História

Magalhães Foi o Primeiro a Circum-Navegar o Globo, Certo?

500 anos depois, o legado do explorador ainda é complexo – e contestado.quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Por Erin Blakemore
Em setembro de 1519, Magalhães partiu de Espanha com 5 naus. Três anos depois, só uma das embarcações, Victoria (aqui representada num mapa de 1590), regressou a Espanha, depois de circum-navegar o mundo.

Há 500 anos, Fernão de Magalhães iniciou uma jornada histórica para circum-navegar o globo. Simples, certo? Na verdade, não – o explorador e a sua viagem continuam envoltos em contradições. Magalhães era português, mas navegou em nome de Espanha. Era um comandante formidável, mas a sua tripulação odiava-o. A sua expedição foi a primeira a navegar pelo mundo, mas Magalhães não circum-navegou ele próprio o globo.

Porém, parece evidente que a expedição de Fernão de Magalhães mudou o mundo para sempre. A sua jornada foi "a maior viagem marítima alguma vez feita e a mais significativa", diz o historiador Laurence Bergreen, autor do livro Além do Fim do Mundo: A Aterradora Circum-Navegação de Fernão de Magalhães. "Isto não é uma hipérbole”, diz o historiador.

Tal como tinha acontecido anteriormente com Cristóvão Colombo, também o navegador português se propôs chegar à Ásia e às Molucas, ou Ilhas das Especiarias, navegando para Oeste a partir da Europa.

Brutal, incitador de conflitos e corajoso, Magalhães transformou uma viagem comercial num confronto arrepiante que se prolongou por um mundo vasto. No início da sua jornada, os seus contemporâneos suspeitavam que era impossível navegar pelo mundo inteiro – e temiam que os monstros marinhos e os nevoeiros assassinos castigassem alguém que fosse tolo o suficiente para o tentar. "Parecia suicídio fazer algo assim", diz Bergreen.

Fernão de Magalhães nasceu em 1480. Quando era muito novo foi pajem da rainha D. Leonor, consorte de D. João II, e conhecia a vida na corte de Lisboa. Mas Magalhães era um jovem com desejo de aventura e participou numa série de viagens portuguesas destinadas a descobrir e a aproveitar as lucrativas rotas de especiarias em África e na Índia. Na época, Portugal e Espanha estavam envolvidos numa rivalidade intensa para ver quem conseguia encontrar e reivindicar um novo território e assim obter os temperos cobiçados pelos aristocratas europeus. Em 1505, Magalhães viajou para a Índia, Malásia e Indonésia. Mas os seus dias ao serviço de Portugal estavam contados: foi acusado de comércio ilegal e desentendeu-se com D. Manuel I, que recusou uma proposta de Magalhães para descobrir uma nova rota de especiarias.

Magalhães estava convencido de que, se navegasse para Oeste em vez de para Este, atravessando um estreito na América do Sul, conseguiria traçar uma nova rota para a Indonésia e para a Índia. Foi então que abandonou a lealdade que tinha para com Portugal e foi para Espanha, onde conquistou a cidadania e a bênção de Carlos V para fazer uma viagem com 5 naus para Oeste.

Com esta viagem, Magalhães poderia amealhar uma fortuna enorme e estatuto: Carlos V ofereceu-lhe o monopólio, durante 10 anos, sobre qualquer rota que conseguisse descobrir e um título nobre. Mas Magalhães estava numa posição desconfortável em relação à sua missão real e à tripulação, que era maioritariamente espanhola. "Os castelhanos ficaram ressentidos com o facto de velejarem às ordens de um comandante português, e para os portugueses Magalhães era um traidor", escreve o historiador Lincoln Paine.

Uma gravura do século XVI mostra Magalhães cercado de figuras mitológicas e animais fantásticos, e também representa a ideia que os europeus tinham das misteriosas Américas.

Depois de um clima invernal ter obrigado as naus a aguardar durante meses, onde atualmente fica a Argentina, a tripulação de Magalhães amotinou-se. Um navio naufragou; outro abandonou completamente a expedição e regressou para Espanha. O comandante lutou para recuperar o controlo dos seus homens, mas quando o conseguiu, as repercussões foram rápidas e severas. Magalhães ordenou o esquartejamento e decapitação de alguns dos amotinados, outros foram abandonados ou obrigados a trabalhos forçados.

A expedição continuou e Magalhães conseguiu navegar por uma passagem traiçoeira que agora tem uma denominação que o homenageia – o Estreito de Magalhães. Mas os problemas ainda não tinham acabado. Enquanto a expedição atravessava o Oceano Pacífico, a comida apodreceu, e o escorbuto e a fome atingiram a tripulação. Magalhães e os seus homens conseguiram chegar a um lugar que se julga ser Guam, onde mataram indígenas e queimaram as suas casas – castigo por terem roubado um pequeno barco.

Um mês depois, a expedição chegou às Filipinas. Para surpresa da tripulação, Enrique, um escravo que Magalhães tinha comprado antes da viagem, conseguia compreender e falar a língua do povo indígena. Ou seja, Enrique foi provavelmente criado na região antes de ser escravizado – fazendo dele, e não Magalhães, a primeira pessoa a circum-navegar o globo.

Magalhães não perdeu tempo e reivindicou as Filipinas em nome de Espanha, mas o seu envolvimento em algo que Bergreen chama de "guerra desnecessária" foi a sua ruína. "Ele não foi derrotado por forças naturais", diz Bergreen.

Em março de 1521, a expedição chegou às Filipinas, onde as relações com os povos indígenas (aqui representadas) passaram do comércio pacífico de fruta para batalhas campais. Magalhães foi morto na ilha de Mactan no dia 27 de abril.

Magalhães exigiu que o povo local de Mactan se convertesse ao cristianismo e envolveu-se numa rivalidade entre Humabon e Lapu-Lapu, dois chefes locais. No dia 27 de abril de 1521, durante um ataque ao povo de Lapu-Lapu, Magalhães foi morto por uma flecha venenosa.

“Eles atacaram-no subitamente com lanças de ferro e bambu”, escreveu Antonio Pigafetta, um estudioso italiano que acompanhou a expedição, “para matarem o nosso espelho, a nossa luz, o nosso conforto e o nosso verdadeiro guia”. Mas a tripulação abandonou o corpo – um indício da relação que tinham com o líder implacável.

Depois da morte de Magalhães, a tripulação prosseguiu com o único navio que restava, comandado por Juan Sebastian Elcano, um basco, e regressaram a Espanha em setembro de 1522. Ao longo do caminho, encontraram um novo oceano, mapearam novas rotas para o comércio europeu e prepararam o terreno para o globalismo moderno. 60 mil milhas depois, e depois de 80% dos envolvidos terem perdido a vida, a expedição conseguiu provar que o globo podia ser circum-navegado e abriu as portas para a colonização europeia do Novo Mundo em nome do comércio.

Na época de Magalhães, especiarias como o cravinho e noz-moscada eram mercadorias preciosas na Europa, e as árvores tropicais nativas das Molucas eram as únicas fontes.

E assim nasceu uma lenda. Em 1989, o nome de Magalhães viajou até Vénus. Durante uma viagem de 5 anos, a sonda Magalhães da NASA captou imagens do planeta, antes de se destruir na sua atmosfera.

Mas, apesar de algumas pessoas associarem o nome de Magalhães às descobertas, outras evitam usar essa palavra. "Ao escrever o meu livro, declararei que Magalhães chegou às Filipinas em 1521", diz o historiador Ambeth Ocampo, ex-presidente da comissão histórica nacional da República das Filipinas. “Magalhães não deve ser encarado como o começo da história das Filipinas, mas sim como um evento numa história que ainda precisa de ser escrita e reescrita para uma nova geração.”

Um mapa de 1545 traça a rota da viagem mundial de Magalhães – um marco no processo de globalização que demorou séculos.

Para os povos indígenas encontrados por Magalhães e pela sua tripulação, a chegada do explorador trouxe consigo uma nova era de conquista, cristianização e colonização. Lapu-Lapu, o governante de Mactan cujas forças mataram Magalhães, é frequentemente creditado pela morte do explorador. É por isso que, como diz Ocampo, Lapu-Lapu se transformou num herói nacional nas Filipinas.

Apesar de provavelmente Lapu-Lapu não ter feito a ação, é amplamente celebrado como um símbolo da resistência e do orgulho filipinos. Agora, antes do 500º aniversário da chegada de Magalhães às Filipinas, os historiadores estão trabalhar para fazer uma análise mais detalhada do que aconteceu. Em 2021, nas Filipinas, as celebrações do quingentésimo aniversário vão incluir a substituição de uma estátua de Lapu-Lapu, com 3.5 metros de altura, na cidade que têm o seu nome, por um monumento que mostra a batalha em si – e o esforço das pessoas que derrubaram um explorador épico.

Magalhães deve ser considerado um herói? Ou, como diz Ocampo, o primeiro turista das Filipinas? Agora, com Guam, as Filipinas, Espanha e até Portugal a comemorar e a questionar o quingentésimo aniversário, o legado do explorador permanece tão complexo como sempre.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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