Escalada Final de Ötzi, o Homem do Gelo, Reconstruída por Cientistas

A famosa múmia morreu há 5300 anos com uma flecha nas costas, num desfiladeiro nas montanhas alpinas. Agora, os investigadores estão a rastrear o trajeto que o Homem do Gelo fez antes de ser assassinado.quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ötzi, o Homem do Gelo, ferido – e possivelmente procurado – passou os seus últimos dias no topo dos Alpes, até ser atingido por uma flecha nas costas. Cerca de 5300 anos depois, os arqueólogos ainda estão a tentar desvendar o mistério que levou à sua morte. E agora, uma nova análise, feita às plantas cobertas de musgo encontradas onde o Homem do Gelo foi assassinado, pode revelar detalhes sobre a sua frenética escalada final.

Desde 1991, ano em que o corpo de Ötzi foi encontrado por caminhantes, congelado e naturalmente mumificado, nos Alpes Ötztal, perto da fronteira entre a Itália e a Áustria, os investigadores descobriram mais de 60 tatuagens na sua pele. E também descobriram que ele usava um casaco feito com peles de ovelhas e cabras. Recentemente, o seu estômago foi analisado e, pelos conteúdos, descobriram que Ötzi foi assassinado uma hora depois de comer a sua última refeição – comeu carne seca de íbex, carne de veado e trigo. Quando faleceu, com pouco mais de 40 anos, sofria de dores no estômago e tinha a mão direita gravemente ferida, cortada quase até ao osso, entre o polegar e o indicador.

Os cientistas documentaram 75 tipos de briófitas, uma família de plantas que contém musgos e hepáticas, no interior e em torno dos restos mumificados de Ötzi. Agora, estas simples plantas estão a revelar os últimos minutos de vida do Homem do Gelo com mais detalhes, reafirmando ao mesmo tempo a ideia de que estes últimos momentos foram agitados e violentos.

Na nova análise, publicada no dia 30 de outubro na PLOS ONE, os investigadores revelam que cerca de 70% das briófitas encontradas a alta altitude, onde o Homem do Gelo morreu, não eram locais. Muitas destas plantas crescem em altitudes mais baixas, a sul dos Alpes Ötzal. Através do estudo destes restos botânicos, em torno da cena de morte de Ötzi, no Desfiladeiro Tisen – a uma altitude de 3200 metros – os investigadores reconstruíram parcialmente a história da sua jornada final: uma escalada caótica, para a frente e para trás, que abrange milhares de metros de altitude num período de 2 dias.

 Mistério musgoso

James Dickson, professor aposentado de paleoetnobotânica da Universidade de Glasgow, e autor principal desta nova investigação, estuda Ötzi desde 1994, ano em que recebeu amostras dos restos orgânicos escavados no local onde a múmia foi encontrada. Dickson diz que ficou intrigado quando reparou nas evidências de Neckera complanata, uma espécie de musgo que historicamente tem sido usada para calafetar barcos e cabanas de madeira.

Este tipo de musgo foi encontrado em quantidades relativamente grandes no local, muitas vezes preso às vestes de Ötzi. O musgo pode ter feito parte das ferramentas do Homem do Gelo, embora ainda não se saiba como era utilizado. Será que era para isolar ou selar algo? Ou talvez fosse usado como papel higiénico? Independentemente da resposta, a espécie só cresce em altitudes mais baixas; e a sua presença ajudou os investigadores a mapear alguns dos momentos finais de Ötzi.

"Encontrar este individuo assassinado nos Alpes, a uma altitude considerável, não é normal”, diz o antropólogo Albert Zink, que lidera uma investigação sobre Ötzi no Instituto de Estudos de Múmias da Eurac Research, em Bolzano, Itália. "Ninguém consegue explicar as razões pelas quais este homem estava lá em cima."

Para além de comida, o aparelho digestivo preservado de Ötzi também tem vestígios de pólen do ambiente onde ele comeu as suas últimas refeições. Estes vestígios revelaram alguns indícios sobre a sua jornada final noutra investigação – liderada por Klaus Oeggl, paleoetnobotânico na universidade austríaca de Innsbruck, que também é um dos coautores deste novo estudo.

As amostras do reto e da parte inferior do cólon revelaram os alimentos digeridos há mais tempo e têm vestígios de pinheiro e de pólen de abeto. Isto coloca Ötzi numa floresta a 2500 metros de altitude, cerca de 33 horas antes da hora da morte. Mas o trato médio do cólon do Homem do Gelo tem pólen de lúpulo de choupo e de outras árvores que só crescem em florestas de altitudes mais baixas, o que significa que Ötzi pode ter descido até aos 1200 metros, ou menos – talvez até ao fundo de um vale – entre 9 a 12 horas antes de morrer. De acordo com os vestígios de pólen, Ötzi subiu novamente e comeu a sua última refeição numa floresta de coníferas subalpinas, antes de subir ainda mais alto, até ao Desfiladeiro Tisen, onde foi assassinado.

Porém, não se sabe realmente se Ötzi fez a sua descida final pelas encostas mais a sul, onde fica atualmente Itália, ou no norte, onde fica Áustria. Mas nesta paisagem acidentada, existem poucos trilhos possíveis até ao local da sua morte.

“Não sabemos com precisão o trajeto que percorreu”, diz Oeggl.

Plantas de baixa altitude em zonas elevadas

Neste novo estudo, a equipa internacional de cientistas de Dickson investigou exaustivamente a botânica da região e mapeou a distribuição de todas as espécies de plantas identificadas no aparelho digestivo de Ötzi, e nos sedimentos em torno do seu corpo. (Nos Alpes, há 5000 anos, a distribuição destas plantas era bastante semelhante à sua distribuição atual.)

Cerca de 70% das espécies de briófitas encontradas nos restos de Ötzi não crescem a esta altitude. Algumas destas plantas podem ter sido transportadas para o local pelo vento, ou foram levadas por animais, como ovelhas e pássaros. Mas os investigadores afirmam que há vários tipos de musgo de baixa altitude – para além da Neckera complanata – que só poderiam ter sido levados pelo próprio Homem do Gelo. "A distância é tão grande que não existe outra explicação", diz Oeggl.

Alguns dos musgos encontrados no local da morte de Ötzi – incluindo a supracitada Neckera complanata – prosperam em Schalstal, um desfiladeiro no sul de Itália, mas não existem mais a norte. O mapa delineado pela equipa de Dickson reforça a ideia  de que Ötzi, no seu último trajeto, desceu o desfiladeiro antes de escalar novamente. O Homem do Gelo pode ter roçado no musgo no desfiladeiro, ou pode ter levado musgo para embrulhar comida ou para tratar os ferimentos. Durante a descida, Ötzi pode ter chegado ao fundo do vale de Vinschgau, a cerca de 800 metros de altitude, onde pode ter recolhido Sphagnum affine – outra espécie de musgo. Dickson especula que Ötzi podia ter conhecimento das propriedades antissépticas desta planta e que a usou para curar os graves ferimentos que tinha na mão.

Estas descobertas encaixam-se no panorama geral de que a maioria das ligações de Ötzi eram mais a sul. Os vestígios isotópicos, por exemplo, sugerem que Ötzi cresceu na zona sul dos Alpes e que viveu os últimos meses da sua vida nessa mesma área, diz Zink.

Ursula Wierer, arqueóloga no departamento de arqueologia de Florença, em Itália, diz que "há muitas evidências de que o Homem do Gelo viveu na zona sul dos Alpes e que escalou por essa encosta, até ao local onde morreu”. A análise recente de Ursula, feita aos pertences de Ötzi, sugere que ele foi apanhado de surpresa e que as suas armas precisavam de reparação. Ursula diz que este novo estudo é mais uma confirmação de que os momentos finais do Homem do Gelo foram conturbados. "Isto reforça novamente a importância da paleoetnobotânica na reconstrução dos últimos dias de Ötzi.”

As briófitas, como o musgo e as hepáticas, só podem ser estudadas em condições excecionais de preservação, como um pântano anaeróbico ou, no caso de Ötzi, um desfiladeiro congelado. “São incomuns na paleoetnobotânica", diz Logan Kistler, curador de paleoetnobotânica e genómica no Museu de História Natural Smithsonian. "Estas plantas não produzem as sementes ou o pólen que normalmente ficam preservados em sítios arqueológicos. São muito efémeras no ambiente." O novo estudo, acrescenta Kistler, é um bom exemplo do quão notável é o sítio de Ötzi.

“É uma daquelas situações extraordinárias que revela a vida no passado.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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