História

Como Mahatma Gandhi Mudou os Protestos Políticos

A resistência não-violenta de Gandhi ajudou a acabar com a governação britânica na Índia e influenciou movimentos de desobediência civil por todo o globo.sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Por Erin Blakemore
Mahatma – que em sânscrito significa grande alma ou santo – Gandhi ajudou a Índia a alcançar a independência através de uma filosofia de não cooperação não violenta.

Gandhi já foi chamado de “pai da Índia” e “grande alma em vestes de mendigo”. A sua abordagem não-violenta à mudança política ajudou a Índia a conquistar a independência depois de quase um século de domínio colonial britânico. Homem frágil com vontade de ferro, plantou os pilares para os futuros movimentos sociais. Mahatma Gandhi continua a ser uma das figuras mais veneradas da história contemporânea.

Nascido com o nome de Mohandas Gandhi, em Gujarat, na Índia, em 1869, a sua família fazia parte da elite. Depois de um período de rebeldia adolescente, deixou a Índia para estudar direito em Londres. Mas antes de partir, prometeu à mãe que se iria voltar a abster de sexo, carne e álcool, na tentativa de adotar uma moral hindu mais rigorosa.

Um retrato de Gandhi na juventude.

Em 1893, aos 24 anos, recém-formado em direito, mudou-se para a colónia britânica de Natal, no sudeste de África, para exercer advocacia. Natal era o lar de milhares de indianos cujo trabalho tinha ajudado a construir a riqueza da colónia, mas aqui promovia-se a discriminação formal e informal contra as pessoas de ascendência indiana. Gandhi ficou chocado quando foi expulso dos vagões dos comboios, agredido por utilizar a via pública e segregado dos passageiros europeus numa diligência.

Em 1894, Natal retirou a todos os indianos o direito ao voto. Gandhi organizou a resistência indiana, lutou contra a legislação anti-indiana nos tribunais e liderou enormes protestos contra o governo colonial. Ao longo deste processo, desenvolveu uma personagem pública e uma filosofia de cooperação não-violenta, focada na verdade, a que chamou de Satyagraha.

Em 1915, Gandhi levou a filosofia Satyagraha para a Índia e foi rapidamente eleito para o partido político do Congresso Nacional indiano. Gandhi começou a pressionar para a Índia ser independente do Reino Unido e organizou a resistência que se opôs a uma lei de 1919 – que conferia carta branca às autoridades britânicas para prender todos os suspeitos revolucionários sem julgamento. A Grã-Bretanha respondeu brutalmente à resistência, matando entre até 1000 manifestantes desarmados no Massacre de Jallianwala Bagh.

Gandhi focou-se ainda mais na independência, incentivando boicotes aos bens britânicos e organizando protestos em massa. Em 1930, iniciou uma campanha maciça de Satyagraha contra uma lei britânica que obrigava os indianos a comprar sal britânico em vez de o produzirem localmente. Gandhi organizou uma marcha de protesto com quase 390 km até à costa oeste de Gujarat, onde ele e os seus acólitos colhiam sal nas margens do Mar Arábico. Em resposta, a Grã-Bretanha prendeu mais de 60.000 manifestantes pacíficos e, inadvertidamente, gerou ainda mais apoio em torno do conceito de um governo local.

Em 2013, em Rajkot, Gujarat, onde Gandhi passou a maior parte da sua infância, as crianças vestiram-se como o lendário ativista para comemorar o que seria seu 144º aniversário. Este ano marcará o 150º aniversário de Gandhi.

Por esta altura, Gandhi já se tinha tornado num ícone nacional e era amplamente conhecido como Mahatma, sânscrito para grande alma ou santo. Preso durante um ano devido à Marcha do Sal, tornou-se mais influente do que nunca. Gandhi protestou contra a discriminação enfrentada pelos intocáveis, a casta mais baixa da Índia, e negociou sem sucesso a existência de um governo local na Índia. Sem se deixar abalar por este revés, iniciou o Movimento Desistir da Índia, uma campanha para tentar fazer com que a Grã-Bretanha se retirasse voluntariamente da Índia durante a Segunda Guerra Mundial. Mas os britânicos recusaram e prenderam-no novamente.

Após a sua detenção, seguiram-se manifestações enormes. E apesar de as autoridades britânicas terem detido mais de 100.000 manifestantes, a balança começou finalmente a inclinar-se para a independência da Índia. Um Gandhi debilitado foi libertado da prisão em 1944, e a Grã-Bretanha começou a fazer planos para se retirar do subcontinente indiano. Para Gandhi, que se opunha à partição da Índia e tinha tentado reprimir a animosidade hindu-muçulmana e os tumultos mortais de 1947, a sensação foi agridoce.

Gandhi não conseguiu viver para ver uma Índia independente; foi assassinado por um extremista hindu no dia 30 de janeiro de 1948. Na sua enorme procissão fúnebre marcharam mais de 1.5 milhões de pessoas.

Após o assassinato de Gandhi, em 1948, as crianças subiram para cima dos carros e os homens escalaram os postes de comunicações para conseguir ver a procissão fúnebre, na qual participaram mais de 1.5 milhões de pessoas.

Espirituoso e inabalável, Gandhi alterou a face da desobediência civil no mundo inteiro. Martin Luther King Jr. usou as suas táticas durante o Movimento dos Direitos Civis, e o Dalai Lama inspirou-se nos seus ensinamentos – que ainda são venerados por aqueles que procuram promover a mudança sem violência.

Mas, embora o legado de Gandhi ainda tenha eco na atualidade, há quem se questione se devia ser venerado. Entre alguns hindus indianos, por ter abraçado os muçulmanos, continua a ser uma personagem controversa. Outros perguntam se Gandhi fez o suficiente para desafiar o sistema de castas indiano. E também foi criticado por apoiar a segregação racial entre sul-africanos negros e brancos e por fazer comentários depreciativos sobre os negros. E, apesar de Gandhi apoiar os direitos das mulheres em alguns aspetos, também se opôs à contraceção e convidou raparigas para dormirem nuas na sua cama, para testar o seu autocontrolo sexual.

Mohandas Gandhi, o homem, era complexo e imperfeito. No entanto, Mahatma Gandhi, a figura pública, deixou uma marca indelével na história da Índia e no exercício da desobediência civil pelo mundo inteiro. "Quando eu partir, ninguém me poderá representar completamente", disse Gandhi. “Mas um pouco de mim viverá em muitos de vocês. Se cada um colocar a causa em primeiro e o eu em último, o vazio será em grande parte preenchido.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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