Príncipe Harry Tenta Preservar Parques Africanos

A realeza britânica está a expandir as áreas de proteção das nações da Commonwealth.sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Em 2016, o príncipe Harry voou sobre uma reserva florestal, no sul do Malawi, chamada Mangochi. Harry ficou chocado com o que viu. Embora a reserva faça fronteira com um dos destinos de safari mais populares do país, parecia desflorestada e negligenciada. As pessoas começaram a mudar-se para dentro das fronteiras do parque. "Estas comunidades estavam a invadir o parque e estava tudo a arder", recorda o príncipe.

O Malawi, um país rodeado por Moçambique, Zâmbia e Tanzânia, fica nos ambientes da África Austral e Oriental. A região é pobre, tem pouca eletricidade e depende do carvão para obter energia e, de acordo com informações, tem a maior taxa de desflorestação da região. À medida que os grupos de conservação começam a enfrentar esta crise, o esforço da realeza pode exercer pressão para manter as florestas indígenas preservadas.

Em finais de setembro, 3 anos depois de o príncipe Harry ter sobrevoado a reserva e ter pedido a proteção de Mangochi, fez um anúncio: a Reserva Florestal de Mangochi e o Parque Nacional de Liwonde, que ficam lado a lado, uniram-se oficialmente à iniciativa Queen’s Commonwealth Canopy. Debaixo de um sol escaldante, o duque de Sussex acolheu na iniciativa fundada pela sua avó mais de 776 km quadrados de natureza. As placas que indicam a nova designação estão embutidas numa pedra à entrada de Liwonde, debaixo de uma árvore de metal feita de armadilhas confiscadas a caçadores ilegais.

A Queen's Commonwealth Canopy (QCC) foi lançada em 2015 para unir as 53 nações da Commonwealth na conservação. Desde então, 46 países comprometeram-se a proteger 60 áreas – preservando um pedaço de floresta indígena ou replantando uma área desflorestada. Harry visitou o Malawi no final de uma viagem de 10 dias à região sul de África. Alguns dias antes, numa região remota de Angola, o príncipe tinha atribuído a designação QCC ao Parque Nacional do Luengue-Luiana. Antes disso, quando estava no Botsuana, tinha visitado a área em torno do Parque Nacional de Chobe, lar da maior população de elefantes-africanos, que também se vai juntar à iniciativa QCC. No Malawi, o esforço de reconstrução está apenas a começar.

Liwonde, que se estende para além do rio Shire, é uma das zonas de safari mais populares do Malawi. A 30 minutos de distância do portão principal do parque, uma família de elefantes caminha pela estrada à procura de folhas. Os búfalos observam impávidos e serenos enquanto que os outros animais fogem dos carros de safari. A paisagem é árida e as árvores são frágeis, mas quando a época das chuvas começa, o cenário fica exuberante. Os mais de 600 elefantes que aqui vivem partilham os campos e as planícies de inundação com os leões, os leopardos e com os rinocerontes-negros – espécie ameaçada.

A caça furtiva tem deixado as suas cicatrizes em Liwonde. Em 2005, a ornitóloga Tiwonge Gawa estava a fazer um censo no parque quando se deparou com um poço de água. Nas redondezas estavam montes de penas e carcaças: centenas de pombas, estorninhos e periquitos – as espécies que Tiwonge estava a estudar. Quando não chove, os pássaros viajam em bandos enormes para encontrar água; e estes pássaros acabaram num reservatório envenenado por caçadores furtivos. “Esta situação costumava ser comum.”

Em 2015, a African Parks assumiu o controlo de Liwonde. Por todo o continente, esta organização – presidida pelo príncipe Harry – supervisiona temporariamente os parques em dificuldades e ajuda-os a recuperar. Desde então, a African Parks instalou uma vedação para delimitar o perímetro em torno de Liwonde, construiu um centro de treino para os guardas florestais e reforçou a segurança. E também foram reintroduzidos 10 leões e 7 chitas no parque, enquanto que mais de 500 elefantes foram realojados para impedir a destruição de comunidades próximas. O turismo aumentou exponencialmente e o exército britânico tem unidades a operar por turnos para combater o comércio de vida selvagem.

Os parques nacionais melhoraram, diz Tiwonge Gawa, presidente da Sociedade de Vida Selvagem e Meio Ambiente do Malawi, a ONG ambientalista mais antiga do país. Mas a ornitóloga diz que as florestas da sua terra natal, como a Reserva Florestal de Mangochi, estão em crise. “Durante muito tempo, os guardas florestais não andavam armados e era fácil entrar e derrubar árvores.” Por exemplo, em 2015, a exploração ilegal de madeira esgotou tanto uma floresta que o governo se viu obrigado a enviar as forças armadas para interromper as operações. “Algumas florestas únicas desapareceram”, diz Tiwonge, “e com as florestas desapareceram espécies únicas”.

Em Liwonde, numa pequena pista de aterragem, Peter Fearnhead, CEO da African Parks, aponta para a zona onde o parque se cruza com a reserva de Mangochi, a 24 km de distância. No ano passado, a African Parks expandiu a sua supervisão sobre a reserva, que estava a perder árvores e animais selvagens. Agora, a organização tem uma missão delicada pela frente: proteger a vida selvagem e os recursos de Liwonde e de Mangochi, ao mesmo tempo que tenta manter felizes as comunidades que ali caçavam e plantavam.

A vedação elétrica que agora protege Liwonde começou a traçar o contorno de Mangochi. O perímetro não serve apenas para manter as pessoas afastadas, mas também para manter os animais no interior da reserva. "Estas são algumas das maiores concentrações de hipopótamos e elefantes de toda a África", diz Fearnhead. "Se não os contivermos, acabam por matar pessoas".

David Nangoma, que nasceu perto dos limites da reserva, serve agora de ligação entre o parque e as quase 800.000 pessoas que vivem nas redondezas. Em 2015, quando David se juntou à African Parks, Liwonde tinha 6.000 animais de grande porte, mas as armadilhas dos caçadores furtivos eram mais do dobro. Os habitantes locais começaram a pensar que o parque tinha sido vendido e exigiram saber o que estava a acontecer com as suas terras. A African Parks fez um esforço para oferecer meios de subsistência fora do parque, montou projetos de apicultura, construiu escolas e hospitais e criou bolsas de estudos.

Tanto em Liwonde como em Mangochi, a African Parks está a tentar travar a desflorestação e a promover o crescimento natural, mas o futuro é incerto. Enquanto a vida selvagem recupera, o príncipe Harry está preocupado com o tempo necessário para reverter as décadas de degradação ambiental. "Acho que vamos perceber que daqui a 10 anos pode ser muito pior ", diz Harry. "Porque, independentemente do que façamos para tentar remediar os problemas, estaremos sempre atrasados.”

Mas estão a ser feitos esforços. O Departamento de Parques e Vida Selvagem não contribui financeiramente para respeitar a designação QCC, mas a African Parks está a tentar ajudar as comunidades locais a recuperar a lenha que apanhavam nos parques, abrindo cerca de 15 viveiros de árvores. E dentro dos limites das reservas, a natureza está em paz para regressar ao seu ritmo.

A designação QCC pode atrair atenção suficiente para provar que existe recompensa na preservação. Atualmente, a designação não inclui dinheiro, mas enquanto primeira iniciativa ambiental em nome da rainha Isabel II – todas as candidaturas são aprovadas pessoalmente pela rainha – acarreta a pressão da coroa e a atenção da comunidade internacional. E também pode ser bom para o turismo. O príncipe acredita que os viajantes de todo o mundo vão adicionar as áreas QCC aos seus destinos de viagens.

Na cerimónia de atribuição da designação, os guardas florestais, os funcionários do governo e os responsáveis pela gestão do parque fizeram discursos e demonstraram vontade de combater a caça furtiva. David Nangoma acredita que a presença destas figuras – e do príncipe Harry – vai fazer com que o parque e as suas comunidades sejam encarados com outros olhos. E enquanto os meios de comunicação locais e internacionais se amontoavam para instalar as câmaras em frente à sede do parque, David acenou com a cabeça num gesto de aprovação. "O mundo está a ver."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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