Basquetebol em Cadeira de Rodas Mudou a Vida Destas Mulheres

Quando a equipa feminina de basquetebol em cadeira de rodas do Camboja se dirigia para a sua primeira grande competição internacional, as vitórias surgiram fora de campo.terça-feira, 29 de outubro de 2019

Por Didem Tali
Fotografias Por Lauren DeCicca

Em Banguecoque, na Tailândia, num estádio apinhado, Sieng Sokchan cerrou os punhos e aguardou ansiosamente pelo anúncio para o qual tinha trabalhado durante anos: “Senhoras e senhores, as equipas de basquetebol feminino em cadeira de rodas que vão participar nos Jogos Paralímpicos Asiáticos de 2018 são: China, Japão, Tailândia, Irão, Afeganistão e Camboja.”

Sieng abraçou e congratulou as suas colegas de equipa, que estavam sentadas ao seu lado em cadeiras de rodas, todas envergando equipamentos de basquetebol em tons de azul e vermelho – as cores da bandeira do Camboja. Dali a 7 meses, iriam viajar para Jacarta, na Indonésia, para representar o seu país nos Jogos Paralímpicos Asiáticos, onde cerca de 3000 atletas de 43 nações iriam competir em 18 modalidades.

Enquanto capitã e treinadora, Sieng iria liderar a equipa de 12 mulheres na sua primeira grande competição internacional, um empreendimento assustador mesmo nas melhores circunstâncias. Mas estas jogadoras também enfrentam enormes desafios fora dos campos – pobreza e dificuldades de mobilidade que variam entre resistência limitada, paralisia parcial e falta de recursos desportivos.

"Treinar mulheres a este nível não tem sido fácil", disse Sieng, de 37 anos e mãe solteira de dois filhos. "Todos nós temos lutas diferentes e temos de trabalhar mais do que todos os outros para as superar."

O Banco Mundial classifica o Camboja como um dos países mais pobres e menos desenvolvidos do mundo. No Camboja, 10% da população sofre de algum tipo de deficiência; o país também tem o maior número de amputados no mundo per capita. Quarenta anos depois do colapso do Khmer Vermelho, os efeitos do seu regime sangrento ainda deixam marcas – milhões de minas terrestres plantadas ao longo da fronteira com a Tailândia continuam a devastar as comunidades locais, incluindo Battambang, a cidade natal de Sieng.

Rosas e basquetebol
Não foram as minas terrestres que provocaram a lesão que paralisou Sieng aos 11 anos de idade. Foram as tensões políticas que ainda hoje atormentam o Camboja.

“Era o feriado de ano novo do Khmer e a minha família estava fora. Mas eu fiquei para ajudar a minha avó que estava a vender legumes e mel no mercado. Naquele dia, chovia intensamente. Esperámos no mercado até às 6 da tarde para a chuva parar.”

As eleições tinham terminado recentemente e existiam vários protestos no centro da cidade de Battambang. E quando estava a caminho de casa com a avó, Sieng foi atingida 3 vezes por algo que pareciam bastões. Mas eram tiros: um manifestante começou a disparar e 3 das balas acabaram nas suas costas.

E apesar de Sieng ter sido rapidamente transportada para o hospital, só foi tratada uma semana depois. O hospital estava cheio de soldados feridos e a sua família não tinha dinheiro.

Quando as balas foram finalmente removidas, Sieng teve dificuldades em sobreviver. Os médicos esperaram tempo demais: a sua coluna estava danificada. Sieng nunca seria capaz de andar ou mexer as pernas novamente.

Esta aluna brilhante acabou por desistir da escola. No ano seguinte, a sua mãe morreu em trabalho de parto.

“Os pensamentos negativos pairavam muitas vezes sobre a minha cabeça. Sentia-me zangada, mas não tinha ninguém com quem desabafar”, diz Sieng.

Foi então que, através do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), organização humanitária que trabalha na reabilitação de comunidades afetadas por conflitos armados, Sieng conheceu o basquetebol em cadeira de rodas. A primeira vez que encestou, ficou eufórica. Nunca tinha sentido uma sensação de conquista como aquela.

Ao ver a paixão e o entusiasmo de Sieng pelo desporto, Jess Markt, atleta paralímpico e consultor do CICV, recrutou-a para reunir e treinar uma equipa feminina de basquetebol em Battambang. Em poucas semanas, Sieng começou a conhecer outras mulheres em cadeiras de rodas, incluindo Tao Chanda, que se tornou uma amiga íntima.

Tal como Sieng, também Tao Chanda, de 34 anos, nasceu pobre e sem acesso a cuidados médicos adequados. Mas, ao contrário de Sieng, nunca andou na vida. Quando Tao tinha 1 ano de idade, teve uma febre alta que a deixou inconsciente durante alguns dias. As suas pernas nunca se desenvolveram na totalidade; e também contraiu poliomielite. Tao só conseguiu a sua primeira cadeira de rodas na adolescência. Antes disso, gatinhava para onde precisava.

Agora, adora a cadeira de rodas: “É tão fácil mover-me para todo o lado.”

Sieng e Tao passaram vários a anos a odiar os seus corpos, ressentindo-se pelo que tinha acontecido. Mas cada vez que a bola atravessava o aro, cada drible e todas as lutas – partilhadas durante a hora de almoço com as companheiras de equipa – fê-las perceber que ainda tinham força no corpo e que eram capazes de feitos extraordinários.

A equipa autodenominou-se Battambang Roses e usa equipamentos amarelos mostarda para representar a arquitetura da cidade. Durante anos, praticaram num campo com aros de madeira velhos, rodeadas de árvores e coqueiros. As flores que caíam frequentemente das árvores e que se amontoavam no asfalto carregavam o ar com o seu aroma.

A jogar debaixo das fortes chuvadas da monção, ou com um calor tropical sufocante, as Battambang Roses começaram gradualmente a dar nas vistas – tanto que, quando o Comité Paralímpico Nacional do Camboja formou uma equipa feminina de basquetebol em cadeira de rodas, 7 das 12 jogadoras selecionadas eram das Battambang Roses.

Momo, sopa e sorte
De regresso a Battambang, depois dos jogos de qualificação, a alegria transformou-se em ansiedade. As responsabilidades de Sieng tinham aumentado – e tinham menos de 6 meses para se preparar.

"Às vezes, existem discussões e ciúmes dentro da equipa", disse Sieng durante um treino intenso. “Mas digo às minhas jogadoras que somos mulheres pobres e deficientes. A sociedade onde vivemos já nos discrimina. Temos de ser melhores umas com as outras. Se não nos amarmos e entreajudarmos, ninguém o fará.”

Um mês antes dos jogos de 2018, o Comité Paralímpico Nacional do Camboja convidou as Battambang Roses para Phnom Penh, a capital, onde a equipa começaria a praticar em instalações profissionais.

“Quando comecei a praticar este desporto, sonhava em competir fora do Camboja. E esse sonho tornou-se agora realidade”, disse Sieng a sorrir enquanto preparava a mala. A sua pequena casa, que partilha com os seus dois filhos, fica na área rural exuberante de Battambang. Sieng ia para o campo de basquetebol por estradas enlameadas, numa cadeira de rodas motorizada que herdou de um amigo que tinha falecido recentemente.

"Mas é difícil viajar na minha condição. Está a ver?” disse Sieng, enquanto apontava para a sua mala de viagem. “Mais de metade da mala está cheia de fraldas. Não existem instalações adequadas para cadeiras de rodas.”

A vizinha de Sieng prometeu cuidar dos seus filhos enquanto estivesse fora. O filho mais velho, com 16 anos, também teria responsabilidades em relação ao irmão mais novo, um miúdo de 5 anos cheio de vida que Sieng chama carinhosamente de Menino Porco. Porém, Sieng sentia-se triste a dizer adeus aos filhos, e o filho mais novo estava em lágrimas agarrado à mãe.

Depois de um intenso programa de treinos em Phnom Penh, 7 das Battambang Roses, agora a representar o Camboja, seguiram de avião para Jacarta. Durante o voo, cantaram canções folclóricas e bênçãos budistas. Sieng disse que rezaram para que o regresso a casa fosse acompanhado com medalhas, pedindo o primeiro, o segundo ou o terceiro lugar nos Jogos Paralímpicos.

A enorme cidade de Jacarta, que estava a organizar um dos eventos desportivos mais importantes do ano, pulsava de energia. A mascote, Momo, uma águia Elang bondol, cujo nome significa "motivação e mobilidade", estava em todos os cantos da cidade, às vezes numa cadeira de rodas ou com uma perna amputada.

Na Aldeia Olímpica, no pequeno quarto que partilhava com Tao, Sieng disse: “Todas as equipas que chegaram até aqui são fortes. Sinto que demos o nosso melhor, mas vamos ver o que acontece.”

A equipa perdeu o primeiro jogo contra o Irão. O resultado ficou em 18 contra 86.

No jogo seguinte, iam defrontar um adversário imponente – a China, que já tinha derrotado o Irão por 94 a 18. Antes da partida, Sieng disse que não esperava conseguir fazer muito contra um país que tem 1.4 mil milhões de habitantes. O Camboja tem 16 milhões – algumas cidades chinesas têm mais do que isso.

“Elas têm muito mais recursos do que nós. Treinam todos os dias em instalações profissionais. São mais altas e têm dinheiro.”

A China venceu o jogo por 116 a 14. Nos balneários, Sieng aproximou-se da capitã chinesa e apertou-lhe a mão. "Bom jogo", disse Sieng, sem mostrar vestígios de amargura. "Parabéns", acrescentou, usando as poucas frases que sabia em inglês.

No autocarro de regresso à Aldeia Olímpica, as jogadores não cantaram o seu alegre folclore. Tao Chanda encostou a cabeça à janela e cobriu o rosto com um xaile.

"Chanda, Chanda”, disse Sieng. "Ainda não acabou. Ainda podemos competir pelo terceiro lugar. Estamos a aprender muitas técnicas novas com as nossas adversárias.”

As saudades de casa, o choque cultural e o stress começaram a vir ao de cima. Algumas jogadoras adoeceram, e muitas não se conseguiam adaptar à comida.

“Nós comemos muita sopa em casa, mas na Indonésia não gostam muito de sopa”, disse Sieng.

Mas o Camboja perdeu o jogo seguinte, desta feita contra a vizinha Tailândia – 24 a 60.

O último jogo, contra o Afeganistão, que a equipa também perdeu (36 a 54), marcou o fim dos Jogos Paralímpicos Asiáticos. A seleção do Camboja foi a que menos pontos marcou, ficando assim em último lugar.

Nessa noite, na Aldeia Olímpica, as jogadoras recolheram todas silenciosamente para os seus quartos, para fazer as malas e preparar a viagem de regresso a casa. Sieng e Tao analisaram as imagens dos jogos para ver onde podiam melhorar.

Na manhã seguinte, o ambiente estava sereno. As duas amigas não tinham medalhas, mas Sieng tinha levado outras medalhas para dar sorte. Nas rondas de qualificação, e em outros jogos, tinham vencido muitas equipas poderosas, incluindo a Índia, a Coreia do Sul e o Laos.

“Acho que somos vencedoras na mesma”, disse Sieng exibindo as medalhas. “Mostrámos às pessoas o poder e o talento das mulheres com deficiências.”

Durante a sua jornada de basquetebol, viajaram até ao estrangeiro, apareceram na comunicação social e conheceram a rainha do Camboja. E pessoas desconhecidas pediam muitas vezes a Sieng para tirar selfies.

Sieng e Tao continuam a praticar um desporto que amam, com mulheres a quem agora chamam de irmãs. Têm famílias que as amam e o Menino Porco mal podia esperar para beijar e abraçar a sua mãe.

“O início da minha vida foi muito difícil”, disse Tao, “eu nunca pensei vir a ter tanta sorte.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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