Judeus Franceses Estão a Fugir Para Israel

Perante os níveis recorde de antissemitismo, os membros da maior população judaica da Europa procuram uma vida nova em Israel – e enfrentam novos desafios.segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Por Yardena Schwartz
Fotografias Por William Daniels

Ao crescer em Paris, Esther Coscas sentia-se segura. A sua casa ficava no coração da "Pequena Jerusalém", um bairro nos subúrbios de Sarcelles repleto de restaurantes kosher e lojas com nomes hebraicos. Judeus e árabes viviam lado a lado e, tirando os atritos ocasionais, Esther, que é judia, nunca temeu pela sua vida.

Mas tudo mudou no verão de 2014 quando as manifestações pró-palestinianas culminaram em ataques à comunidade judaica. Cantando “morte aos judeus”, os manifestantes partiram montras e queimaram lojas judaicas, barricando pessoas dentro de uma sinagoga enquanto a tentavam incendiar. Esther Coscas, agora com 30 anos, tinha sido mãe há pouco tempo e começou a temer pelo futuro da sua família em França. Os seus irmãos já se tinham mudado para Israel, mas ela queria ficar perto dos pais.

Há cerca de um ano, as manifestações antissemíticas chegaram demasiado perto da casa de Esther e obrigaram-na a tomar uma decisão. A sua melhor amiga, que vivia na mesma rua, foi atacada a caminho de casa por um grupo de jovens que a chamaram de “judia suja” e a agrediram na face, partindo-lhe o nariz. Nessa noite, Esther percebeu que tinha de se mudar.

Perante os elevados níveis de antissemitismo, muitos dos judeus franceses estão a juntar-se a um êxodo para Israel. De acordo com os dados da Agência Judaica, um terço de todos os judeus franceses que emigraram para Israel – desde a sua fundação em 1948 – fizeram-no durante os últimos 10 anos. A Lei de Regresso de 1950 permite que qualquer judeu, de qualquer parte do mundo, se torne cidadão israelita com direito a vários benefícios governamentais, incluindo ajuda financeira, incentivos fiscais, cursos gratuitos de hebraico e voos gratuitos para Israel. Em 2015, quase 8000 judeus franceses fizeram o que se conhece por Aliyah – ascensão à Terra Santa – o maior número de qualquer nação ocidental num único ano.

Em Paris, numa tarde escaldante de julho, um voo da Agência Judaica Aliyah estava destinado a partir para Telavive, e Esther Coscas ia nesse voo. "Queremos abrir uma nova página", diz Esther. O seu bebé de 2 meses dormia no berço, enquanto que as filhas de 4 e 6 anos brincavam. A sua família empacotou tudo em 130 caixas de cartão e 24 malas. “Queremos viver o nosso judaísmo de forma livre e aberta, longe do antissemitismo." Agora, os seus pais e o marido já não têm os filhos em França.

“Espalhar como se fosse veneno”
França é o lar da maior população judaica da Europa, a terceira maior do mundo a seguir a Israel e aos Estados Unidos. No entanto, esta comunidade histórica – que remonta à conquista romana de Jerusalém e à expulsão da população judaica que aconteceu há 2000 anos – está a atravessar uma crise existencial.

O ministro da Administração Interna francês alertou que o sentimento anti-judaico se está a espalhar como se fosse veneno. O presidente Emmanuel Macron declarou que o antissemitismo estava nos níveis mais elevados desde a Segunda Guerra Mundial. E o primeiro-ministro Edouard Philippe admitiu que o antissemitismo está profundamente enraizado na sociedade francesa.

De acordo com uma sondagem publicada em março, em França, cerca de 89% dos estudantes judeus afirmam terem sido vítimas de abusos antissemitas. Em 2017, os judeus foram alvo de quase 40% dos incidentes violentos classificados como raciais ou religiosos, apesar de constituírem menos de 1% da população francesa. Em 2018, os atos antissemitas aumentaram em quase 75%.

A atual vaga de imigração começou depois do massacre de Toulouse em 2012, onde um extremista islâmico nascido em França abriu fogo sobre uma escola judaica, matando um jovem rabino que estava a tentar proteger os seus filhos de 3 e 6 anos. O atirador acabou por matar as duas crianças e uma menina de 8 anos. Em Paris, 3 anos mais tarde, um atirador fiel ao ISIS matou 4 clientes num supermercado kosher. "Nos dias seguintes, recebemos milhares de telefonemas de pessoas a dizer que queriam sair do país", diz Ouriel Gottlieb, diretor da Agência Judaica em Paris. "Das 4 pessoas assassinadas no Hyper Casher, 3 das famílias mudaram-se para Israel."

Esquerda: Samuel Sandler chora o seu filho Jonathan e os dois netos, Gabriel, de 3 anos, e Aryeh, de 6, que foram mortos durante um ataque terrorista a uma escola judaica em Toulouse em 2012. A esposa e a irmã do seu filho Jonathan mudaram-se para Jerusalém, onde Jonathan e os filhos foram enterrados. Direita: Um cartaz feito em memória de Jonathan e dos filhos na casa do seu pai, em Le Chesnay, nos subúrbios de Paris.
Fotografia de WILLIAM DANIELS

Desde então, quase todos os anos assistimos a ataques mortíferos antissemitas – desde o espancamento de Sarah Halimi, de 65 anos, em 2017, ao terrível assassinato em 2018 de Mireille Knoll, uma sobrevivente do Holocausto. Menos assustadores, mas igualmente ameaçadores para esta frágil comunidade, são os incidentes constantes de menor escala, como a profanação de cemitérios e memoriais judeus, ou ataques a crianças que usam yarmulkes. Estes ataques levaram muitos dos judeus a esconderem as suas aparências exteriores de fé. Outros escolheram abandonar o país.

Os que decidiram ficar dizem que é apenas uma questão de tempo. "As coisas só pioram", diz Samuel Sandler, pai do rabino que foi morto em Toulouse. Sentado num café em Paris, Sandler lembra-se de como os seus pais fugiram da Alemanha nazi à procura de um futuro melhor para os filhos em França. A sua avó, primo, tias e tios foram mortos em Auschwitz. "Eu costumava pensar que a guerra tinha acabado e que agora estávamos em França. Pensava que estávamos seguros."

Uma nova forma de ódio
Desde a expulsão dos judeus em 1306, passando pelo Caso Dreyfus de 1894 e terminando na cooperação do governo de Vichy com o extermínio nazi de 75.000 judeus franceses, a França tem uma longa história de antissemitismo. Atualmente, o ódio vem tanto da extrema direita como da extrema esquerda. Alguns manifestantes de Coletes Amarelos atacam os judeus franceses mais proeminentes e dizem que o presidente Macron é uma "prostituta dos judeus".

Mas a comunidade judaica também prosperou na região. França concedeu direitos iguais aos judeus em 1791, inspirando outras nações a seguirem o seu exemplo. E o país já teve 3 primeiros ministros judeus. Um deles, Leon Blum, juntamente com outras figuras judaicas, incluindo Albert Einstein, ajudou a estabelecer a Agência Judaica.

Hoje em dia, muitos dos judeus franceses afirmam que existe uma nova forma de ódio, e dizem que este novo antissemitismo está profundamente entrelaçado com o conflito israelo-palestiniano. Com uma lista de todos os ataques mortais antissemitas feitos desde 2003, Robert Ejnes, diretor executivo do Conselho Representativo das Instituições Judaicas em França (CRIF), conclui: “Doze pessoas foram assassinadas pelo simples motivo de serem judeus. E foram todas assassinadas por islamitas radicais.”

As duas principais organizações muçulmanas em França recusaram-se a fazer comentários para este artigo. Mas numa carta aberta publicada no Le Monde no ano passado, 30 imãs condenaram o crescente extremismo e os ataques antissemitas, enquanto defendiam a sua fé. "Nós também somos muçulmanos, tal como os outros muçulmanos pacíficos que sofrem às mãos de criminosos devido às suas crenças religiosas. Este radicalismo deve ser combatido de forma inteligente por todos os envolvidos, sejam políticos ou imãs.”

“Era completamente diferente”
Sarcelles, um subúrbio de enormes complexos habitacionais, foi construído para abrigar os imigrantes do norte de África – judeus, muçulmanos e cristãos – que chegaram em massa vindos de antigos territórios franceses nas décadas de 1950 e 60. Os novos imigrantes falavam a mesma língua, vinham dos mesmos países e partilhavam a mesma cultura. Apesar de muitos dos judeus terem fugido da violência que existia nos países muçulmanos, todos se deram bem durante algum tempo.

Mas esta coexistência pacífica não durou muito. "As relações entre estas duas minorias mudaram consideravelmente com a integração dos judeus enquanto cidadãos no estado francês, ao passo que os muçulmanos foram integrados como estrangeiros", diz Maud S. Mandel, historiador e autor do livro Muçulmanos e Judeus em França: História de um Conflito. Embora já existisse uma comunidade judaica em França, com organizações que os ajudavam com os costumes do país, os muçulmanos não receberam este tipo de receção. "Isto marcou o início de relacionamentos muito diferentes", diz Mandel, presidente da Faculdade Williams no Massachusetts, nos EUA. "Os diversos catalisadores, como o conflito israelo-palestiniano, colocaram-nos em lados opostos.”

"O mais doloroso é o facto de termos crescido juntos", diz Moise Kahloun, que emigrou da Tunísia em 1969 e é presidente da comunidade judaica de Sarcelles. Dentro da sinagoga, onde Moise estava quando foram barricados pelos manifestantes em 2014, o presidente da comunidade judaica diz: “Quando chegámos, era completamente diferente. Durante 40 anos, a vida comunitária em Sarcelles era o símbolo da vida judaica ideal em França.”

Depois do ataque ao supermercado kosher em 2015, França enviou 4700 soldados para proteger 717 instituições judaicas por todo o país. Embora estas medidas possam ter impedido mais massacres, também perpetuaram os sentimentos de insegurança. Esther Coscas evitou a sinagoga em Sarcelles porque não conseguia suportar os soldados armados à porta.

Apesar de as autoridades francesas terem reconhecido a crise do antissemitismo, muitos dos judeus franceses sentem que as palavras das autoridades são vazias. Em julho, um juiz francês decidiu que o homem que assassinou Sarah Halimi em 2017 não estava apto para ser julgado porque na altura estava sobre o efeito de estupefacientes. Esta decisão ecoou outra de 2010, quando o homem que matou um  judeu não foi a julgamento devido à sua instabilidade mental.

"O governo francês não está a fazer nada para combater o antissemitismo", diz Yohanane Elfersi, de 64 anos, que vai abandonar França porque o êxodo em curso esvaziou a sinagoga do seu bairro. "Quando as coisas acontecem, eles dizem que é muito triste e que estão com os judeus. Mas depois os assassinos vão a julgamento e dizem que são loucos e que não têm culpa.”

Alguns judeus dizem que a negligência do governo os está a obrigar a sair do país, mesmo quando preferem ficar. Stella Bensignor trocou um subúrbio de Paris por outro depois de ter sido alvo de dois ataques. No primeiro caso, a sua casa foi invadida e todos os itens judaicos foram destruídos. Dois meses depois, alguém escreveu “JUDEU” em letras gigantes no seu carro. A polícia disse a Stella para ela se mudar para outro bairro. E uma organização antirracismo sugeriu que a sua família se mudasse para Israel. "Não queremos fugir de França, mas isto foi há dois anos e as coisas só pioraram. Eu sei que vamos ter de ir para Israel."

Pastelarias francesas e lições de hebraico
"Bem-vindos a casa, à terra de Israel", anunciou o capitão quando o voo aterrou em Telavive. Os passageiros aplaudiram. Alguns beijaram o chão quando desceram do avião, onde centenas de pessoas aguardavam numa tenda gigante para comemorar a sua chegada.

França é a terceira maior fonte de imigração para Israel, a seguir à antiga União Soviética e aos Estados Unidos. O fluxo maciço de imigrantes franceses para Israel deu origem a bairros cheios de pastelarias, cafés e agentes imobiliários que servem clientes vindos de França. Mas, de acordo com os dados da Agência Judaica, em 2018 mudaram-se menos 23% judeus franceses para Israel do que em 2017 – menos 25% do que em 2016.

Este declínio acontece porque as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes em Israel levaram a que muitos permanecessem em França. De acordo com uma sondagem feita pela Qualita, uma organização dedicada a imigrantes franceses em Israel, 10% dos judeus regressam a França após 3 anos. Muitos têm dificuldades de adaptação a uma sociedade extremamente diferente. A Agência Judaica está ciente desta situação e está a fazer pressão sobre o governo para melhorar os serviços e facilitar a integração, diz Isaac Herzog, Presidente da Agência Judaica. "Os franceses vivem num país muito desenvolvido e esperam ter a mesma qualidade de vida aqui.” Mas estas expectativas estão geralmente muito longe da realidade.

Muitos dos imigrantes que estavam no voo de julho fizeram planos meticulosos para evitar os erros cometidos pelos que regressaram a França. Yael e Thierry Zeitoun, que emigraram com os seus dois filhos adolescentes, passaram 3 anos a prepararem-se. Pouparam dinheiro, pesquisaram oportunidades de trabalho e agora pretendem passar um ano a aprender hebraico e a viver com custos moderados. "Sabemos que não vai ser fácil", diz Thierry.

Uriel Hertzberg encontrou dificuldades muito antes de chegar. Ele e a sua esposa pensavam que tinham um apartamento em Telavive, mas o acordo fracassou no último minuto devido a questões burocráticas. Duas horas depois de aterrarem em Israel, Uriel desmaiou de exaustão devido ao calor e teve de ser levado para fora da tenda de receção numa maca. Agora, este casal está com dificuldades devido ao custo de vida em Telavive, que foi recentemente classificada como a 10ª cidade mais cara do mundo.

“Aqui, é tudo mais caro e as pessoas ganham menos. Eu não percebo”, diz Uriel Hertzberg, enquanto se dirige para o apartamento do seu filho para jantar, passando por edifícios em ruínas.

Apesar de tudo, Uriel está contente por estar com os filhos que se mudaram para Israel há alguns anos. “Para mim, Israel é esperança. Espero que aqui tudo seja possível para um judeu”, diz com os olhos a brilhar. Os seus pais escaparam da invasão nazi da Polónia e os pais da sua esposa fugiram da Argélia e de Marrocos. "Os nossos pais e avós não tiveram escolha. Mas nós escolhemos vir para aqui, pelo menos para já. Espero que continue sempre assim.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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