Como o Povo Basco se Transformou Numa Comunidade Autónoma

A luta secular pela independência basca pode servir de exemplo para os catalães.quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Se viajarmos pelo País Basco, no norte de Espanha, encontramos vistas costeiras deslumbrantes, paisagens rochosas e muitas quintas. E também encontramos o povo basco, cuja história está repleta de orgulho, opressão e luta.

O grupo étnico basco, originário do sudoeste de França e noroeste de Espanha, também é conhecido por Euskal Herria. Euskal refere-se à língua basca, que linguisticamente é distinta do francês, do espanhol e de qualquer outra língua. Falada por aproximadamente 28% dos bascos modernos, não se sabe exatamente de onde surgiu, como se desenvolveu ou porque razão é tão distinta. Existem pelo menos 6 dialetos bascos, mas a maioria dos bascos fala uma versão padronizada, desenvolvida na década de 1960.

As investigações mais recentes sugerem que os bascos descendem de agricultores neolíticos que ficaram geneticamente isolados de outras populações europeias devido à sua localização geográfica – que varia entre paisagens litorais e cenários montanhosos nos Pirenéus Ocidentais. Esta geografia inóspita não só levou ao isolamento das suas populações como também ajudou a determinar o rumo da história basca. Por exemplo, os bascos já viviam no norte de Espanha quando os romanos invadiram a região, em 196 a.C., mas conseguiram manter a maioria das suas leis e tradições durante todo o domínio romano, incluindo os períodos que se seguiram e onde estiveram sob o jugo de outros invasores.

Por volta de 824 d.C., os bascos faziam parte do Reino de Navarra, um estado medieval governado por uma série de monarcas. Em 1515, grande parte de Navarra foi anexada à Coroa de Castela e tornou-se parte do que mais tarde viria a ser Espanha. A partir de 1839, após um período de relativa independência, o governo basco foi abolido pelo governo espanhol em Madrid. Com o passar do tempo, o movimento nacionalista basco começou a insistir na unidade política e a reivindicar uma nação basca independente. Durante a Guerra Civil de Espanha, Francisco Franco proibiu a língua basca, retirou os direitos dos bascos e ordenou a destruição da cidade basca de Guernica.

O povo basco sofreu bastante com o regime franquista e, em 1959, como forma de retaliação, um grupo de separatistas bascos formou a Euskadi Ta Askatasuna (ETA). Este grupo separatista conduziu uma campanha terrorista que durou décadas e que acabou por ceifar a vida a mais de 800 pessoas. A ETA acabou em maio de 2018.

Espanha concedeu alguma autonomia económica e política ao País Basco e reconheceu a identidade basca em separado. (Embora a Comunidade Autónoma do País Basco, que inclui três províncias bascas, tenha a sua própria identidade, não possui uma capital real: Vitória-Gasteiz é a sua “capital”, mas a maior cidade do País Basco é Bilbau.) Nos anos que se seguiram à morte de Franco, em 1975, a língua Euskera foi amplamente revigorada e a maioria dos bascos interrompeu a luta por uma nação completamente autónoma.

Por outro lado, os catalães, não têm autonomia, e quando a Catalunha fez o polémico referendo sobre a sua independência, Espanha declarou-o ilegal, suspendeu a autonomia da região e prendeu os líderes do movimento. Recentemente, quando 9 dos líderes do movimento independentista receberam longas penas de prisão, a crise ressurgiu, provocando enormes protestos e levantando novas questões sobre o futuro político de Espanha.

O sucesso do povo basco pode indiciar uma solução? Talvez, escreve a correspondente da Reuters, Sonya Dowsett – mas isso pode custar muito dinheiro. Embora os legisladores tenham apontado a autonomia basca como um potencial modelo para a paz na Catalunha, não se sabe se as experiências do povo basco podem realmente oferecer um caminho semelhante para os catalães.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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