Médica Síria Salvou Milhares de Pessoas em Hospital Subterrâneo

Durante a devastadora guerra civil na Síria, Amani Ballour tratou vítimas de ataques aéreos e químicos – memórias que ainda hoje a atormentam.segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O rugir de um trovão; um avião a sobrevoar; uma batida na porta – Amani Ballour tem medo de ruídos muito altos. Os sons fazem-na lembrar-se dos caças e dos bombardeamentos que a forçaram relutantemente a fugir da Síria, a sua terra natal, em 2018.

Em Gaziantep, na Turquia, num apartamento parcamente mobilado, a pediatra de 32 anos não encontra tranquilidade. No silêncio, Amani lembra-se dos jovens pacientes a quem chama de "as minhas crianças", e lembra-se dos que sobreviveram e de muitos outros que morreram.

Durante dois anos, de 2016 a 2018, Amani geriu um hospital subterrâneo conhecido como a Caverna, na sua cidade natal no em Ghouta Oriental, perto da capital síria, Damasco. Foi aí que testemunhou crimes de guerra, incluindo o uso de armas químicas e bombas de cloro, ataques aéreos a hospitais e ataques que visavam um uma zona de refúgio para pessoas que já estavam gravemente feridas.

"Não existiam lugares seguros", diz Amani. “Imagine ser vítima de um ataque aéreo, ser tratado no hospital e depois ser bombardeado lá também. O hospital foi atingido muitas vezes. Pediram-me para verificar o número de bombardeamentos. Acredite, eu não conseguia contar todos.”

Enquanto administradora da Caverna, Amani Ballour era responsável por uma equipa de cerca de 100 pessoas, numa cidade sitiada por tropas leais ao presidente sírio Bashar al-Assad. Durante anos, os itens essenciais, como alimentos e provisões médicas, foram interditos ou proibidos de entrar na cidade rebelde de Ghouta Oriental – parte da estratégia de "fome ou submissão" de Assad, forçando Amani e outras pessoas a contrabandear mantimentos.

Os aviões de guerra de Assad e, desde setembro de 2015, os aviões de combate russos, obrigaram o hospital a funcionar no subsolo, num labirinto de túneis e bunkers.

A história de Amani Ballour é apresentada num documentário da National Geographic, The Cave, realizado por Feras Fayyad, nomeado para os Óscares em 2018 com o documentário Últimos Homens em Aleppo. The Cave conta a história angustiante da luta de Amani para providenciar tratamentos médicos e algum conforto, no meio da guerra, num hospital subterrâneo.

Amani Ballour, filha mais nova de uma família de três raparigas e dois rapazes, diz que, desde que era criança, sempre aspirou a "fazer algo diferente", em vez de se tornar numa dona de casa como as suas irmãs mais velhas que se casaram na adolescência. Com o coração voltado para a engenharia mecânica, matriculou-se na Universidade de Damasco. Mas a pressão da sociedade e a oposição do seu pai levaram-na a mudar para a medicina, disciplina que Amani diz ser considerada "uma carreira mais apropriada para uma mulher, mas só como pediatra ou ginecologista".

Mas Amani escolheu a pediatria e ignorou as pessoas que gozavam com ela – "Quando você se casar, pendure o diploma na cozinha”, frase que ouviu inúmeras vezes.

Em 2011, quando a onda de protestos árabes pacíficos chegou à Síria, Amani era uma estudante de medicina do 5º ano, a um ano de se formar. Os protestos envolveram rapidamente Ghouta Oriental. Amani marchou numa manifestação, mas não contou à sua família porque os pais "teriam sido um milhão por cento contra isso, eles tinham muito medo de que algo me pudesse acontecer". Noutro protesto, Amani gravou breves segmentos em vídeo, mas estava com muito medo de os divulgar. "Eu tinha pavor de ser detida. Ainda assim, a experiência foi emocionante. Parecia que eu estava a respirar liberdade, foi incrível. Foi entusiasmante dizer simplesmente que não ao que estava a acontecer num país governado durante décadas por um regime.”

Naquela altura, os Assad – Bashar e, antes dele, o seu pai Hafez – governavam a Síria com mão de ferro há mais de quatro décadas. Amani lembra-se de como eram as coisas quando era criança. "Era proibido falar de certos assuntos, sobretudo mencionar o nome do presidente Hafez al-Assad sem ser para o elogiar... as paredes tinham ouvidos". Amani ouviu apenas sussurros do Massacre de Hama de 1982, quando as forças de Hafez al-Assad mataram milhares de pessoas, insurgentes e civis, numa insurreição islâmica de curta duração. "Os meus pais nunca nos contaram nada sobre o massacre de Hama, mas deviam tê-lo feito.”

Em 2000, quando Bashar al-Assad sucedeu ao seu pai, Amani perguntou porque é que os sírios não podiam eleger um líder com outro sobrenome. “Quando fiz esta pergunta, disseram-me para ficar calada porque alguém podia estar a ouvir. Foi muito assustador."

Enquanto o estado sírio reprimia de forma violenta o movimento de protesto, afastando os manifestantes com bastões, gás lacrimogéneo e munições reais, Amani era atraída para uma situação cada vez pior, mas não como manifestante. Nos primeiros anos da revolução síria, as forças de segurança perseguiam rotineiramente os manifestantes feridos nos hospitais. Os que procuravam tratamento médico corriam o risco de serem detidos – desaparecendo na teia de masmorras do regime – ou pior, mortos no local. As clínicas de campo secretas começaram a surgir silenciosamente nas casas, nas mesquitas e noutros lugares.

Amani lembra-se de os vizinhos a terem ido chamar a casa para tratar do seu primeiro paciente, uma criança que tinha sido ferida num dos protestos. Foi no final de 2012 e Amani tinha acabado de se formar. “Era uma criança que tinha levado um tiro na cabeça. O que é que eu podia fazer para o salvar? Ele estava morto. Tinha apenas 11 anos."

O seu primeiro trabalho, como voluntária sem remuneração, foi tratar dos feridos num hospital de campo que tinha sido instalado num edifício parcialmente construído, um edifício que o regime tinha previsto ser um hospital. Amani era uma de dois médicos a tempo inteiro que trabalhavam nas instalações. O outro era o fundador da clínica, Salim Namour, um cirurgião de 26 anos. Salim lembra-se de ter conhecido a jovem quando ela se formou. "Ela apresentou-se e ofereceu-se para ajudar", lembra Salim. "Muitos dos médicos experientes estavam a fugir, mas aqui estava esta jovem com formação que tinha ficado para ajudar."

O hospital tinha uma sala de operações e uma sala de emergência na cave. Mas rapidamente se iria expandir para uma rede de abrigos subterrâneos que ficaria conhecida pelos habitantes locais pelo nome de Caverna. Com o passar do tempo, foram acrescentadas enfermarias, incluindo uma zona de pediatria e medicina interna, e outros médicos, enfermeiros e voluntários juntaram-se aos esforços de ajuda. O hospital tinha máquinas e equipamentos recuperados de hospitais danificados, que estavam perto das linhas da frente, e contava também com mantimentos médicos contrabandeados e pagos por ONG internacionais e sírias.

Amani não era um cirurgiã, mas quando as vítimas começaram a chegar, até os veterinários e optometristas trataram dos feridos. Ela teve de aprender depressa, não só medicina de emergência, mas também a lidar com os horrores de uma guerra cruel. As primeiras vítimas em massa que Amani viu eram corpos carbonizados. Vários anos depois, ainda tem memórias vívidas do cheiro das pessoas queimadas, algumas ainda estavam vivas. “Foi a coisa mais chocante que eu alguma vez tinha visto, ainda não tinha experiência, era recém-formada. Fiquei tão perturbada que nem conseguia fazer o meu trabalho. Mas depois acabei por ver tantos massacres, tantas vítimas, e comecei a trabalhar.”

No dia 21 de agosto de 2013, Amani e os seus colegas dedicados enfrentaram um novo horror: armas químicas. O ataque com gás sarin feito em Ghouta Oriental matou centenas de pessoas. Amani lembra-se de correr para o hospital na calada da noite, passando por pessoas mortas e vivas, espalhadas pelo chão, para chegar à sala de mantimentos e começar a tratar dos pacientes. "Não sabíamos exatamente o que se passava, sabíamos apenas que as pessoas estavam a sufocar. Todos os pacientes eram um caso de emergência, e um paciente que está a sufocar não pode esperar, mas estavam todos a sufocar. Salvámos os que conseguimos, mas os que não conseguimos salvar a tempo acabaram por morrer. Não tínhamos mãos a medir."

No ano seguinte, Salim Namour formou um conselho médico local com os 12 médicos que restavam, para atender uma população de cerca de 400.000 pessoas presas em Ghouta Oriental. O conselho incluía dois dentistas e um optometrista. Nem todos os membros do conselho trabalhavam na Caverna, mas juntos decidiram eleger um administrador para um mandato de 6 meses, mandato que foi posteriormente alargado para um ano. No final de 2015, Amani decidiu chegar-se à frente. "Não percebi porque razão não podia ser administradora, sobretudo se fosse por causa de ser mulher. Eu era médica e eles (os dois administradores anteriores) eram médicos. Eu estava no hospital desde o primeiro dia, sabia o que era necessário, tinha ideias para expandir as instalações, tinha um plano.”

O pai e o irmão eram contra esta ideia, visto que Amani já passava todos os dias e muitas das noites na Caverna. "O meu pai receava por mim, mas eu não podia regressar a casa. Não tínhamos médicos suficientes. Ele disse-me que as pessoas não me iriam aceitar e que eu enfrentaria muitos problemas. No dia seguinte, candidatei-me fui eleita administradora do hospital.”

Amani Ballour assumiu a liderança do hospital no início de 2016, poucos meses depois de os ataques aéreos terem aumentado com a chegada da força aérea russa. A reação de alguns dos pacientes e dos seus familiares foi rápida e previsível. “O que eu ouvi de muitos homens foi: ‘O quê? Não temos homens no país e temos de nomear uma mulher? Uma mulher?! Eles não diziam uma médica, diziam uma mulher."

Amani, uma mulher frágil e dócil, enfrentou homens conservadores com ideologias  patriarcais – muitos deles eram seus pacientes e familiares – que desafiaram a sua capacidade em administrar um centro médico em tempos de guerra.

"Mas eu respondia assertivamente", referindo-se aos homens que lhe diziam que o seu lugar era em casa. "Eu não ia ficar calada, quando temos razão, temos razão... alguns dos homens diziam que era perigoso, que a área estava cercada, que era um trabalho difícil e que devia ser feito por um homem. Porquê? Uma mulher também o conseguia fazer, e eu fiz.”

Mas Amani foi completamente apoiada nos seus esforços pela equipa do hospital, incluindo Salim. "Não pude aceitar esta conversa patriarcal", diz Salim. "Eu dizia aos homens: ela está aqui sempre que precisamos dela, trabalha dia e noite, ao passo que alguns dos médicos que todos conhecemos fugiram para as zonas controladas pelo regime para trabalhar em segurança. O que é que preferem? Não se trata de género, mas sim de ações e capacidades, e a Dra. Amani fez muitas alterações positivas no hospital.”

Amani expandiu a Caverna, alargou os bunkers e cavou túneis para duas clínicas pequenas na cidade – e para o cemitério. "Precisávamos de enterrar os mortos, mas estar acima do solo era demasiado perigoso. Não nos conseguíamos movimentar à superfície”, diz Amani.

Enquanto o cerco apertava e os aviões rugiam nos céus, Amani teve a oportunidade de fugir pelos túneis, mas nunca o fez. "Como é que eu podia fugir? Porque razão tinha estudado medicina se não ajudasse as pessoas que precisavam? Eu estava lá porque precisavam de mim, não para abandonar tudo quando me apetecesse.”

O número vítimas diárias rapidamente escalou para os três dígitos. O hospital foi repetidamente alvo de ataques aéreos que penetraram profundamente na Caverna, destruindo uma das alas, matando 3 pessoas e ferindo muitas mais. Numa determinada ocasião, Amani tinha acabado de sair de uma ala quando os mísseis caíram atrás de si. “Eu não conseguia ver nem ouvir nada. O corredor estava cheio de poeira suspensa no ar.” Quando a poeira se dissipou, Amani viu os seus colegas mortos: “Os corpos deles estavam em pedaços.”

As ambulâncias foram destruídas e as equipas de resgate morreram enquanto tentavam recuperar os feridos. Em fevereiro de 2018, a ofensiva final de Assad em Ghouta Oriental incluiu um ataque de cloro. "O cheiro a cloro era avassalador", recorda Amani. “Não tenho palavras para descrever como era, como vivíamos, mas quero que as pessoas percebam porque razão partimos. As pessoas estavam cansadas e famintas. Muitas renderam-se, incluindo combatentes que largavam as armas e iam em direção aos soldados do regime... o exército estava a aproximar-se. Eles estavam muito perto, a única solução era fugir. Temíamos que nos matassem se nos apanhassem.”

Uma Comissão de Inquérito da ONU informaria mais tarde que, durante o cerco e a recaptura de Ghouta Oriental, as forças sírias e aliadas cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Os métodos de guerra de Assad em Ghouta eram "bárbaros e medievais", disse o relatório da ONU, incluindo "o cerco mais longo da história moderna, que durou mais de 5 anos".

No dia 18 de março de 2018, Amani Ballour e a sua equipa evacuaram os feridos e abandonaram a Caverna, mas só depois de a médica passar por todos os quartos para dizer adeus. “Pensei em todas as pessoas que passaram por aquele hospital. Eu era uma criança quando o prédio que se tornaria no hospital estava a ser construído, e mais tarde trabalhei nele durante 6 anos. Fomos atacados e sitiados, salvamos e perdemos vidas naquele local. Eu tinha tantas memórias daquele lugar, a maioria eram dolorosas, mas também tivemos bons momentos. Para mim, foi muito, muito doloroso abandonar o hospital.”

Amani abandonou o local sem nada a não ser a roupa que tinha no corpo, deixando para trás a sua adorada bata branca que usava desde que era estudante de medicina. "A bata tinha tanto sangue que eu não a pude levar comigo. Era muito especial para mim."

Amani e vários membros da sua família e colegas, incluindo Salim Namour, fugiram inicialmente para Zamalka, um subúrbio de Damasco que também estava a ser bombardeado. Dez dias depois, Amani estava novamente em movimento, desta vez para a província de Idlib, no noroeste da Síria, na fronteira com a Turquia, a última fortaleza rebelde do país. Amani nunca tinha estado em Idlib, mas não havia outra forma de escapar aos caças bombardeiros.

Amani ofereceu-se para ajudar um pediatra no hospital de campanha da vila, mas não conseguiu ficar mais do que algumas horas nas instalações. “Quando olhei para as crianças em Idlib, lembrei-me das minhas crianças e do que lhes tinha acontecido. Eu não conseguia passar por aquilo novamente. Psicologicamente, estava completamente esgotada, estava de rastos.”

Como se não bastasse, Amani ainda teve de ouvir comentários em Idlib, sobretudo de combatentes islâmicos que a culpavam e a outras pessoas de Ghouta Oriental pelo que chamavam de "rendição" ao regime. Em junho de 2018, depois de 3 meses em Idlib, fugiu para Gaziantep, na Turquia, onde se casou com um ativista de Daraa com quem mantinha contacto enquanto estava em Ghouta, mas que nunca tinha conhecido pessoalmente.

Agora, está segura, mas não está feliz. O sol de inverno pode atravessar as janelas do seu apartamento, e já não está no subsolo, mas vive com a amargura de ser refugiada num país desconhecido, lutando com o fardo do que viveu e com as memórias dos que não sobreviveram, sobretudo as crianças.

"As crianças estão sempre comigo. Há crianças que não consigo esquecer, é impossível esquecê-las. Havia crianças que eu tratava na enfermaria pediátrica (que tinham asma e outras doenças) e depois encontrava-as novamente e estavam feridas. Era como trabalhar com pessoas da família. Eu não conseguia olhá-las nos olhos. Às vezes, ia-me abaixo, desmoronava."

Amani ainda tem pesadelos e todos os ruídos a fazem lembrar os aviões de guerra. “Durante as tempestades, se o meu marido não estiver em casa, chamo-o para garantir que o barulho não é um ataque aéreo.” Na sua mente, repete as conversas que teve com alguns dos pacientes mais novos, como Mahmoud, de 5 anos, que perdeu uma mão devido aos estilhaços e que, no meio de lágrimas, perguntou a Amani porque é que ela lhe tinha cortado a mão. “O que é que eu podia dizer quando ele me perguntou isso? Chorei muito nesse dia.” E havia outra criança que perdeu um braço. "Ainda o consigo ouvir a chamar por mim, a pedir ajuda.”

Na Síria, sentia-se útil, como se estivesse a fazer a diferença. "Aqui, sinto-me como se não fosse nada." Amani passa os dias a trabalhar como voluntária com um grupo de mulheres sírias e está a aprender a falar inglês na esperança de um dia ir viver para o Canadá, mas muitos dos seus pedidos foram rejeitados.

“Sinceramente, a palavra refugiado é um rótulo complicado. Adoro o meu país, a minha casa, a minha vida na Síria, as minhas recordações. Porque razão somos refugiados? As pessoas devem interrogar-se sobre o que está por detrás da palavra 'refugiado' e porque é que escapámos. Sou refugiada porque fugi da opressão e do perigo. Eu não queria partir. Apesar de tudo, preferia ter ficado em Ghouta. Fomos cercados e bombardeados e persistimos durante 6 anos, não queríamos sair dali. Foi um momento muito, muito difícil... só espero que as pessoas que olham para nós como refugiados se perguntem porque é que abandonámos o nosso país. É uma palavra dolorosa, mas não tive escolha. Não tive mesmo escolha.”

Amani quer continuar a praticar medicina, mas não como pediatra. Em vez disso, quer mudar para radiologia. "Psicologicamente, não consigo atender pacientes, principalmente crianças." É um sentimento que Salim Namour compreende. “Sou um cirurgião que passou a vida a operar em teatros de guerra, mas depois da experiência amarga que vivemos, depois da desumanidade e do sofrimento que vimos em Ghouta, não suporto ver sangue ou estar numa sala de operações. Para mim, a cirurgia é uma técnica, como um pintor que trabalha num quadro. Mas nós sobrevivemos a dias muito difíceis.”

Amani Ballour está a tentar encontrar formas de ajudar o seu povo. Neste momento, está envolvida com uma fundação chamada Al Amal (esperança) para apoiar líderes femininas e médicas em zonas de conflito. E defende veementemente que se deve ajudar os milhões de sírios deslocados que vivem em cidades feitas de tendas na Síria, e os milhões que ficaram refugiados para além das suas fronteiras.

A guerra na Síria pode ter desaparecido das páginas do jornais, mas Amani está determinada em informar as pessoas sobre as atrocidades que testemunhou numa guerra de quase 9 anos – e que está longe de terminar. "Não quero contar histórias tristes que façam as pessoas chorar, quero ajudar. Ainda há muitas pessoas que precisam de ajuda."

E também existe a questão de justiça. A criança cujos pais estavam demasiado receosos em falar sobre o massacre de Hama é agora uma médica determinada a divulgar amplamente o seu testemunho sobre os ataques químicos em Ghouta Oriental. "Devo prestar este testemunho às organizações para que, esperamos nós, o regime seja responsabilizado por todos estes crimes. Eu vi, isto aconteceu."

"A única coisa que me ajuda é saber que estávamos a fazer o que era correto, no lado certo da história, porque nos opusemos à injustiça. A minha consciência está limpa. Eu tinha um dever para com as pessoas e cumpri-o da melhor forma possível com os meios que tinha à disposição. Às vezes, arrependo-me de ter partido e culpo-me, mas depois percebo que não tive escolha. Esta é a verdade sobre os sentimentos que carrego dentro de mim. Eu tentei ajudar, e isso ajuda-me, tive uma atitude humanitária.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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