Fascínio Intemporal de Amelia Earhart

A aviadora desaparecida abraçou o mundo moderno – na tecnologia, nos direitos das mulheres e no culto da celebridade.quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Por Rachel Hartigan Shea

Alex Mandel conheceu a história de Amelia Earhart durante uma tarde de verão, enquanto lia revistas antigas do seu pai, no quintal da casa onde viveu durante a infância, em Odessa, na Ucrânia. "Era apenas uma pequena biografia de Amelia com uma história sobre o seu desaparecimento", disse Alex. Mas foi o suficiente.

Mandel diz que é admirador de Amelia Earhart há 30 anos e conheceu uma admiradora – e alma gémea – através do que chama "comunidade Amelia". Com a sua alma gémea, fez uma peregrinação a todos os locais importantes da vida de Earhart. Atualmente, Alex planeia as suas férias em torno do Festival Amelia Earhart que decorre anualmente em Atchison, no Kansas – onde os admiradores da aviadora se reúnem para celebrar todas as coisas Amleia na cidade onde ela nasceu, e os habitantes locais vêm para apreciar o espetáculo aéreo e o fogo de artifício.

Durante o evento feito em julho deste ano, o ucraniano, de bigode e suspensórios, partilhou o seu conhecimento considerável com os visitantes do museu do local de nascimento de Earhart. Quando lhe perguntaram porque é a aviadora o motivava há tanto tempo, a sua resposta foi simples: "Ela foi uma inspiração".

Embora a distância que Mandel viajou para alimentar o seu fascínio seja invulgar, a sua admiração por Earhart não é. A aviadora conseguiu manter a atenção coletiva do mundo durante quase um século – desde 1928, quando foi a primeira mulher a sobrevoar o Atlântico como passageira (um feito que desafiava a morte na época) até agosto passado, quando Robert Ballard conduziu uma investigação de alta tecnologia à procura do seu avião perdido.

No entanto, Earhart não foi a única piloto ousada que quebrou recordes durante os primeiros dias da aviação. Ruth Nichols voou mais rápido. Louise Thaden voou mais alto. E assim sendo, porque razão é que Earhart é a única aviadora que ainda captura a nossa imaginação?

De uma certa forma, nasceu para isso. O primeiro voo a atravessar o Atlântico – num avião chamado Friendship – foi financiado por Amy Phipps Guest, uma mulher abastada cuja família implorou para ela não fazer o voo só com homens. Em vez disso, Amy Guest contratou o editor George Putnam para encontrar uma companheira adequada. "Havia outras mulheres a pilotar na época, provavelmente melhores do que Amelia", diz Cynthia Putnam, neta de George. “Mas Amelia preenchia os requisitos, parecia feita para aquilo.” (Amelia Earhart e o editor George Putnam casaram em 1931.)

Alta e magra, Earhart fazia lembrar Charles Lindbergh, o primeiro aviador a sobrevoar sozinho o Atlântico. "Ela foi fotografada antes do primeiro voo com a mesma iluminação e de um ângulo muito estilizado, para se parecer com a forma como Charles Lindbergh tinha sido fotografado", diz Tracey Jean Boisseau, historiadora na Universidade de Purdue. "Eles começaram a chamar-lhe Lady Lindy, mas ela não gostava."

Quando o Friendship aterrou em Londres, o piloto e o navegador do avião foram ignorados pela multidão. Embora Earhart tivesse sido apenas uma passageira ou, como ela dizia, "um saco de batatas", recebeu todos os elogios. Amelia capitalizou na experiência e escreveu um livro, tornando-se no rosto público do novo campo da aviação.

Porém, Earhart estava determinada em merecer os elogios e provar – aos homens e às mulheres – que as mulheres conseguiam atingir os mesmos feitos que os homens. “Quanto mais feitos de aviação forem realizados por mulheres”, escreveu Amelia, "mais fortemente ficará demonstrado que conseguimos e que sabemos voar". Quatro anos depois do voo do Friendship, Earhart atravessou sozinha o Atlântico, tornando-se na segunda pessoa a fazê-lo.

Earhart aterrou perto de Derry, na Irlanda do Norte, onde a sua chegada deixou uma marca indelével e que, segundo a Associação de Legados Amelia Earhart da cidade,  teve repercussões para além da aviação. "As mulheres não conduziam na época, mas Amelia chegou aqui num avião", explicou Nicole McElhinney, membro do grupo que discursou no Festival Amelia Earhart este verão. “As mulheres não usavam calças, mas ela usava um fato de piloto.” (De facto, os agricultores que a encontraram pensavam que era um rapaz.) Numa altura em que o sufrágio feminino ainda era recente, Amelia demonstrou o que as mulheres podiam fazer.

"Amelia queria igualdade no casamento, oportunidades iguais em todas as profissões e salários iguais para trabalhos iguais", diz Amy Kleppner, que aceitou um prémio no festival em nome da sua mãe, Muriel, irmã mais nova de Earhart.

Talvez por isso Amelia pareça tão moderna. Foi pioneira na luta pela igualdade das mulheres, no desenvolvimento mundial da aviação e na criação de uma imagem pública – durante uma nova era do culto da celebridade. E fez tudo isto com uma modéstia extraordinária, sugerindo que qualquer pessoa podia fazer o mesmo, desde que o fizesse "por diversão".

"Amelia tinha muitos valores e princípios que eram bons para as pessoas em geral, e para os americanos em particular", diz Mandel.

Porém, a razão pela qual Amelia Earhart ainda é um ícone pode dever-se ao facto de ter desaparecido sem deixar vestígio, quando estava muito perto de uma conquista histórica. "Ela não morreu de velhice, não morreu de doença, não morreu perante os nossos olhos", diz Boisseau. "Ela morreu da forma mais propícia à construção de uma lenda – longe da vista e envolta em mistério.”

No dia 2 de julho de 1937, Earhart e o seu navegador, Fred Noonan, desapareceram enquanto se tentavam tornar nos primeiros aviadores a circum-navegar o globo pelo equador. Eles estavam à procura da Ilha Howland, uma ilha minúscula no Pacífico, mas não a encontraram. E estavam quase a terminar a sua jornada recorde.

Várias gerações têm-se questionado sobre o que aconteceu realmente a esta pioneira. Será que se despenhou e afundou no oceano? Será que aterrou numa ilha deserta e morreu como náufraga? Será que foi capturada pelos japoneses? Amelia foi procurada debaixo de água e em várias ilhas desertas, nos arquivos coloniais e nos subúrbios de Nova Jersey – e até no porão da sua casa de infância. Mas, até agora, não existem respostas definitivas.

“O mistério faz parte da razão pela qual, sempre que mencionamos mulheres importantes, Amelia Earhart vem sempre ao de cima”, diz Jacque Pregont, que coordena o festival em Atchison. “Espero que nunca a encontrem.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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