História

O Que Estava Dentro dos Biberões na Pré-História?

Análises feitas a resíduos alimentares em vasilhames revelam que alguns bebés eram alimentados com leite animal, possivelmente como uma medida de emergência.quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Por Megan Gannon
Os biberões descobertos em aldeias neolíticas na Alemanha oferecem uma visão íntima sobre a forma como as pessoas cuidavam dos bebés no passado.

Os biberões de cerâmica começaram a aparecer na Europa há cerca de 7.000 anos, quando as sociedades passaram de caçadoras-coletoras para comunidades agrícolas, estabelecidas no início do período neolítico. Com bicos estreitos e formas lúdicas, que às vezes se assemelham a animais, é fácil imaginar estes recipientes nas mãos de bebés. Mas o que bebiam estas crianças?

De acordo com um novo estudo publicado na revista Nature, algumas comunidades no sul da Alemanha alimentavam os seus bebés com leite animal – talvez como parte do processo de desmame – há pelo menos 3.000 anos.

O desmame de uma dieta de leite humano não só é um marco crítico no início da vida de um indivíduo, mas a prática, a nível populacional, também teve uma enorme influência no desenvolvimento das sociedades do passado.

Os biberões de cerâmica, incluindo alguns com a forma de animais, começaram a aparecer na Europa há cerca de 7.000 anos. Estes exemplos datam de 1200 a.C. a 800 a.C.

Apesar de se acreditar que os caçadores-coletores amamentavam os seus filhos até aos 5 anos de idade, as investigações feitas com o recurso as análises isotópicas mostraram que os primeiros agricultores da Europa neolítica terminavam geralmente o desmame dos filhos aos 2 ou 3 anos de idade. Como a amamentação é conhecida por suprimir a fertilidade, o desmame precoce permitiu às mães ter mais filhos e esse aumento na taxa de natalidade levou a um crescimento populacional considerável.

Porém, até agora, os investigadores não tinham evidências diretas daquilo que os bebés bebiam ou comiam durante o processo de desmame.

Julie Dunne, arqueóloga biomolecular na Universidade de Bristol e autora principal do novo estudo, acreditava que as pessoas das comunidades agrícolas tinham acesso a animais domesticados e que usavam o leite animal para dar aos bebés.

Para testar esta hipótese, Julie e os seus colegas analisaram resíduos antigos de alimentos, presos durante séculos no interior de cerâmica poroso de 3 biberões escavados em sítios arqueológicos na Alemanha. Um dos biberões estava no túmulo de uma criança, num cemitério da Idade do Bronze, próximo de Augsburg (1200-450 a.C.), e os outros dois estavam enterrados ao lado dos restos mortais de crianças, num cemitério da Idade do Ferro, em Dietfurt (800-450 a.C.). Os investigadores escolheram especificamente os biberões de túmulos infantis para garantir que estavam a analisar utensílios explicitamente associados a bebés.

Os resultados da análise química revelaram que os recipientes continham gordura de leite de animais ruminantes, um grupo que inclui vacas, cabras e ovelhas. (Não é possível determinar as origens específicas do leite, diz Julie.)

Dar leite animal aos bebés acarretava riscos sérios para a saúde, observa Julie, e não era um substituto adequado para a amamentação. O leite de vaca, por exemplo, possui glóbulos de gordura muito maiores do que o leite humano e podia dificultar a digestão dos bebés. O leite animal também expunha o vulnerável sistema imunitário dos bebés a patógenos e doenças infecciosas. Os biberões de cerâmica porosa, com espaços pequenos muito difíceis de limpar, também podiam facilitar o crescimento de bactérias no seu interior.

Com base no tamanho reduzido da amostra, alguns investigadores alertam contra a suposição de que alimentar bebés com leite animal era uma prática recorrente no passado – sobretudo porque estes 3 biberões estavam em túmulos de crianças que morreram muito cedo.

"Não me parece que estas comunidades antigas tivessem dúvidas sobre o valor do leite humano", diz Daniel Sellen, antropólogo na Universidade de Toronto que estuda alimentação infantil e não participou neste estudo. "São sepulturas de crianças que morreram. Não sabemos do que padeciam. Elas podiam estar a enfrentar problemas de crescimento, ou as mães morreram e as crianças estavam a ser alimentadas com leite animal. Pode ter sido isso que aconteceu, como uma espécie de intervenção médica de último recurso. Ou talvez tivessem infecções, ou estivessem desnutridas devido ao leite animal.”

Ellen Kendall, bioarqueóloga na Universidade de Durham que estuda saúde e nutrição infantil, acredita que os biberões eram uma medida de emergência para situações onde a mãe não conseguia amamentar.

"Não estamos a olhar para as histórias de sucesso desta cultura, ou para as suas normas abrangentes, mas é uma oportunidade para compreendermos qual era a resposta cultural quando as coisas não corriam de feição e terminavam mal", observa Ellen Kendall.

Considerando que estes recipientes estavam em túmulos de crianças, Julie Dunne acredita que os biberões oferecem, pelo menos, uma visão íntima de como as pessoas cuidavam dos bebés no passado. "Os biberões são muito, muito sugestivos", disse Julie. "Creio que isto demonstra claramente o amor, a atenção e os cuidados prestados a estas crianças. Ao ponto de a mãe e o pai pensarem que as crianças deviam levar o seu pequeno biberão para a vida após a morte."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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