar o trabalho de proteção do Okavango a meio. Na noite anterior, algumas dezenas de convidados dormiram num luxuoso acampamento perto do rio Cuito, a poucos quilómetros do campo de minas. Se esta noite fosse um teste para o turismo, correu muito bem. Mas a logística demorou meses a ser organizada. De momento, a forma mais fácil de entrar na região – para além de um avião particular – é ir de barco a partir da Namíbia. As estradas são tão acidentadas que os próprios veículos de tração às quatro rodas têm problemas de navegação e são frequentemente resgatados por camiões grandes.

Mas é fácil perceber o potencial do turismo de aventura: os visitantes poderiam dormir em tendas perto das margens do rio, não muito longe de onde um crocodilo de quase 3 metros foi avistado recentemente. E poderiam desfrutar de uma estadia sem poluição luminosa, com o céu repleto de estrelas.

Na manhã seguinte, pouco depois de ter percorrido o campo de minas, o príncipe Harry, perante os seus convidados, fez um apelo: "Tal como estes rios se estendem ao longo de quilómetros, também este projeto se deve estender muito para além de onde estamos. Grande parte desta bacia crucial precisa de se livrar das minas terrestres.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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