O que Pensam as Mulheres em 2019 Sobre Assédio, Mercado de Trabalho e Feminismo

Nova sondagem revela uma imagem surpreendente da vida pessoal feminina e a visão que as mulheres têm da sociedade americana.quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Mulheres na liderança de vários setores estão a mudar a forma como o mundo funciona. A ...
Mulheres na liderança de vários setores estão a mudar a forma como o mundo funciona. A começar na linha superior (da esquerda para a direita): Alicia Garza, Zhang Xin, Jacinda Ardern, Emma González, Kris Tompkins e Christine Lagarde. Fileira do meio: Ellen Pao, Chimamanda Ngozi Adichie, Jennifer Doudna, Oprah Winfrey, Tara Houska, Asha de Vos. Linha inferior: Laura Bush, Nancy Pelosi, Tarana Burke, Alex Morgan, Christiane Amanpour e Sylvia Earle.
Fotografia de Erika Larsen

Quando tinha 6 anos, depois de inúmeras horas à espera do pai no aeroporto, Jessica Reinschmidt decidiu tornar-se piloto. Jessica costumava observar os pilotos a atravessarem o terminal, de malas na mão e com os seus uniformes imaculados. "Posso contar pelos dedos de uma mão o número de mulheres que vi", diz. Quarenta anos depois, capitã de uma grande companhia aérea, Jessica está entre os 6% dos pilotos comerciais que são mulheres. Em Seattle, onde tinha acabado de desembarcar, Jessica lembra alguns dos momentos mais hostis que viveu durante os seus 14 anos de carreira: um colega que dizia que ela tinha sido contratada apenas pela diversidade; um capitão que a confundiu com uma assistente de bordo; e os passageiros que se recusaram a embarcar depois de verem duas mulheres no cockpit. "Estamos constantemente a provar que sabemos voar.”

Jessica Reinschmidt foi uma das mais de 1000 mulheres que participaram na sondagem da National Geographic/Ipsos que se propôs a explorar a perspetiva feminina sobre as demografias socioeconómicas, etárias, raciais e políticas. A sondagem também se focou nas suas vidas e nos desafios que enfrentam no trabalho e em casa, e o estado de igualdade nos Estados Unidos. O que aprendemos? Com o aproximar do centésimo aniversário do direito ao voto feminino nos EUA, e numa época onde o seu poder se está a afirmar, as mulheres ainda se questionam se é possível ter tudo, tanto na vida como profissionalmente.

Agora que a National Geographic está a iniciar uma série de um ano de histórias sobre as mulheres, a sondagem National Geographic/Ipsos, realizada com o KnowledgePanel da Ipsos, descobriu que as mulheres encaram os empregos de prestígio em profissões outrora dominadas pelos homens, como na medicina, nas finanças e no ensino superior, como oportunidades de igualdade. E embora a maioria das mulheres acredite que não sofreu descriminação de género, muitas também dizem que a discriminação e o assédio sexual são um problema predominante nos EUA – equivalente à discriminação racial. Entre as mulheres inquiridas, 69% não se consideram feministas, mas as suas respostas descrevem muitos desafios relacionados com género. E pouco mais de metade diz que na América da atualidade é mais fácil ser homem.

Entre as entrevistadas estava uma corretora da bolsa que foi sempre mantida longe dos grandes clientes, uma mulher polícia com avaliações de desempenho excelentes que nunca foi promovida, e uma empresária que nunca foi convidada para um jogo de golfe. As histórias são muitas: desde solicitações no local de trabalho, ao facto de serem ignoradas pelos médicos e excluídas de eventos empresariais, entre outros. "Nos Estados Unidos, como é que podemos NÃO ser tratadas de maneira diferente por causa do sexo? Eu tive de mudar a forma como falo, como me visto, como escrevo, como me aproximo das pessoas, etc., para não ofender as sensibilidades masculinas”, escreveu uma das participantes.

Entre as mulheres caucasianas presentes na sondagem, apenas 38% consideram importante eleger uma mulher para a presidência, enquanto que entre as mulheres negras e latinas este número sobre para os 55%. E pouco menos de um terço de todas as mulheres identificaram-se como feministas. É algo que se acumula a nível mundial, diz Elisabeth Jay Friedman, professora de ciências políticas na Universidade de São Francisco, citando uma sondagem recente da Ipsos que encontrou números semelhantes em 27 países. No entanto, se aprofundarmos ambas as sondagens, observamos que a maioria das entrevistadas também apoia o tipo de igualdade que o movimento feminista defendeu durante os últimos 50 anos: salários justos, oportunidades iguais e deveres familiares partilhados. "Pela sua experiência de vida, tanto pessoal como profissional, estas pessoas afirmam que acreditam na igualdade de género", diz Elisabeth – mesmo que rejeitem esse rótulo.

Portanto, de acordo com esta sondagem, quais são os problemas da atualidade? O custo dos cuidados de saúde, o assédio sexual, os crimes violentos, a violência armada, o terrorismo, a discriminação racial, as alterações climáticas e a acessibilidade aos cuidados infantis foram os problemas mais assinalados. Quando questionadas se foram discriminadas pessoalmente, ou se foram tratadas injustamente devido à diferença de género, 60% das mulheres disseram que não. E as gerações mais velhas relataram menos discriminação do que as mais jovens. Isto pode dever-se à falta de consciência, diz Elisabeth.

"Se crescermos com expetativas mais baixas em relação ao que é apropriado para o nosso género, é possível que tenhamos passado por algo que hoje em dia se considera tratamento injusto.”

Nos últimos anos, as acusações contra homens poderosos, como Harvey Weinstein e Matt Lauer, dominaram as capas dos jornais e o assédio sexual ficou sob o escrutínio público. Este acontecimento em esferas de poder mais elevadas pode ser o motivo pelo qual mais de 80% das mulheres identificaram o assédio sexual como um dos problemas mais graves nos EUA.

"Estes números são elevados", diz Jane Junn, professora de ciências políticas e estudos de género na Universidade do Sul da Califórnia, sobre os resultados da sondagem. “As questões destacadas pelo movimento Me Too mudaram a perceção das pessoas sobre um tópico que não era mencionado há décadas. Há 30 anos, ninguém teria feito esta pergunta, o assédio sexual fazia parte de um dia normal de trabalho. E apesar de estas questões estarem à vista de todos, enfrentá-las a nível pessoal ainda é difícil. Se isto nos acontecer, o que fazemos? Não podemos perder o emprego. Por isso, ficamos caladas. Mas vemos outras mulheres a falar sobre o que lhes aconteceu. E as pessoas poderosas são derrubadas. Isto permite-nos dizer, sim, é um problema."

Como é que as mulheres encaram o mercado de trabalho em 2019? Propusemos uma lista de profissões e perguntámos quais eram as oportunidades de progressão nessas áreas. Embora algumas profissões – carreiras militares, desportos profissionais e política – tenham sido consideradas mais difíceis para as mulheres, a maioria das profissões apresentadas foram descritas como oferecendo oportunidades iguais. Apenas uma, enfermagem, foi considerada dar mais oportunidades às mulheres.

A desigualdade no local de trabalho, diz Jane, é mais grave em níveis mais elevados – no governo, nas grandes universidades, nos bancos mais lucrativos ou nas empresas mais competitivas de Silicon Valley. Embora o Congresso norte-americano ainda seja predominantemente masculino, em 2018 foi eleito um número histórico de mulheres. As políticas locais e estaduais também são cada vez mais equitativas. O corpo estudantil das universidades de todo o país inclina-se mais para as mulheres, tal como a média de eleitores, deixando Jane otimista em relação ao futuro. "Educação e política – precisamos de ter mulheres a ocupar estes lugares para mudar a mentalidade dos mais novos e melhorar a política", diz. "Se estivemos numa posição em que compreendemos o que significa estar do outro lado do patriarcado, podemos votar para mudar isso.”

As mulheres que entrevistámos também encontraram inspiração em mulheres famosas, como Michelle Obama, Ruth Bader Ginsberg, Condoleezza Rice e Melania Trump. Algumas mencionaram as suas próprias mães, as mulheres nas forças armadas, as mulheres trabalhadoras e, claro, a Oprah. São mulheres que aconselharam as gerações mais jovens da América. "Quebrar as regras é uma forma de resistência, para além de ser a melhor forma de chegarmos onde queremos", escreveu uma das entrevistadas. Muitas destacaram a educação e o trabalho árduo. Outras foram mais assertivas: “Parem de reclamar. Sigam o vosso caminho e nunca dependam de um homem.”

Jane Junn também tem um conselho para dar – continuar a lutar. "Nos EUA, as mulheres ganharam o direito ao voto apenas há 100 anos. Ainda estamos em desvantagem. Precisamos de ser cautelosamente otimistas. Não conseguimos atingir algo de valioso sem dificuldades.”

Para Jessica Reinschmidt, desde entrou num cockpit para ter uma aula há 26 anos, as coisas mudaram. "À medida que mais e mais pilotos que cresceram naquela época de homem e esposa se aposentam, as coisas mudam. E tal como contratamos mais mulheres, também contratamos mais homens que cresceram em famílias onde a mãe e o pai trabalhavam de forma igual.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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