O Mundo Visto Pelos Olhos das Mulheres

“As mulheres costumam ver coisas... que os homens não reparam”, disse o primeiro editor da National Geographic. O nosso arquivo revela a coragem e empatia das mulheres.quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A história das mulheres fotógrafas da National Geographic é mais uma exceção do que uma regra, mas isso era dantes, agora é diferente. Já ultrapassámos os dias em que as mulheres eram retratadas como objetos decorativos e onde a suposição era a de que os homens eram os criadores de imagens.

E sim, isto era completamente assumido. Uma fotografia de arquivo captada em 1967, com a inscrição “melhor equipa de fotografia do mundo”, mostra 25 homens de fato e gravata em torno da mesa do então editor da National Geographic, Melville Bell Grosvenor, sugerindo que, como escreveu a historiadora de fotografia Naomi Rosenblum, “a linguagem universal da fotografia, da qual a National Geographic (e outras publicações) dependia, era uma contribuição das mentes e olhos masculinos”.

Na década de 1980, Sisse Brimberg, membro da equipa de fotografia da National Geographic, ainda ouvia coisas como: "Quando é que o seu fotógrafo chega?". E isto depois de Sisse ter carregado meia dúzia de caixas cheias de equipamento de iluminação para um museu, para fotografar artefactos.

“A fotógrafa está aqui”, foi a sua resposta lacónica.

Em 2000, quando eu disse a um fotógrafo da equipa que estava a escrever um livro sobre as mulheres fotógrafas da National Geographic, com Kathy Moran, agora diretora adjunta de fotografia, ele respondeu com um tom jocoso: “Mulheres fotógrafas? Vai ser um livro pequeno."

Mas não foi um livro pequeno.

Há 6 anos, Sarah Leen, fotógrafa e editora de longa data da National Geographic, tornou-se na primeira diretora de fotografia da publicação. Atualmente, 47 mulheres tiram fotografias para a National Geographic, tanto para impressão como para formato digital (comparativamente com 67 homens), mas as fotógrafas já contribuem para a revista desde 1914, ano em que Eliza Scidmore publicou Japão Jovem. Eliza Scidmore era amiga do primeiro editor da publicação, Gilbert Hovey Grosvenor, com quem mantinha uma relação de respeito e admiração mútuos; o facto de a esposa de Grosvenor ser sufragista pode ter ajudado. "As mulheres costumam ver coisas sobre... pessoas... que os homens não reparam", escreveu Grosvenor.

No primeiro meio século de existência da National Geographic, o trabalho das mulheres conseguiu vir à tona algumas vezes, como aconteceu com Dorothy Hosmer. Dorothy, na altura com 26 anos, despediu-se do seu emprego de secretária, comprou um bilhete de terceira classe para uma viagem de barco a vapor e escreveu e fotografou um artigo com o título: “Uma Rapariga Americana Viaja Pela Roménia – Peregrina viaja de bicicleta pela terra dos castelos e ciganos, onde os traços do Império Romano se misturam com o que resta das migrações do Oriente”. Este artigo foi publicado em 1938, mas só depois de o editor associado, John Oliver La Gorce, ter expressado a sua apreensão – "Creio que... qualquer mãe não gostaria que a sua filha lesse este artigo, porque isto pode passar a mensagem de que não faz mal viajar pelo mundo por conta própria.”

Outras pioneiras incluem a notável Harriet Chalmers Adams que, entre 1907 e 1935, publicou 21 artigos. Apesar de Adams estar listada como autora no índex da National Geographic, também era fotógrafa. Esta mulher, uma das primeiras e poucas mulheres correspondentes da Primeira Guerra Mundial, era uma exploradora que, antes de falecer em 1937, refez a rota de Colombo, atravessou o Haiti a cavalo e, de acordo com o New York Times, “alcançou vinte fronteiras previamente desconhecidas das mulheres caucasianas... incluindo todos os ramos linguísticos das tribos indígenas – desde o Alasca até à Terra do Fogo. ”

Finalmente, em 1953, a revista contratou a sua primeira fotógrafa. O seu nome era Kathleen Revis e era cunhada do editor Melville Grosvenor. "Melville não tinha receio de mulheres inteligentes", disse Mary Smith, uma das primeiras editoras de imagens da Nat Geo, que trabalhou com Kathleen Revis. "Ele era particularmente imparcial em termos de género, sobretudo para um homem da sua geração."

Ainda assim, é justo perguntar qual é a relevância do género no mundo da fotografia. Laura Gilpin, fotógrafa conhecida pelas suas imagens do sudoeste americano, disse: "Ou somos bons fotógrafos ou não."

Independentemente disso, o género tem a sua relevância. Em algumas situações, as portas podem abrir-se mais facilmente para uma mulher. Jodi Cobb, a terceira fotógrafa contratada pela equipa, fez dois artigos – Mulheres Sauditas (em outubro de 1987) e Gueixa Japonesa (em outubro de 1995) – que nunca poderiam ter sido fotografados por um homem. “As mulheres na Arábia Saudita não se importaram que eu as fotografasse”, lembrou Jodi, “mas elas não queriam que os homens me vissem a fotografar”. Da mesma forma, um artigo de 2011 sobre noivas menores de idade, feito por Stephanie Sinclair, e outro de janeiro de 2019, de Lindsey Addario, só foram possíveis devido ao facto de serem mulheres.

"Faz parte da nossa identidade e eu já usei isso em meu proveito", diz Dina Litovsky, fotógrafa cujo primeiro artigo na National GeographicRaparigas na ciência, esta é a vossa hora – foi publicado recentemente. “Há pouco tempo, estive a fotografar raparigas amish a jogar vólei na praia. Tenho a certeza de que seria diferente se eu fosse homem. A minha câmara é menos ameaçadora.”

"Vinte anos depois, ainda estamos a falar sobre isto", diz Lynn Johnson, que tem mais de 30 anos de experiência a fotografar para a National Geographic. “As mulheres eram invisíveis, mas agora não são. Este rótulo tem agora outro peso e significado... algo que dantes tentávamos esconder por falta de orgulho. Quando eu era mais nova, negava este rótulo. Agora, reivindico-o.”

E a National Geographic também o reivindica – ao trazer mais vidas e vozes de mulheres para as luzes da ribalta e para os temas de conversa, a National Geographic alcançou mulheres de diferentes culturas e países e ajudou a mudar esta realidade. Para ilustrar um artigo sobre o impacto das mulheres na renovação do Ruanda, pedimos à fotógrafa nigeriana Yagazie Emezi, cujo trabalho se concentra nas questões que envolvem mulheres africanas, para documentar este processo. Saumya Handelwal, fotógrafa indiana que fala sobre "roubar os momentos que observa", foi responsável pelas imagens contundentes de um artigo sobre a segurança das mulheres na Índia.

“As mulheres”, disse um editor de fotografia, “parecem querer falar mais sobre a experiência e sobre a relação com os sujeitos que fotografam... e este conceito é genuíno”.

"Às vezes, quero abraçar todas as pessoas que fotografei e uni-las no meu coração, da mesma forma que uma mulher junta flores ou bagas na sua saia, e transportá-las comigo para sempre", disse Maggie Steber, cujo artigo A história de um rosto (feito com Lynn Johnson), publicado em agosto de 2018, foi finalista do Prémio Pulitzer. "Estas pessoas são a minha família", diz Steber. "Estamos unidos para sempre pelo clique de um obturador – um momento congelado no tempo."

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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