História

Ossadas Revelam Complexidades Sociais ‘Invisíveis’ nos Antigos Lares Europeus

O ADN e as análises isotópicas de pessoas que viviam na Alemanha, há cerca de 4.000 anos, revelam ligações inesperadas entre a vida familiar na Idade do Bronze.quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Os arqueólogos já tinham encontrado indícios de desigualdades sociais em enterros da Idade do Bronze, mas as novas análises científicas estão a ajudar a revelar as diferenças genéticas e geográficas entre as comunidades.
Os arqueólogos já tinham encontrado indícios de desigualdades sociais em enterros da Idade do Bronze, mas as novas análises científicas estão a ajudar a revelar as diferenças genéticas e geográficas entre as comunidades.

Os primeiros indícios de desigualdade social na Europa surgiram durante a Idade do Bronze, com o aparecimento de túmulos de uma elite restrita, repletos de artigos de luxo. É fácil imaginar pobreza e riqueza entre a população, mas uma nova análise, feita em sepulturas antigas no sul da Alemanha, sugere que estas disparidades também existiam no seio familiar, com ricos e pobres a viverem debaixo do mesmo teto.

Uma equipa de investigação centrou recentemente as suas atenções em cemitérios pré-históricos no Vale Lech, na Baviera. Há 4.000 anos, este vale estava cheio de quintas agrícolas da Idade do Bronze, em vez de aldeias fortificadas e sobrelotadas. Cada agregado familiar ocupava uma aldeia individual, com algumas habitações e um pequeno cemitério.

A equipa analisou mais de 100 túmulos descobertos por arqueólogos nestas quintas, com variações desde o período neolítico (há cerca de 5.000 anos), até à Idade do Bronze (há cerca de 3.300 anos).

Através dos dados extraídos de ADN antigo, os investigadores reconstruíram as árvores genealógicas destas famílias. A análise isotópica dos esqueletos permitiu aos cientistas identificar onde é que estes indivíduos foram criados e as distâncias que percorreram durante a vida. Os investigadores também consideraram a forma como estas pessoas foram enterradas – com bens funerários que significavam a sua riqueza em vida.

Os resultados começaram a revelar alguns padrões intrigantes, diz Alissa Mittnik, geneticista na Faculdade de Medicina de Harvard e coautora do estudo publicado no dia 10 de outubro na revista Science. Nas quintas, cada cemitério era geralmente ocupado por uma família central que ali permaneceu durante 4 ou 5 gerações. Os membros da família central eram enterrados ao lado uns dos outros e tinham mais sinais de riqueza, como ornamentos e armas, nos seus túmulos. A propriedade parece ter sido passada pela linhagem masculina, pois as únicas relações de parentesco observadas nos enterros eram entre pais e filhos do sexo masculino.

Quase 60% das mulheres enterradas nas quintas do Vale Lech foram classificadas como "não locais", pois não possuíam vínculos genéticos com outros indivíduos da amostra, e as assinaturas isotópicas sugerem que as mulheres que vinham para o Vale Lech eram de várias regiões diferentes, algumas a centenas de quilómetros de distância. Porém, estas mulheres “não locais” foram enterradas no mesmo tipo de sepultura que as mulheres locais de estatuto elevado.

"Ainda estamos a tentar perceber a identidade e o papel destas mulheres nestas comunidades", diz Alissa. "Uma das teorias que temos é a de que as mulheres de estatuto elevado, de regiões mais distantes, se que podem ter casado com membros destas famílias." Entre as famílias principais, não foram encontradas filhas adultas nos locais, sugerindo que as mulheres que cresceram nestas quintas também se podem ter mudado para casar. Este padrão encaixa nas descobertas anteriores, feitas por Alissa e pela sua equipa, publicadas em 2017.

Por outro lado, os indivíduos enterrados sem sinais de riqueza eram geralmente pessoas locais sem ligações genéticas ao núcleo familiar das quintas.

"Interpretamos estes indivíduos como sendo possivelmente empregados, ou talvez escravos", diz Alissa, com base na ausência de riqueza após a morte comparativamente com os outros túmulos. "Isto oferece-nos a primeira visão de um tipo de família socialmente complexa na pré-história. Observamos uma espécie de desigualdade social que antigamente não era completamente percetível." A equipa acredita que a estrutura social que existia dentro destas casas pode ter sido semelhante às das famílias que surgiram 1.500 anos depois, na Grécia e Roma antigas, onde os empregados domésticos e os escravos eram comuns.

"Estas amostras vêm de uma época onde não existiam textos escritos; portanto, estamos de facto a ter uma imagem detalhada da dinâmica comunitária que ultrapassa o alcance dos dados arqueológicos", diz Krishna Veeramah, geneticista na Universidade Stony Brook, em Nova Iorque. Krishna não participou neste estudo, mas usou ADN antigo para estudar populações bávaras de períodos posteriores. "Usando esta abordagem de escala local detalhada, podem começar a usar o ADN antigo para aprofundar o que realmente acontecia a nível comunitário nestas culturas da antiguidade."

Michael Smith, arqueólogo na Universidade Estadual do Arizona que estudou desigualdades históricas noutras partes do mundo, diz que não é surpreendente encontrar pessoas, para além do núcleo familiar, que viviam na mesma casa, mas alerta contra a suposição de que estes forasteiros eram escravos ou empregados. Ainda assim, Michael Smith ficou muito entusiasmado com os resultados.

"Acredito que o conceito de usar evidências de ADN para analisar as relações de parentesco e a desigualdade a uma escala local é muito promissor, e seria excelente se tivéssemos mais casos onde pudéssemos fazer este tipo de análises", diz Smith.

Para já, parece que os resultados estão a gerar mais perguntas do que respostas. Por exemplo, os investigadores não conseguiram identificar filhos de mulheres não-locais. Se estas mulheres eram de facto noivas vindas de longe, o que aconteceu aos seus filhos? Este é um mistério que Alissa Mittnik e a sua equipa ainda precisam de desvendar, embora especulem que as crianças podem ter sido usadas nalgum tipo de troca.

"Estas crianças podem ter sido enviadas de regresso às comunidades originais das mães, possivelmente para fortalecer as ligações comerciais, conjugais ou culturais a grandes distâncias.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler