Jerusalém: Descoberta Estrada Construída por Vilão da Bíblia

A rua que há 2000 anos levava os peregrinos até ao templo judaico pode ter sido encomendada pelo governador romano Pôncio Pilatos.quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Para revelar uma antiga rua de Jerusalém, arqueólogos e engenheiros israelitas estão a construir um túnel por baixo de um bairro palestiniano.
Para revelar uma antiga rua de Jerusalém, arqueólogos e engenheiros israelitas estão a construir um túnel por baixo de um bairro palestiniano.
fotografia de SIMON NORFOLK, NATIONAL GEOGRAPHIC

Pôncio Pilatos é um homem que muitos judeus e cristãos adoram odiar. Para os cristãos, o governador romano da Judeia desempenhou um papel fundamental na execução de Jesus, por volta de 30 d.C. Para os judeus, Pilatos era um governante insensível que preparou o terreno para a rebelião que levou à destruição de Jerusalém quatro décadas mais tarde.

Mas esta nova descoberta sugere que Pilatos também perdeu muito tempo e dinheiro a embelezar a famosa cidade que atraiu peregrinos judeus, bem como visitantes de todo o Império Romano.

Os arqueólogos israelitas que estão a abrir o túnel por baixo do bairro palestiniano, a sul das muralhas de Jerusalém, estão a descobrir uma rua monumental que segue até ao Monte do Templo, a plataforma sagrada que antigamente abrigava o Templo Judaico e que agora é um dos locais mais sagrados do Islão.

Este trajeto impressionante estendia-se ao longo de mais de 500 metros, tinha 8 metros de largura e mais de 10.000 toneladas de lajes de calcário. "Acreditamos que foi um projeto único e que foi construído de seguida", diz Joe Uziel, o arqueólogo da Autoridade de Antiguidades de Israel encarregado deste empreendimento. Uziel e a sua equipa publicaram recentemente as suas descobertas no Tel Aviv: Journal of the Institute of Archaeology.

Os historiadores presumiam que o rei romano, Herodes, o Grande, que morreu por volta de 4 a.C., tinha sido o responsável por grande parte dos esforços de construção que transformaram a antiga Jerusalém num importante centro de peregrinação. Mas a análise feita a mais de 100 moedas encontradas debaixo desta rua recém-descoberta indicam que o início e a conclusão do projeto se deveu a Pilatos, que governou durante cerca de uma década, a partir de 26 ou 27 d.C.

De acordo com o Evangelho Cristão, o governador romano Pôncio Pilatos interrogou Jesus e ordenou a sua execução.
De acordo com o Evangelho Cristão, o governador romano Pôncio Pilatos interrogou Jesus e ordenou a sua execução.
fotografia de Chronicle, Alamy

As últimas moedas encontradas datam de cerca de 31 d.C. As moedas do primeiro século mais comuns em Jerusalém foram cunhadas depois de 40 d.C., “portanto, isto significa que a rua foi construída antes das moedas, ou seja, no tempo de Pilatos”, diz Donald Ariel, especialista em moedas na Autoridade de Antiguidades de Israel.

Pilatos serviu às ordens do imperador Tibério, e os escritores da época mencionam incidentes onde o governador incitou a revolta judaica, ignorando o tabu das imagens esculpidas e provocando a ira do povo por roubar fundos do templo para financiar um novo aqueduto.

O Evangelho Cristão também diz que o governador ordenou a crucificação de Jesus, provavelmente acusando-o de insubordinação. O historiador judaico-romano Josefo afirma que Pilatos foi removido pelo imperador por ter ordenado um ataque aos samaritanos no norte da Judeia, regressando a Roma em desgraça.

O arqueólogo Nahshon Szanton, da Universidade de Telavive, especula que Pilatos pode ter construído a rua para apaziguar os habitantes de Jerusalém, e para engrandecer o seu nome através de enormes projetos de construção. Em 70 d.C., a rua foi enterrada debaixo de escombros, depois de uma revolta entre grupos judaicos que culminaram na destruição da cidade por parte dos romanos. Muitas das lajes desta rua foram posteriormente reutilizadas noutros projetos.

Auditório Romano Descoberto Debaixo do Muro das Lamentações em Jerusalém
Auditório Romano Descoberto Debaixo do Muro das Lamentações em Jerusalém

Matthew Adams, diretor do Instituto de Investigação Arqueológica W.F. Albright de Jerusalém – que não esteve envolvido neste trabalho – diz que os resultados oferecem informações sobre o momento em que Roma exerceu o controlo direto sobre Judeia. "E também oferece alguns indícios de cooperação entre as autoridades romanas e as autoridades religiosas judaicas", acrescenta Matthew, observando que os testemunhos mais conhecidos enfatizam a tensão entre ambas as partes.

Mas Jodi Magness, arqueóloga na Universidade da Carolina do Norte, não está completamente convencida. "O material que eles estão a encontrar é proveniente de preenchimentos que podem ter vindo de qualquer lugar, por isso, estou cética em relação às datações. Não é impossível que Pilatos tenha sido responsável por esta construção, mas essa possibilidade não é a única, ou sequer a mais provável.”

Jodi também critica o método utilizado para desenterrar a rua. “Em vez de escavarem a partir da superfície, estão a perfurar um buraco do tamanho de um túnel de metro. Ficamos sem contexto – não conseguimos ver o que está por cima ou nos lados. É inaceitável."

Uziel argumenta que o túnel era necessário devido ao bairro densamente povoado à superfície, e que a equipa consegue recolher informações estratigráficas detalhadas.

Este empreendimento, em grande parte financiado pela organização judaica Fundação Cidade de David, atraiu críticas internacionais pela sua localização e métodos utilizados. Os palestinianos que vivem e trabalham em Jerusalém Oriental queixam-se dos danos provocados pelas escavações nas suas casas e negócios. Por outro lado, o foco num período famoso da história judaica irrita outras pessoas. A Autoridade Palestiniana diz que o túnel faz parte de um plano para "judaizar" Jerusalém Oriental.

Em junho passado, o embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, discursou na inauguração da controversa escavação arqueológica em Jerusalém Oriental.
Em junho passado, o embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, discursou na inauguração da controversa escavação arqueológica em Jerusalém Oriental.
fotografia de Tsafrur Abayov, AFP/Getty

Em junho, durante a cerimónia de inauguração dos trabalhos arqueológicos, o embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, descartou estas preocupações. O projeto, disse Friedman, "confirma com provas, com ciência e com estudos arqueológicos o que muitos de nós já sabíamos no nosso coração: a centralidade que Jerusalém tem para o povo judaico”.

A ser confirmado, pode ter sido um romano desprezado que ajudou a fazer de Jerusalém uma cidade conhecida por todo o império, não só pelos seus lugares sagrados, mas também pela sua arquitetura monumental.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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